08/11/2008

ENTREVISTA RANGEL ARTHUR
Coord. Programa Juventude e Meio Ambiente - MEC


“O jovem precisa

assumir sua

responsabilidade”


“Vivemos um paradoxo”

“O jovem tem de assumir a responsabilidade por estar no mundo”

“A educação ambiental deve ser crítica, emancipatória e participativa”

“É o momento mais propício para fazermos uma transformação real”


Durante o I Congresso Goiano de Educação Ambiental – I Congea, de 15 a 18 de outubro na Universidade Federal de Goiás – UFG, a Tenda da Juventude ficou movimentada. E um dos ilustres componentes de mesa redonda foi Rangel Arthur, 27 anos, coordenador do programa Juventude e Meio Ambiente na Coordenação Geral de Educação Ambiental no Ministério da Educação. Logo após a mesa redonda Juventude e as questões ambientais, ele respondeu às perguntas do educador ambiental e jornalista Wagner Oliveira (Semarh-GO), e Thais Cruvinel do CJ Goiás – membros da comissão de Comunicação e Imprensa do I Congea.

I Congea - Nem todos que lêem esta entrevista tiveram acesso a congressos ou sabem o que é Coletivo Jovem de meio ambiente.
Rangel Arthur -
Os coletivos jovens de meio ambiente são grupos informais que existem em todos os Estados do Brasil. Jovens que se reúnem em torno da questão sócio-ambiental. São jovens que já têm interesses, tendências, realizam trabalho na área ambiental e usam o coletivo jovem de meio ambiente como espaço de articulação dessas diferentes experiências que têm. Os coletivos jovens de meio ambiente foram formados a partir de 2003 com o processo da Conferência Nacional Infanto-Juvenil pelo Meio Ambiente e Conferência de Meio Ambiente quando esses jovens ajudavam a mobilizar as escolas para realizar a Conferência Infanto-Juvenil pelo Meio Ambiente e mobilizavam outros jovens para participarem da conferência dos adultos, como chamamos. Pela primeira vez no Brasil jovens e adolescentes foram chamados para ajudar a pautar a política nacional de meio ambiente.

“Educação ambiental tem de ser estruturante, gerar renda, bem-estar social, acesso a tecnologias da informação”

I Congea - Quais são as políticas públicas voltadas para a juventude atualmente que realmente estão acontecendo?
Rangel Arthur -
Desde 2005 o Brasil tem a Secretaria Nacional da Juventude e o Conselho Nacional da Juventude. A grande maioria desse conselho é da sociedade civil, 60% e 40% de Ministérios. Temos 30 Ministérios representados. Faz dois meses que conseguimos aprovar o Projeto de Emenda Constitucional (PEC 138/03 – PEC da Juventude). Até a data a juventude não era sujeito de direito. Não tinha na Constituição Federal a palavra juventude. Não tinha seus direitos assegurados. Agora o processo que estamos é de instituir, conseguir formalizar e fortalecer os conselhos de juventude nos Estados e nos municípios, expandir o diálogo entre o conselho Nacional de Juventude e os conselhos estaduais e conseguir em âmbito federal, estadual e municipal articular as diferentes secretarias e ministérios que têm programas voltados para a juventude e conseguir os recursos para implementar esses programas, conseguir o reconhecimento para que esses programas sejam implementados e tenham mais impacto na sociedade. Porque está provado com pesquisas que o que se investe em juventude tem retorno na sociedade. Porque é questão de cinco anos para que esse jovem esteja no mercado de trabalho, meio acadêmico, produzindo, contribuindo para o país.

“O ser humano é único ser na face da Terra que luta contra a morte ao invés de lutar pela vida”

I Congea - Você participou da mesa redonda Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis. Como está atualmente o programa de juventude e meio ambiente?
Rangel Arthur -
Está principalmente nesse processo de fortalecer e apoiar as ações dos coletivos jovens de meio ambiente nos Estados. A partir das conferências de meio ambiente, o Ministério da Educação e Ministério do Meio Ambiente forneceram formação continuada em cinco temas: educomunicação, práticas e conceitos de educação ambiental, fortalecimento educomunicacional, participação política e elaboração de projetos. Instrumentalizar essa juventude que trabalha com questão socioambiental para atuarem em suas bases, atuarem localmente com a questão socioambiental e o retorno tem sido muito bom. Estamos agora numa fase do programa de dar continuidade a essa formação e de institucionalizar o programa, criando o grupo de trabalho interministerial com o Ministério do Meio Ambiente, Ministério da Educação para ter recursos no PPA, programas de juventude e meio ambiente. Estamos realizando o quarto encontro de juventude e meio ambiente em maio do ano que vem para fazer um grande planejamento nacional da atuação dos coletivos. O retorno é muito bom. O que precisamos fazer atualmente com os coletivos é um grande mapeamento porque tivemos alguns anos de encontros estaduais e cresceu muito o número de coletivos jovens nos municípios, Estados, interiores e precisamos mapear quem está nos coletivos, quem está atuando para poder vir com uma formação mais qualificada localmente.

