08/11/2008

ENTREVISTA MAURO GUIMARÃES
Palestrante da UFRRJ no I Congea


"Momento de crise

extremamente rica"



O Palestrante e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Mauro Guimarães, concedeu entrevista a Wagner Oliveira e Luciana Lima, da comissão de Comunicação e Imprensa do I Congresso Goiano de Educação Ambiental – Congea na quarta-feira, logo após a abertura do evento.
Mauro Guimarães faz palestra nesta quinta-feira, 16 de outubro mas adiantou nesta entrevista o que vem alertando: “Vivemos um momento de crise. Em duplo sentido: perigo de fato do que estamos vivendo, mas também oportunidade de criar o novo. Momento de crise extremamente rico porque permite questionar o momento em que vivemos e ao mesmo tempo ter a oportunidade de construir algo novo. Mas isso vai depender do que vamos fazer daqui pra frente.”
Mauro Guimarães observa que Goiânia tem uma certa tradição em realização de eventos ambientais. “Em 2005, tivemos o 5º fórum brasileiro, que é considerado maior evento na área de educação ambiental pelo quantitativo de público que conseguiu abrigar.” Abaixo entrevista completa.

Comissão de Comunicação e Imprensa do I Congea - Como deve ser a educação ambiental frente aos desafios globais?
Mauro Guimarães -
O tema que vou abordar é o que já venho trabalhando com a formação de professores. O desafio maior que vejo e todos nós educadores ambientais temos de encarar é o desafio da crise que estamos vivendo. Uma crise de grandes dimensões sociais, ambientais, que nos coloca numa situação de opção radical. Precisamos de fato tomar a rédea do processo. Tentar mudar o curso do rio porque da forma que está hoje nos leva a uma situação bastante difícil para a humanidade. Minha perspectiva de trabalho é sempre pensar como a educação ambiental pode contribuir de fato em transformação significativa da realidade. Pensar o educador ambiental como sendo um agente que contribua no processo de transformação da realidade sócio-ambiental. E qual é o processo que pode gerar essa situação de transformação da realidade? A partir da dimensão educativa.

“O trabalho do educador ambiental é um trabalho de articulador da sociedade, desses movimentos de resistência”

Comissão de Comunicação e Imprensa do I Congea - Dentro deste contexto de crise, o que a humanidade pode fazer?
Mauro Guimarães -
Acredito que não tem como não entrarmos na dimensão política do processo educativo. Acreditando que o processo educativo que pode causar uma transformação da realidade é aquele que prepara, forma cidadãos. Uma perspectiva de cidadãos em movimento, organizados de forma coletiva, conscientes de toda essa situação vivenciada e que possam estar na sua prática social buscando o processo de transformação da realidade. De que forma? O enfrentamento político. Criando um movimento para se contrapor a essas situações que são dominantes hoje na nossa realidade, constitui a nossa realidade da forma como ela é. E no momento que vamos construindo movimentos políticos que resistam a essas formas que existem é que criamos condições de nesse embate das forças hegemônicas com forças contra-hegemônicas que estão sendo estruturadas podermos criar a oportunidade de o novo surgir. Vejo que o trabalho do educador ambiental é um trabalho de articulador da sociedade, desses movimentos de resistência. De resistir aos valores que estão aí. E procurar na sua prática, na sua convivência construir novos valores, novos hábitos, novas atitudes que gerem uma nova situação, uma nova realidade, que procuramos trabalhar no sentido da sustentabilidade.

“O discurso ambiental é um discurso que se contrapõe a realidade que está posta”

Comissão de Comunicação e Imprensa do I Congea - Como deve ser a formação de educadores ambientais? Existe fórmula?
Mauro Guimarães -
Como estamos numa crise de paradigmas, crise de referenciais, não temos uma fórmula. Tudo está em processo de construção. As fórmulas que existem não deram certo e por isso é que estamos em crise. No momento estamos construindo os caminhos. Acredito que o processo que é eficaz para pensarmos a formação de educadores e educandos, ou seja, o processo de formação em educação ambiental é o processo de intervenção na realidade. O processo em que você faz a educação ambiental a partir de ações, projetos que venham a intervir de fato na realidade com o objetivo de levar à transformação dessa realidade a partir de um movimento político, movimento organizado de pessoas que coletivamente acreditam na necessidade de transformar e mudar a realidade. Que essas pessoas articuladamente possam estar fazendo esse enfrentamento político. O processo formativo é o de criar essas situações, esses ambientes educativos em que as pessoas possam estar vivenciando, experimentando novos valores, novas compreensões de mundo. Mas fazendo isso de forma prática. Ou seja, buscando juntar toda parte de reflexão, elaboração teórica sobre essas questões, mas juntando isso com uma prática, com uma ação concreta. Nesse processo de pensar e fazer de uma forma diferente é que construímos um processo educativo.

