02/12/2009

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COLETA SELETIVA EM GOIÂNIA
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É preciso respeitar o trabalho
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pioneiro dos catadores de papel
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"Dignidade para catadores de papel não é com apreensão de carrinhos – suas ferramentas de trabalho, mas convencendo-os de que em cooperativas terão melhores condições de vida"

“Aumento de recicláveis em cooperativa e falta de galpões adequados fazem o material perder valor molhado pelas chuvas e podem acabar indo novamente como lixo para o aterro sanitário.”

A Prefeitura de Goiânia começou ampla coleta seletiva no dia 6 de novembro. Mas catadores de papel já fazem esse trabalho há muitos anos na capital. Humildes, empurrando carrinhos pesadíssimos que cheios podem chegar a 500 quilos, ganhando pouco e mesmo sem benefícios sociais que bem merecem eles fazem importante trabalho de limpeza impedindo que papel, papelão, latinhas de alumínio, pets, ferro e outros materiais recicláveis sejam apenas mais lixo para o Aterro Sanitário de Goiânia.
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Com o trabalho dos catadores de coleta nas ruas os recicláveis vão para depósitos de papel antes de serem enviados para indústrias. Os donos dos depósitos normalmente são pequenos empresários que compram e revendem o material. Portanto, trabalham e geram trabalho e renda a partir dos recicláveis.
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O trabalho bonito da coleta seletiva da Prefeitura de Goiânia só fica arranhado com a apreensão dos carrinhos nas ruas sem um maior diálogo com catadores de papel e donos de depósitos que dizem não terem sido procurados. A inclusão desses trabalhadores na coleta seletiva por meio de cooperativas é uma ideia sensata, mas que não foi ainda devidamente discutida e amadurecida com todas as partes.
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Se o dono de um depósito tem hoje uma arrecadação, por exemplo, de 3 mil reais não vai ficar satisfeito ao ir para uma cooperativa trabalhar e receber um salário mínimo por mês. Para manter um depósito ele fez investimentos, comprou, por exemplo, prensa de cerca de 10 mil reais, dezenas de carrinhos de mais de 100 reais cada.
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Há alguns dias catadores de papel foram abordados nas ruas por assistentes sociais da prefeitura que disseram: “Vamos dar dignidade para vocês”. Mas ao mesmo tempo a Secretaria Municipal de Trânsito apreendeu quatro carrinhos expondo os trabalhadores a humilhação. Cada catador tem sua rota, sabe onde vai encontrar os recicláveis que garantem o ganha-pão seu e muitas vezes de sua família. Merecem ser respeitados.
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Qualquer novo projeto de reciclagem precisa respeitar o belo e antigo trabalho que os catadores fizeram. Se o trabalho dos catadores não fosse feito há anos os aterros sanitários e lixões estariam hoje multiplicados. Não seria apenas 1 milhão e mais de 100 mil quilos de lixo que estariam indo para o Aterro Sanitário de Goiânia por dia.
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O poder público municipal deve sim dar dignidade aos catadores com assistência social, levando-os a galpões fora da chuva e do sol. Todo ser humano merece melhores condições de vida e, principalmente, esses trabalhadores que desenvolvem um belo trabalho na capital. É preciso convencê-los de que será melhor, mais rentável, mais seguro e acompanhar para que possam entrar em cooperativas sem ter de ficar sem renda por algum tempo – esse é o maior medo.
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Essa semana a discussão chegou a Câmara Municipal de Goiânia e a prefeitura voltou atrás dizendo que não haverá mais apreensão de carrinhos e sim orientação para que os catadores façam parte de cooperativas. Alguns vereadores manifestaram apoio aos catadores e inclusive um que foi gari, Negro Jobs. O Legislativo, o Ministério Público e a Delegacia Estadual do meio ambiente podem fazer um bom acompanhamento desse caso e ajudar a apresentar alternativas.