“Estou vendo a existência do ser humano na Terra como uma grande oportunidade que perdemos porque não aproveitamos esses momentos de estarmos juntos no planeta para aprendermos a sobreviver coletivamente”

I Congea - Por que mudar paradigmas?
Rangel Arthur -
Percebemos que a forma que o ser humano tem se relacionado em sociedade não tem dado muito certo nos últimos séculos. O ser humano é único ser na face da Terra que luta contra a morte ao invés de lutar pela vida. A mudança de paradigma está enquanto resolvermos resolver toda a nossa capacidade de relacionamento, capacidade de ser e não de ter, que a sociedade capitalista tenta mais inserir no nosso dia-a-dia. Esse vai ser o nosso meio de esperança para uma vida mais saudável. Estou no movimento ambientalista desde os 16 anos e já passei por várias fases. Já vi o planeta como recursos que temos de preservar e hoje em dia estou vendo a existência do ser humano na Terra como uma grande oportunidade que perdemos porque não aproveitamos esses momentos de estarmos juntos no planeta para aprendermos a sobreviver coletivamente. O problema do mundo não é porque há muitas pessoas. É que há muitas pessoas que não sabem viver juntas no mundo. Comida há para todos no mundo. Mas uns consomem 60 vezes mais do que outros. O problema não está na relação do ser humano diretamente com o planeta. O problema não está da Terra para o ser humano e sim de o ser humano não conseguir entre si compartilhar esse momento na Terra.

“Não tem como você desvincular a questão de juventude da questão de meio ambiente na atualidade porque cada geração que passa a responsabilidade recai muito maior sobre as gerações. Cada geração que passa essa responsabilidade recai cada vez mais sobre os mais jovens”

I Congea - Que avaliação você faz do jovem atualmente? Na história do Brasil, do mundo, o jovem esteve presente em muitos momentos importantes de transformação. O jovem agora está engajado neste movimento de meio ambiente?
Rangel Arthur -
Há muitas pesquisas nesta linha e algumas delas são contraditórias. Estamos ainda tentando monitorar essa questão. Há uma que mostra que os jovens da atualidade são tão ou mais participativos do que os caras pintadas, da ditadura. Só que as formas de participação são outras porque antigamente a forma de participação era participação política. O movimento estudantil deu uma super-base para esse movimento. Tinha uma via de participação e todos os jovens se concentravam ali. Hoje, temos muitas formas de participação. Tem quem participa na Internet, quem faz proposição de leis, movimentos na escola, na questão artística. As formas de participação mudaram e os jovens se adaptaram a isso. Não tem como você desvincular a questão de juventude da questão de meio ambiente na atualidade porque cada geração que passa a responsabilidade recai muito maior sobre as gerações. As gerações dos nossos pais, dos nossos avós não estavam tão responsabilizadas, não se sentiam tão responsáveis com o destino do planeta. Cada geração que passa, essa responsabilidade recai cada vez mais sobre os mais jovens. Ao mesmo tempo você tem uma geração que é mais desestruturada no mundo inteiro com maior número de mortes por violência, com mais índice de analfabetismo, de desemprego, falta de acesso a tecnologias da informação. E ao mesmo tempo é a geração que está mais responsabilizada por fazer essa transformação. O processo de educação ambiental não pode esperar que esses jovens se estruturem para que façam algo pelo meio ambiente. Então a educação ambiental tem de ser estruturante, tem de gerar renda, bem-estar social, acesso a tecnologias da informação. Porque é de uma geração para outra que fazemos a transformação.

I Congea - Você participou de uma mesa redonda que contou com várias participações de estudantes. O que você leva de Goiânia em relação a essas idéias, avaliações, análises?
Rangel Arthur -
Só o fato de estarmos aqui já é uma grande contribuição. O Coletivo Jovem de Meio Ambiente de Goiás é um exemplo nacional ao conseguir se mobilizar, organizar, ter uma tenda durante o I Congresso Goiano de Educação Ambiental com pessoas muito gabaritadas, reconhecidas, vindo falar para os jovens. As pessoas querem vir falar para os jovens porque vêem que estão organizados. A maior contribuição que vejo é o movimento de juventude de Goiás mostrando que é possível se organizar, fazer as transformações localmente. Vi que teve uma fala de cada CJ local e cada um falou o que está acontecendo em suas localidades. Essa é a maior contribuição que o Congea pode dar para o movimento de juventude e meio ambiente em âmbito nacional que é mostrar que é possível estar se enraizando no interior, trabalhar com as escolas. Tem grandes dificuldades, mas ninguém falou que ia ser fácil. Estamos resistindo e vencendo os desafios. Cada desafio que vencemos geramos uma solução para o país inteiro. Que outros CJs também possam enfrentar esses desafios e vencê-los.

