27/05/2010

EDUCAÇÃO AMBIENTAL E AGRICULTURA
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“A palavra sustentável
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para capitalismo verde?”

“Todos agora falam em sustentabilidade. Mas tenho medo dessa palavra usada por multinacionais e até bancos”

O belga e escritor Luc Vankrunkelsven defende o Cerrado na Organização Mundial do Comércio - OMC como consultor e aponta que os desafios para século XXI são nossas relações com as proteínas vegetais e animais. Ele ataca a frase “países com vocação para alimentar o mundo” estuda e faz o histórico da trajetória da soja e os impactos sociais, ambientais e econômicos em vários países. Para Luc Vankrunkelsven até o sistema de produção de soja orgânica em grande extensão não é sustentável. Ele lançou o livro Brasil – Europa em fragmentos? e diz ter ficado contente porque fez um trabalho para adultos que recebeu ilustrações de crianças que ouviram a professora ler o livro e fizeram desenhos de como vêem os problemas e as soluções também. Luc diz que Educação Ambiental na Bélgica está bem incorporada ao ensino das escolas e também na formação de movimentos e instituições. Veja abaixo entrevista concedida ao jornalista Wagner Oliveira do blog Educação Ambiental em Goiás.

EA em Goiás - Por que o Brasil e o Cerrado vão cair em fragmentos?
Luc Vankrunkelsven - Há muitas crises agora. Crise do financiamento, crise ecológica, crise do aquecimento, crise do desmatamento e outras. Para mim desafios para o século XXI são nossas relações com as proteínas vegetais e animais. O desmatamento no Cerrado é duas vezes maior que na Amazônia. Todos falam isso no cenário internacional. O Cerrado vai cair a fragmentos e desaparecer. É um sistema de 65 milhões de anos e não vai voltar. Muitas sementes do Cerrado são especiais e só podem brotar em condições especiais. Na Amazônia se pode replantar. No Cerrado, não! Pode se plantar eucalipto e pinus, mas não é a biodiversidade original do Cerrado. É importante a exposição de fotos do Cerrado, da beleza não só para pessoas daqui, mas também para o mundo inteiro. Eu gosto.


EA em Goiás - Que políticas públicas poderiam ser implementadas para evitar a fragmentação do Cerrado?
Luc Vankrunkelsven - O Cerrado ainda não é patrimônio nacional. Outros biomas já são como Pantanal, Amazônia, Mata Atlântica. Essa será uma conquista. O 11 de setembro (Dia Nacional do Cerrado) é uma data importante, como escrevi no meu livro. Como meus livros, essa data é ferramenta extremamente importante para tentar mudar as mentes no Brasil de que aqui também é um patrimônio nacional.


Imagem de documentários exibidos por Luc Vankrunkelsven na UFG e UCG

EA em Goiás - A soja causou grande impacto no Cerrado preservado. Mas trouxe também a imagem de região próspera. É possível conciliar preservação e sustentabilidade com desenvolvimento econômico?
Luc Vankrunkelsven - Tem um tesouro no Brasil, não só na Amazônia. Um tesouro em produtos e frutos que o Brasil possui. Até 775 produtos de frutos diferentes poderiam ser comercializados para o mercado brasileiro e internacional. Não sou contra exportação e comércio, mas sou contra exportação única de um ou dois produtos como soja e esse grande volume não é bom para o Brasil, não é bom para a Europa, não é bom para a China e outros países.


Foto de João Caetano destaca a beleza e a importância do Cerrado para o mundo no real e no imaginário: a vida humana e a animal

Imagem de documentários exibidos por Luc Vankrunkelsven na UFG e UCG

EA em Goiás - É possível termos agricultura orgânica em larga escala e com preços mais baixos?
Luc Vankrunkelsven - Há fazendeiros no Mato Grosso com 2 ou 3 mil hectares de soja orgânica. Mas esse sistema de grande extensão pode ser orgânico, mas para mim não é sustentável. É também um problema de menos rotação, desmatamento... É mais oportuno promover a agricultura familiar, em escala menor. Não deve ser 20 hectares, depende da região. O problema central do Brasil é a concentração de Terra há cinco séculos. Essa concentração agravou com avanço da soja e agora com a cana-de-açúcar. Ainda mais na mão de alguns da elite. É importante fortalecer a agricultura familiar por exemplo para defender a beleza do Cerrado.