“O nosso modo de produzir do próprio sistema capitalista que vivenciamos vem gerando destruição e degradação”

Comissão de Comunicação e Imprensa do I Congea - Como deve ser a educação ambiental no Cerrado?
Mauro Guimarães -
É uma educação ambiental que deve começar questionando o modo de produção da nossa sociedade como sendo mais um referencial de que está em crise. O nosso modo de produzir do próprio sistema capitalista que vivenciamos vem gerando destruição e degradação. É inerente à própria forma de produzir do sistema a degradação e a destruição. A forma de se atuar na possibilidade de redução dessa degradação é começando com o questionamento do próprio modo de produção. E ao questionar esse modo de produção procurar construir situações e opções de outras formas de produzir para que você possa nessas novas práticas estar vivenciando outras realidades, outros valores.

Comissão de Comunicação e Imprensa do I Congea - Educação ambiental a partir do trabalho de órgãos de meio ambiente do município, Estado ou governo federal. E educação ambiental na grade curricular. Como o sr. vê essas duas formas?
Mauro Guimarães -
Educação ambiental vem se institucionalizando cada vez mais. Educação ambiental, na minha compreensão, veio do movimento da sociedade ambientalista de oposição, de crítica à sociedade moderna. Esse movimento foi ganhando força, ganhando repercussão dentro da sociedade e com isso levou também a um processo de institucionalização. Hoje, temos órgãos ambientais existentes em todas as esferas de governo. Temos a educação ambiental ganhando campos institucionais como por exemplo escolas, universidades. Cada vez mais a área de educação ambiental é apresentada de forma institucional dentro desses espaços. Mas isso não significa que estamos garantindo com isso que consigamos uma educação ambiental que seja capaz de se contrapor e transformar essa realidade. Os espaços institucionais são conseqüência desses movimentos da sociedade. Mas ao mesmo tempo em que esses espaços vão se institucionalizando, a sociedade tem também que estar ocupando esses espaços para poder garantir dentro desses espaços esse embate. Porque se não tiver a garantia desse embate a tendência é que a gente tenha nesses espaços instituídos uma educação ambiental que se oriente pelas referenciais tradicionais da educação que é uma coisa que a educação ambiental vem contestando, criticando.

Comissão de Comunicação e Imprensa do I Congea – Tivemos a poluição de Cubatão e a preocupação com as usinas nucleares, lixo atômico. Isso antes de lembrarmos da importância de preservar nossa Amazônia. Houve avanços? Está surtindo efeito o trabalho realizado atualmente pelos educadores ambientais ou ambientalistas de coração?
Mauro Guimarães -
Sem sombra de dúvidas a questão ambiental teve avanços não só no Brasil como no mundo. E esses avanços são por conta desses diferentes movimentos individuais e coletivos, indivíduos que se engajam na causa. Acho que isso vem ganhando cada vez mais repercussão dentro da sociedade. Quanto mais o discurso ambientalista se fortalece na sociedade, mais vai tendo possibilidade que esse avanço aconteça. Agora esses avanços estão sempre sofrendo muita resistência pelo que está instituído. O discurso ambiental é um discurso que se contrapõe a realidade que está posta. A resistência sempre vai ser muito grande e as dificuldades de avanço sempre vão ser muito grandes. Mas se olharmos numa perspectiva histórica certamente viemos avançando muito, ganhando cada vez mais. Você organiza um evento de educação ambiental e normalmente esses eventos explodem. Você faz uma chamada para um evento de educação ambiental e tem de fechar as inscrições porque eles lotam. Isso é demonstrativo desse avanço.

Trabalho da
Comissão de Comunicação e
Imprensa do I Congea
Contato: Wagner Oliveira - Semarh
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