12/12/2008



BOAS IDÉIAS


Sorvetes e picolés

evitam extinção de

frutos do cerrado

Entrevista com Sr. Clóvis José de Almeida, que criou a Frutos do Cerrado Sorvetes e Picolés.

 

Empresa gera empregos, renda e mostra o potencial frutífero do Cerrado

 

Sem a compreensão de que um pé de gabiroba pode render reais no bolso do agricultor quando os frutos são vendidos, um pé de mangaba ou de corriola também podem gerar renda é que o Cerrado foi sendo transformado apenas em imensas lavouras de soja, milho, cana, lenha e carvão.

Com as transformações climáticas e catástrofes ocorrendo mais freqüentemente surge um momento de reflexão: até que ponto a nossa interferência no meio ambiente do cerrado está causando impacto no ciclo das águas, na intensidade das chuvas, na própria falta de chuvas nas épocas que elas são esperadas.

Sem chuvas não há pequi. Isso ficou evidente em 2007 quando por falta de chuvas faltou pequi em Goiás. Tivemos de importar pequi de Minas Gerais e outros Estados. Dá para imaginar uma situação dessas?


Picolé de pequi, picolé de murici, picolé de araça, picolé de mutamba... Há uns quatro anos, um picolezeiro ia gritando as variedades na Praça do Bandeirante, em Goiânia. Muitos que passavam até duvidavam. Inclusive eu. Mas era verdade. De tão desconhecidas, as frutas nativas do cerrado, pelas novas gerações não se imaginava que elas voltariam das histórias dos antigos no palito. Ainda bem porque sem motivação econômica esses sabores selvagens e raros já teriam desaparecido. Mas um exemplo do 'cerrado Fênix' que ressurge das cinzas em forma de gelo.


O trabalho do Sr. Clóvis José de Almeida mostra que é possível ganhar dinheiro com o cerrado só preservando e colhendo seus frutos. Custa muito menos hoje para o fazendeiro manter o cerrado em pé com plantas frutíferas e vendê-las para fabricação de picolés e sorvetes do que arrendá-las para terceiros.


Conheça mangaba e


bacupari no cerrado



Frutas como a Corriola são raríssimas atualmente. Possivelmente não existiriam mais se não tivessem sido criados parques estaduais como o Parque Estadual de Pireneus (municípios de Pirenópolis, Corumbá de Goiás e Cocalzinho) e reservas biológicas como a Reserva Biológica da Universidade Federal de Goiás, em Mossâmedes.

Existem também casos isolados de fazendeiros que não desmataram todos os pés de corriola. Mas o fruto continua muito raro tanto quanto saboroso. Uma delícia. E o cheiro é tão marcante que quando a corriola está madura pode ser sentido seu cheiro no cerrado às vezes até por centenas de metros ou quilômetro. O que chama a atenção de animais e seus dispersores de sementes que ao se alimentarem vão plantando mais corriolas pelo cerrado. 


Clóvis Almeida em palestra na Universidade Católica de Goiás. Ele diz que um dia recebeu uma mensagem de um pastor quando vendia picolé na rua. Os pastor disse que ele ia fazer palestras e seria conhecido internacionalmente. Nesse dia ele empurrava um carrinho de picolé pelas ruas de Goiânia e não tinha vendido nenhum picolé. Foi difícil acreditar mas aconteceu como profetizado. Sr. Clóvis mostra internacionalmente que o cerrado em pé com seus frutos é viável economicamente, ecologicamente,... 


Sr. Clóvis está plantando mangaba e outras frutas do cerrado em sua chácara e doa sementes que obtém na produção de polpas para produção de mudas. Mas ainda não é o suficiente. É necessário surgirem outros Clóvis mostrando que o cerrado é viável em pé.


Sr. Clóvis lembra que fez o picolé de corriola e vendeu por quatro vezes mais o valor de um picolé de frutos do cerrado. Se o picolé hoje custa R$ 1,50, custaria R$ 6 reais um picolé de corriola. Procurei várias vezes o picolé de corriola em Goiânia e não encontrei. Para saber qual é o sabor da fruta tive de experimentar e saboreá-la em reservas ambientais. Hoje posso dizer que é realmente uma delícia. Agora se a fruta está tão escassa, não seria melhor muitos agricultores plantarem corriola. Melhor mesmo seria não ter desmatado o cerrado desenvolvido e adaptado às condições da nossa região durante milhões de anos. 


