15/01/2010

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A difícil arte de
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predizer terremotos

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Alberto Veloso*
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Ao abalar porções de nosso planeta, um terremoto libera ondas sísmicas que são registradas por algumas das milhares de estações sismográficas espalhadas pelos continentes e ilhas oceânicas. Quase imediatamente, instituições como o Serviço Geológico dos Estados Unidos http://earthquake.usgs.gov divulgam o local da ocorrência do abalo, sua profundidade e magnitude. Com dados suficientes, é possível saber o tamanho e o tipo da falha geológica que originou o terremoto. Isto é um enorme avanço para a sismologia, obtido pelo progresso científico aliado ao aprimoramento das comunicações internacionais. Nunca se monitorou os terremotos com tanta eficiência e exatidão. Mas ninguém pode dizer onde e quando ocorrerá o próximo grande tremor.

Se o homem conhece os processos que acarretam os terremotos, por que não consegue prognosticá-los? Um sismo resulta da quebra da rocha após um longo processo de deformação ocasionado por tensões presentes na crosta terrestre. Em princípio, a solução não parece complicada: bastaria medir as tensões das rochas e observar alguns fenômenos indicativos de sua iminente ruptura. Na prática isto é difícil de ser feito, a geologia varia enormemente em profundidade e não há como acessar os locais onde as rochas estão sendo atritadas. Indiretamente, poderiam ser feitas medições pontuais de tensões, mas seria necessário abarcar dezenas de quilômetros de rochas, tanto em área como em profundidade, o que é técnica e financeiramente, inviável. Fenômenos indicativos seriam pequenas deformações do terreno, mudança na velocidade das ondas sísmicas, alterações do campo elétrico-magnético e na emissão de gás radônio, variações do nível freático, incremento da sismicidade e até o comportamento estranho dos animais. Interpretar sinais sutis, corretamente, antes do aparecimento do sismo, é o que se deseja, mas pela heterogeneidade da Terra, o que funciona em um local pode não se aplicar em outro.

A predição de sismos desafia os geocientistas que, infelizmente, acumulam mais insucessos do que vitórias. Alguns países obtiveram previsões positivas para sismos de pequenas magnitudes. Mas nada se comparou à façanha chinesa de prognosticar um tremor de magnitude 7, na Província de Liaoning, no nordeste do país, em 4/2/1975. Horas antes do sismo, evacuou-se um enorme contingente de pessoas que se livrou dos efeitos do abalo que devastou Haicheng, e danificou severamente a cidade portuária de Yinkou, além de muitas outras povoações menores. Em uma região com 3 milhões de habitantes, pouco mais de mil pessoas morreram. Apesar dos esforços da comunidade sismológica, nunca se conseguiu repetir predição com tal envergadura. O fato é que, pelos conhecimentos atuais, não se pode prever grandes terremotos com a precisão desejada.

Imagens de destruição e sofrimento humano se espalharam pelos quatro cantos com os tremores nas localidades de Chincha Alta, no Peru (agosto de 2007), Sichuan, na China (maio de 2008), e, agora, em L’Aquilla, na Itália. “Amanhã”, fato parecido se repetirá em outra localidade, depois virão outras mais, em uma sucessão sem fim. Aprimorar o padrão construtivo de cidades em áreas de risco sísmico é a solução mais apropriada, embora poucos consigam faze-lo, corretamente. O recente sismo italiano revelou um dado conhecido dos sismólogos, mas nem sempre entendido por muitos. A magnitude do sismo principal girou em torno de 6.0 – 6.3 para os americanos e 5.8 para os italianos. No caso, o importante é frisar que se tratou de um abalo de magnitude apenas moderada. Ele produziu muita destruição porque ocorreu a pouca profundidade e nas imediações de cidades com construções relativamente frágeis. Merece reflexão o fato de o Brasil ter sofrido terremotos com esta ordem de magnitude e nada nos aconteceu pela grande distância dos epicentros aos centros urbanos.

O sábio Chang Heng foi uma espécie de Leonardo da Vinci, chinês. Dentre suas invenções, construiu o primeiro instrumento para detectar terremotos, no longínquo 138 d.C. Por suas incursões na astronomia, teve seu nome posto em uma das crateras da Lua. Não posso deixar de imaginar uma cena surrealista. Sentado à beira de “sua cratera” e vislumbrando a Terra, talvez se espantasse com tanta coisa existente aqui. Alisando os poucos fios de seu cavanhaque poderia dizer: "Com tal progresso, por que não conseguiram ainda predizer terremotos?" Os sismólogos têm um difícil caminho a percorrer para saldar um débito com a sociedade.

*Alberto Veloso – é geólogo e criador do Observatório Sismológico da UnB. Trabalhou na Organização das Nações Unidas, em Viena (Áustria), na montagem de uma rede mundial de detecção de explosões nucleares. Texto publicado em 8-4-2009.
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