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Veja catadores na Câmara Municipal

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O presidente da Companhia de Urbanização de Goiânia – Comurg Wagner Siqueira sempre defende que os trabalhadores não continuem fazendo “trabalho de tração animal”. É louvável se isso não ocorrer mais.
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O paradigma está mudando e os próprios catadores de papel vão perceber que não vai mais ser lucrativo ficar empurrando carrinhos na rua. A população vai juntar os recicláveis e repassar no dia da coleta da prefeitura. A quantidade de recicláveis já aumentou nas cooperativas que precisam de mais trabalhadores ou não vão conseguir fazer a triagem. Em algumas os recicláveis já estão perdendo valor molhados com as chuvas por falta de galpões adequados. E se isso continuar acontecendo vão acabar também como lixo no aterro sanitário.
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Sem ter lucros empurrando carrinhos nas ruas o melhor mesmo para os catadores de papel é trabalhar em cooperativas ou outra forma de trabalho que surgir. Mas enquanto isso não ocorre é preciso tratá-los com carinho e buscar a melhor alternativa para as partes.
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O catador de papel é o pioneiro na coleta seletiva e merece nosso respeito. Não se pode passar por cima do que já foi feito sem dar o devido valor a esses trabalhadores que enfrentaram sol e chuva, subidas e descidas empurrando pesados carrinhos de recicláveis.
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Um belo projeto de reciclagem deve apresentar alternativas para não prejudicar esses trabalhadores e nem os donos de depósitos que deram oportunidade de trabalho a quem não tinha. Normalmente os catadores de papel são trabalhadores que estavam à margem da sociedade, não encontravam mais oportunidade de trabalho. Desempregados, encontraram alternativa de sobrevivência trabalhando com recicláveis e quem deu essa oportunidade foi o dono de depósito.
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Da polêmica devem surgir alternativas, mas não se pode desvalorizar o que foi feito até hoje em relação a recicláveis em Goiânia. Trabalhadores desse segmento precisam ser devidamente integrados a nova forma de trabalhar com recicláveis e não apenas terem suas ferramentas de trabalho apreendidas.
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Abaixo vídeo com reportagem de Ana Paula Padrão no Jornal da Record que mostra a realidade de catadores em São Paulo.

“Em São Paulo 90 por centos dos recicláveis são coletados pelos catadores de papel. São 20 mil catadores que recebem de R$ 400 a 500 reais por mês. Quase todos são moradores ou ex-moradores de rua e há 15 cooperativas de carroceiros. Uma das cooperativas ajudou muitos a encontrar um teto.”


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Comentário 1:

"Wagner Oliveira,

É interessante ressaltar que a coleta de materiais recicláveis por parte dos catadores de rua representa uma condição social de dignidade aos próprios catadores que, sem qualificação, estão fora do mercado de trabalho, obrigando-os a irem para o mundo dos crimes, de pequenos furtos e tráficos de drogas.

O que a Prefeitura deveria fazer é cadastrar esses catadores e realizar um controle de volumes coletados para pagar um bônus a eles pelo serviço realizado, pois a Prefeitura paga para a empresa que faz a coleta de lixo nas ruas e esse volume coletado pelos catadores seria somado e pago junto com o volume coletado pela empresa que faz a coleta.

Neuro Ribeiro - Supervisor- Filial Goiânia
Fone: (62)3271-3433 - Cel: (62) 9972-6336"


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Comentário 2:

"Em 1950 os catadores tinham o nome de "garrafeiros", compravam recicláveis e os revendiam aos concentradores. Era uma atividade de mercado.

É possível que o crescimento da renda familiar e o decrescimento do tempo disponível tenha desestimulado a acumulação e venda de recicláveis, este viraram "lixo" e os garrafeiros decaíram para o submundo dos catadores.

O tempo passou, a cultura mudou, e a sociedade tenta "resgatar" os catadores através de cooperativas. Cooperativa é modelo jurídico/fiscal facilitador, mas não ensina o trabalho cooperado.

Os arranjos espontâneos suportam orientação para sua formação mas não suportam "imposição" de modelos, modelos geralmente desenvolvidos por quem nunca esteve envolvido com a atividade.

Em geral as pessoas preferem ser "obrigadas" a separar o lixo para que a prefeitura o colete do que separar para entregar recicláveis limpos aos catadores. Falta cidadania (cuidar do próprio lixo) e falta compaixão (facilitar a vida dos catadores)

Nesse cenário o governo entra com a "dominação" que incluirá, mais cedo ou mais tarde, um "direito penal do lixo".

Dar suporte para que os catadores se organizem não interessa aos governo porque não dá retorno político-eleitoral, mas a imposição da seleção (dominação) satisfaz os "desejos sócioambientais" dos ambientalistas de "carteirinha" que sabem muito bem cobrar dos governos que façam as coisas para eles.

Como está sendo visto em Copenhague, existe mais desejo dos países pobres de poderem poluir tanto quanto os ricos do que desejo dos ricos em diminuir a poluição.

Pagar para ter o lixo selecionado coletado se apresenta com "isenção de sentimentos" em relação a selecionar o lixo para que o catador o colete.