"Perguntei para meu avô que fruta do cerrado eu podia comer. Ele disse: a fruta que passarinho comer você pode comer"  


A corriola que encontrei em reservas ambientais não estava nas matas de galerias, nem nas matas ciliares. Estava no cerrado aberto, no campo sujo (dá para imaginar que um tipo de cerrado tão rico em espécies medicinais e frutíferas seja chamado de campo sujo? Deveria ser chamado é de CAMPO RICO. Quanto desconhecimento ainda nesse sentido). E é justamente esse cerrado que o fazendeiro não pensa duas vezes ao decidir desmatar. Extermina espécies vegetais milenares e de sabores indescritíveis e característicos da nossa região. Sabores de frutas endêmicas, que só existem no cerrado. Não existem nos outros biomas, nos outros países. São espécies que resistem ao calor, que vivem bem em terrenos arenosos, entre pedras, solos pobres, mas que produzem delícias que o mundo não conhece e nem mesmo a maioria dos goianos sabe o que é. Estão no vulgar campo sujo as riquezas desconhecidas do cerrado.

O exemplo do Sr. Clóvis que produz picolés com os frutos do cerrado mostra que não era preciso mudar muito o meio ambiente para gerar condições ideais de sobrevivência. É possível ter o desenvolvimento sustentável em uma propriedade rural, por exemplo, com a comercialização de frutos do cerrado.


Corriola: um dos frutos mais deliciosos do cerrado. Parece figo. Mas tem uma semente grande com polpa em volta. Um picolé de frutas do cerrado custa R$ 1,50 em Goiânia e R$ 1,00 em Paraúna. O picolé de corriola pode custar até quatro vezes mais: R$ 6,00 reais porque não há quantidade suficiente de frutos. Plantar corriola é uma ótima idéia


Em palestra na Universidade Católica de Goiás, Clóvis lembrou que tem muita dificuldade de encontrar esses frutos atualmente para fabricar os picolés e sorvetes. Viaja milhares de quilômetros todos os anos comprando frutos do cerrado. Em alguns lugares vê mangadas servindo de alimentos para o gado enquanto poderia render muito, muito mais se transformadas em polpas, em picolés, em sorvetes. A falta de conhecimento do potencial frutífero do cerrado leva a essas conseqüências.

O cerrado levou milhões de anos para se desenvolver. Mas foi destruído em poucas décadas. Nas próximas décadas e a cada dia vamos ter de reconstruir o que já existia. Temos de replantar as frutíferas da nossa região. Temos de plantar mangaba, corriola, gabiroba, murici, bacupari, pequi, barbatimão e muitas outras. Plantar espécies que viraram cinza nas queimadas indiscriminadas para limpar áreas para pasto ou para expansão das monoculturas de exportação. 


Muitas espécies endêmicas do Cerrado viraram carvão antes mesmo de serem melhor conhecidas por pesquisadores e pela própria população. Na expansão das monoculturas no cerrado utilizavam por exemplo grossas correntes amarradas em dois tratores. Por onde os tratores passavam tudo era derrubado. Hoje, leis ambientais proíbem e garantem punição para esse desmatamento descontrolado e criminoso. Mas somente a conscientização do proprietário da terra pode fazer com que ele saiba utilizar de forma sustentável sua propriedade. Muitos desmatam e tempos depois já estão vendo nascentes secarem dentro de suas propriedades. 


Sem água das chuvas não há água nas nascentes, não há frutos no cerrado nem mesmo vigam monoculturas para exportação. O prejuízo é de todos nós e do próprio fazendeiro que insiste em burlar as leis dos homens e as leis da natureza. Só grandes catástrofes naturais poderão fazer repensarmos nossas atitudes com o meio ambiente?  


Temos de replantar o que já existia, que a natureza proporcionava quando o homem começou a ocupar o bioma cerrado. Temos de refazer, reconstruir para aprender a preservar. “A natureza não se defende, mas vinga”. Então essa frase é verdadeira. A natureza não impede que uma árvore seja cortada. Mas o clima muda, as chuvas não vêm, os frutos não vingam, o calor é mais intenso e talvez um dia vamos poder entender mais que aquecimento global, mudanças climáticas, catástrofes climáticas, grandes tragédias ambientais com as que ocorreram em Santa Catarina têm de alguma forma a ver sim com um pé de mangaba ou de corriola que não existe mais.

Tudo está interligado neste mundo. Pouco ou muito, cada ser vivo tem uma determinada importância e interferência no meio ambiente. Na sua preservação ou destruição. O que estamos fazendo?


Vídeos exibidos no Globo Rural

Parte 1


Parte 2


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