“A partir do momento que as pessoas perceberem que são povos do cerrado, perceberem a importância desse bioma, elas começam a sentir queimadas quando o cerrado queima também”

I Congea - O que os jovens vêem que pode ser feito no Cerrado em relação à educação ambiental?
Rangel Arthur -
Fiquei preocupado com as queimadas. Estava com dor de garganta e não sabia o que era. Fui ver era queimada. Tem a queimada natural que acontece no cerrado, mas dá para perceber quando a queimada é criminosa ou acidental. Em qualquer bioma, mas no cerrado principalmente, é a as pessoas se sentirem no cerrado. Elas falam eu sou assim, tenho essa personalidade, sou desse jeito porque sou do cerrado. A partir do momento que as pessoas perceberem que são povos do cerrado, perceberem a importância desse bioma, elas começam a sentir queimadas quando o cerrado queima também. A partir do momento que percebemos a relação com o ambiente em que estamos é que a mudança começa a ser feita. Nesse momento a questão da soja, questão dos pastos... e começa-se mudar de fato. Coloca-se na balança: vou comer minha carne ou preservar o cerrado? Vou alimentar o gado com a soja que foi produzida no cerrado ou vou cuidar do meu lugar.

“A educação ambiental tem um papel crucial de mudança de paradigma”

I Congea - Em relação à educação ambiental está faltando políticas públicas?
Rangel Arthur -
Esse termo está sendo muito usado hoje em dia. Ele define uma série de ações construídas junto com a sociedade civil e os programas de governo, ações de governo, com controle social. Mas até hoje é difícil vermos uma política pública amarradinha, bem estruturada do começo ao fim, proposta pela sociedade, implementada pelos governos com recursos públicos, controle social, monitoramento, avaliação e continuidade. A educação ambiental tem um papel crucial de mudança de paradigma. É a política pública que ao ser implementada muda nossa forma de ser, de consumir, de estar no mundo. É um desafio triplo. É um desafio enorme porque precisamos de políticas públicas para a educação ambiental. E já temos várias políticas públicas para a educação ambiental como a conferência nacional de meio ambiente, conferência nacional juvenil pelo meio ambiente, o próprio programa juventude e meio ambiente, os fóruns que têm sido realizados, a relação mais próxima com as redes. Só que percebo que a educação ambiental também é um processo. Então enquanto não conseguirmos ter essa questão de proposição, implementação, avaliação, melhorar e reimplantar e ter esse ciclo continuado, e mostrar que é um processo e quem tem falhas e que temos de tampar essas falhas e melhorar a cada passo, fica difícil termos uma transformação real. O vínculo entre a educação ambiental e as políticas públicas é que ambas são processos de transformação.

I Congea - Um participante foi ao microfone e disse: “Pobre precisa se organizar. Elite não precisa se organizar porque é dona dos meios de produção, da riqueza”. Quem participa hoje do movimento é pobre?
Rangel Arthur -
É muito legal você perguntar isso porque estamos vivendo essas perguntas em alguns momentos. Do que temos mapeado dos coletivos jovens de meio ambiente, é interessante que não colocamos isso como critério, mas tem de tudo. A grande maioria é jovem que está estudando. São jovens que têm acesso às informações, à Internet, conseguem chegar aos lugares. Mas em termos de classes sociais temos de tudo. Temos jovens indígenas, quilombolas, de comunidades ribeirinhas. Percebemos que a participação não é mérito de ninguém. Ao mesmo tempo que as classes menos favorecidas têm demandas específicas no âmbito de educação ambiental, as classes mais favorecidas também têm. Temos de educar mais o empresário que está plantando soja no cerrado ou a pessoa que compra o quilo de soja, se ela tem dinheiro? Em termos de educação ambiental às vezes temos de dar mais atenção para o que está devastando do que para o que está comprando. Essa questão da classe social não é critério. O mundo é de todos. Mas percebemos que uns têm mais responsabilidade do que outros. É claro que quem está lá, que é grande latifundiário, dono de uma grande indústria... Cada um tem uma responsabilidade qualificada. Temos juventude de todas as formas, cores e classes possíveis no Brasil. E é só com isso que podemos fazer uma política decente, um Brasil de todos. Os diferentes brasis participando: o Brasil pobre, o Brasil rico, o Brasil indígena, o Brasil quilombola, o Brasil GLBT, o Brasil das feministas. Todos os movimentos estão incluídos. Porque todos eles respiram, consomem.

