16/12/2009




Que resultados esperar
da Conferência
de Copenhague?


Martha Tristão

As negociações, às vezes por debaixo dos panos, entre as delegações dos países participantes da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que acontece em Copenhague, capital da Dinamarca, nesta semana, têm deixado os expectadores perplexos e atônitos, sem saber se confiam ou não em seus resultados, previstos para serem acordados em seu encerramento, dia 18 de dezembro. Há uma grande expectativa diante da imensa responsabilidade da Cúpula da Conferência em relação aos rumos da sustentabilidade do planeta Terra. Será que podemos esperar um resultado realmente responsável, que considere a justiça ambiental e a equidade social nos processos de desenvolvimento?

Assistimos a um cenário que revela uma disputa de interesses meramente econômicos, entre países pobres e ricos ou emergentes e desenvolvidos, na corrida de quem dá mais em seu plano de metas para atingir um patamar de reconhecimento, diante dos holofotes das mídias ou dos formadores hegemônicos de opinião. Os chefes de estado parecem estar bem menos preocupados com o meio ambiente e o combate ao aquecimento global do que com a repercussão política de suas decisões.

Qual será o significado imediato das decisões nas práticas sustentáveis e políticas socioambientais mais amplas, ainda não sabemos. Os resultados desta importante Conferência são mais um acordo político, um protocolo de intenções como o Tratado de Kyoto que, infelizmente, não tem força legal ou qualquer cumprimento obrigatório a respeito das medidas a serem tomadas para redução dos gases de efeito estufa. Como acreditar na responsabilidade ética dos governantes depois do acordo resultado das decisões, a ser firmado nos dias 17 e 18 próximos, diante de políticas internacionais, cada vez mais, atreladas às grandes corporações capitalistas, à internacionalizaçã o do capital?

Estamos vivendo ainda o impasse entre desenvolvimento e meio ambiente? Conflito criado desde a Conferência Internacional de Estocolmo, em 1972, há uma correlação de forças entre os interesses econômicos e a preocupação ambiental, a qualidade e sustentabilidade da vida. Só que agora o cenário na sociedade de risco é outro, o risco é igual para todos, mas a distribuição dos bens ambientais e dos efeitos das catástrofes é desigual. O mundo tem pressa. Entre ricos e pobres, quem pagará a conta afinal? Será que somos todos igualmente responsáveis?

Mesmo diante de catástrofes ambientais iminentes e da previsão de mais desastres climáticos os prazos se estendem e as metas se encurtam. Na mesa de negociação desta semana, foram observadas as discordâncias entre países pobres e ricos acerca da amplitude das reduções das emissões nas nações industrializadas, e a criação de um Fundo climático global para que os países pobres se adaptem às mudança climáticas e reduzam as suas próprias emissões.

Há ainda aqueles que tentam tirar a responsabilidade do super consumo dos países ricos e de um modelo insustentável e falido de crescimento econômico dominante que vem aumentando a pobreza ambiental e social do mundo. Reduzem o momento em práticas individuais ou individualizantes, como se cada um pudesse isoladamente interferir na totalidade das mudanças ambientais globais. Só isso não basta. No caso do Brasil, por exemplo, temos que resolver os sérios problemas de saneamento ambiental, de desmatamento, de transporte coletivo, de criação de ciclovias, de educação, de injustiça ambiental e social. Essas iniciativas que dependem da aplicação honesta dos recursos públicos podem contribuir fortemente com a redução das emissões. Precisamos urgentemente de um novo processo civilizatório, de uma mudança radical para reformar as estruturas e transformar o pensamento para valores pós-materialistas.

Martha Tristão é professora doutora e pesquisadora da UFES
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