Enfim, as pessoas parecem não querer assumir serem "parceiros" dos catadores mas se aliam com facilidade aos governos numa espécie de masoquismo político.

Saudações socioambientais
Serrano Neves - www.serrano.neves.nom.br
Educação Socioambiental"
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Comentário 3:
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“Prezado Wagner,

Agradeço pelas matérias. São realmente de excelente qualidade e conteúdo. Sou professor da PUC-Goiás, no Instituto do Trópico Subúmido – ITS, Campus II, onde situa-se o Memorial do Cerrado, nosso grande projeto.

Parabéns pelo artigo dos catadores de recicláveis. É um absurdo o que a prefeitura está fazendo com estes catadores honestos, trabalhadores e que desempenham papel importantíssimo para a limpeza, conservação, preservação do meio ambiente.
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A prefeitura deveria era, por meio de seus órgãos regulamentadores, ambientais, inseri-los neste programa e não expulsá-los do trabalho sem apresentar nova proposta. Entendo que isto é ação de quem não tem competência administrativa e nem resolução para problemas que eles mesmos criaram. Ainda bem que tem pessoas como você para mostrar à população o outro lado da realidade que poucos veem.
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Fico revoltado com a situação porque antes a Cooprec, que tem menos estrutura financeira, realizava o trabalho de boa qualidade. Por que a prefeitura não consegue? Ou nossos gestores são de tamanha incompetência? O que precisamos é fortalecer a coleta seletiva para melhorar a qualidade do meio em que vivemos.
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Li seu artigo sobre coleta seletiva e gostaria de pedir ajuda. Moro no Setor Jaó e há pouco tempo enfrentamos um grande problema, principalmente os moradores da Rua J-80, quanto à coleta seletiva. Até há pouco tempo era realizada pela Cooprec que passava todas as sextas feiras recolhendo o material pela manhã, por volta das 9 horas. Inclusive forneciam sacos para colocarmos e devolvermos, o que ajudava muito.
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Quando passou a ser pela prefeitura tornou-se uma lástima, pois primeiro não fornecem embalagens para o depósito, o que dificulta muito a todos. Mas isto é de menos, pois pode ser resolvido, como já resolvi. O grande problema é que mudaram o horário da coleta para sábado, a partir das 18 horas, o que não corresponde com a realidade do setor, considerado nobre, onde quem coloca as embalagens para a coleta na maioria das vezes não são proprietários e sim empregados; não é o meu caso. Neste horário faço minhas caminhadas e observei que são poucos que colocam suas embalagens para serem recolhidas.
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Outro agravante é que o caminhão não está passando em todas as ruas. Tantas vezes tive de correr atrás do caminhão para entregar minha embalagem e sempre converso com o motorista e faço a reivindicação para passar na rua J-80. Certa vez o próprio motorista registrou minha queixa pelo rádio amador do caminhão e mesmo assim continua do mesmo jeito. Inclusive muitos que aderiram já desistiram e estão juntando os recicláveis com o lixo comum, o que agravará em muito o aterro sanitário.
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Mediante estes lamentáveis fatos resolvi levá-los para o PEV na praça principal do Setor Jaó, próximo à igreja católica. Mas o PEV enfrenta problemas como acúmulo de embalagens que acabam ficando fora do local certo, ao relento, e com o período chuvoso estão molhando. Creio que o recolhimento também não está eficaz. Outro fato lamentável é que já estão transformando o PEV em depósito de lixo. Pude observar que além dos recicláveis já estão "jogando” qualquer tipo de material, inclusive lâmpadas fluorescentes, galhos de poda. Percebi até vetores no local.
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Deveriam recolher os recicláveis todos os dias pois há uma população considerável no setor e ainda há pessoas que não aderiram ao programa. Mas do jeito que está indo logo tudo se perderá devido à falta de compromisso das autoridades municipais quanto ao problema. Já reclamei em vários lugares, enviei mensagens e nada. Creio que você poderá ajudar com o Blog Educação Ambiental em Goiás, pois é um meio de divulgação que atinge grande parte da população. Porque quando as coisas passam a ser gerenciadas pelo poder público tornam-se vulneráveis a este tipo de situação.
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Vejo pela TV a prefeitura relatando e apresentando dados sobre o programa e percebo que há controvérsias. Há alguns setores não atendidos por este programa ou estou enganado?

Profº MS. Agostinho Carneiro Campos. Cel.: 9154-0228

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