“O vínculo entre a educação ambiental e as políticas públicas é que ambas são processos de transformação”

I Congea - A educação ambiental precisa ser enraizada no município pelo Ministério do Meio Ambiente ou precisa de representantes do município no Ministério do Meio Ambiente, como atualmente está buscando o Ministério?
Rangel Arthur -
Além de coordenador do programa de Juventude e Meio Ambiente eu sou enraizador da Política Nacional de Educação Ambiental do Estado de Santa Catarina e as grandes orientações que temos é que não sabemos mais do que ninguém. O papel do enraizador é você chegar no Estado, municípios, entender o que está acontecendo e facilitar o processo. Há muitas práticas acontecendo em âmbito municipal e estadual e quanto mais conseguirmos facilitar e potencializar esse processo melhor. O Ministério da Educação não tem escolas. A maioria dos alunos está em escolas municipais e estaduais. Não temos acesso direto a escolas. O diálogo é fundamental. Eles já têm muitas tecnologias sociais, soluções para as relações locais. O Ministério tem de conseguir ajudar e facilitar a relação no Estado, mas os Estados e municípios também têm de saber demandar com clareza e entender os processos que estão acontecendo nos ministérios em âmbito federal para poder se beneficiar melhor disso.

”Nas universidades, nos magistérios é legal ter uma grade extensa de educação ambiental. Mas no sistema de ensino como um todo deve ser transversal”

I Congea - Educação ambiental deve ser disciplina, estar na grade curricular, ter nota?
Rangel Arthur -
É minha opinião e também é o que está no (Programa Nacional de Educação Ambiental) Pronea de que não é disciplina. Educação Ambiental não é disciplina porque não faz muito sentido. O próprio discurso de educação ambiental é de que as coisas devem ser transversais. A existência do ser humano na Terra passa por ele saber usar os conhecimentos da geografia, matemática, português, relacionamento, economia. Tudo isso faz sentido na sociedade. Se não fizer sentido não tem pra quê. Você trabalha as questões sociais e ambientais a partir do seu dia-a-dia. Como você usa matemática, português no seu dia-a-dia. Mas todos para um sentido. No sentido de como nos relacionamos uns com os outros e com o mundo. Então não vejo muito por que ter a disciplina de educação ambiental nas escolas. Mas acho muito importante que nos magistérios, nas formações de professores tenha uma carga horária extensa de educação ambiental. Para se entender como fazer uma educação ambiental transdiciplinar na escola você precisa pelo menos ter algumas orientações sobre isso. Nas universidades, nos magistérios é legal ter uma grade extensa de educação ambiental. Mas no sistema de ensino como um todo deve ser transversal.

“Empresas estão se apropriando da linguagem do movimento social. É o momento mais propício para fazermos uma transformação real”

I Congea - Como os jovens estão vendo a educação ambiental no momento atual?
Rangel Arthur -
É o melhor momento possível. Graças aos esforços de todos os movimentos ambientalistas até hoje é que agora conseguimos um diálogo bem estreito com o governo, conseguimos ter mais acesso às empresas, empresas estão se apropriando da linguagem do movimento social. É o momento mais propício para fazermos uma transformação real. Ao mesmo tempo vivemos hoje um grande paradoxo: nunca se falou tanto de meio ambiente e nunca se consumiu tanto, teve tantas queimadas. Ao mesmo tempo em que se aumenta o número de pessoas conscientes aumentam os impactos. Dessa geração para os jovens daqui a uma geração ou duas é que essa consciência tem de virar ação, transformação social.

I Congea - Então o que o jovem precisa fazer?
Rangel Arthur -
Primeiro ele tem de se ver enquanto cidadão. O principal da educação ambiental é que ela deve ser crítica, emancipatória e participativa. Participação na sociedade. Eu participo do meu planeta enquanto bebo um copo com água, como alimento? A partir do momento que o jovem se vê como participante e um organismo vivo, que nesse processo ele tem uma função, que as ações dele têm uma conseqüência, ele automaticamente assume a responsabilidade por estar no mundo. O que o jovem tem de fazer é assumir a responsabilidade por estar no mundo. E não é uma responsabilidade negativa nem um pouco. É uma grande alegria. Mas cada ação nossa tem uma conseqüência. Queremos ser responsáveis por bons atos ou atos ruins?

Trabalho da Comissão de Comunicação e Imprensa do I Congea
Contato:
Wagner Oliveira
computador31@yahoo.com.br
Secretaria Estadual de Meio Ambiente e recursos Hídricos – Semarh-GO
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