EA em Goiás - Estamos próximos de 7 bilhões de pessoas no planeta. Previsão para 2050 com mais de 9 bilhões. Que agricultura vai alimentar tantas pessoas e agredir menos o meio ambiente?
Luc Vankrunkelsven - Um dos problemas é a produção e a consumação da carne. Não sou vegetariano, mas falo sobre o problema da carne e consumo de proteínas de animais e peixes nos livros. Nos últimos 50 anos a população do mundo dobrou, mas o consumo de carne e peixe quintuplicou. E vai dobrar novamente porque agora a China e a Ásia estão comendo mais carne. É um desastre planetário porque a China tem 20% da população do mundo, mas só 6% da terra arável e 6% da água doce do mundo. E porque os chineses como os europeus ou brasileiros comem muita carne. Temos de pensar sobre essa impossibilidade de globalizar esse consumo de carne e de outras proteínas animais.


EA em Goiás - Como conscientizar e convencer grandes produtores rurais de que é possível produzir localmente?
Luc Vankrunkelsven - Ideologia de grande escala é nós podemos produzir barato e podemos conquistar o mercado internacional. Pode se dizer guerra econômica. Neste livro escrevi um artigo sobre soja e guerra e o ex ministro da agricultura Roberto Rodrigues fala em dez linhas no meu livro e usa 9 vezes a palavra guerra. Guerra, guerra, guerra. Terceira Guerra Mundial. Devemos conquistar essa guerra. O segundo livro Soja Diferente é sobre soberania alimentar. São exemplos de criatividade, agriculturas no Brasil e na Europa, além da soja. O último artigo é sobre soberania alimentar. Nós temos a vocação de alimentar o mundo? Nós americanos, brasileiros temos muita água, devemos alimentar o mundo? Eu disse não! Cada país tem de decidir como vamos organizar a comida e a agricultura. Não é o Brasil que tem de alimentar o mundo.


EA em Goiás - Picolé, sorvete, geléia de frutos do Cerrado são exemplos de alternativas que mostram a importância de preservação do Cerrado para a geração de renda. Mas o potencial dos frutos do Cerrado é suficiente para enfrentar o poder das monoculturas de exportação?
Luc Vankrunkelsven - Não é o único caminho, mas é um elemento importante. O veneno primeiramente é na cabeça e depois na terra. É muito difícil falar sobre alternativas, sobre esses picolés. Mas acho que é possível demonstrar outro caminho. O problema agora não é só a soja mas, também, a cana-de-açúcar vai ser usada para muitas aplicações e não só para etanol, plásticos, biologia sintética, para muitas aplicações. Então será difícil defender outros caminhos como desses frutos.

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EA em Goiás - Comente por favor a frase: "Na Europa tudo é importado. É impossível cultivar".
Luc Vankrunkelsven - Expliquei em meu livro a história da ração animal. É uma história da interdependência. Comecei no século XIX, mas a data mais importante é 1962 quando ocorreu um convênio da OMC entre América e Europa. Nós, europeus, pudemos defender nossas fronteiras para estabelelecer nossa agricultura na Europa, mas com uma exceção: devíamos aceitar que soja ou milho entrassem sem alfândega. Com essa decisão política entraram toneladas de soja a cada ano até chegar a 39 milhões de toneladas por ano. Dessas, 20 milhões são do Brasil. Nos anos 60 e 70 eram dos Estados Unidos, mas depois começou no Brasil a Revolução Verde e o carro chefe era a soja. Nos últimos 15 anos a soja é mais do Brasil do que dos Estados Unidos. Mas é possível plantar soja, por exemplo, na Itália. Há 20 anos havia produção de soja e era a maior produção do mundo por hectare. Mas é uma soja mais cara do que a muito barata do Brasil, importada sem alfândega na Europa. E os problemas colaterais, sociais e de ecologia do Brasil, de Cerrado, não é deste preço. Então a produção de soja e de outras proteínas pararam na Europa. Só 1% da nossa terra arável na Europa é hoje utilizada para produzir proteínas. Todo o restante é importado. Frangos, suínos, carne bovina comem soja do outro lado do Oceano Atlântico. Mostro isso no meu livro Navios que se cruzam na calada da noite. Soja sobre o oceano.


Ilustrações da capa e do interior do livro são desenhos de crianças de comunidades carentes feitos após ouvirem a leitura do livro

EA em Goiás - De que forma a educação ambiental pode contribuir diante da transformação do bioma Cerrado para a expansão da agricultura?
Luc Vankrunkelsven - A formação e a educação são importantes. Estou agora muito feliz com esse livro Brasil - Europa em fragmentos? É um livro para adultos, mas foram crianças que fizeram centenas de desenhos para ilustrar e alguns estão no livro. Uma professora de universidade de Curitiba falou em extensão para crianças de comunidade carente sobre o livro e depois eles fizeram os desenhos. É um espelho para os adultos de como as crianças não só veem esses problemas, mas também as soluções. Uma esperança está na nova juventude que pode tentar mudar um pouco o rumo. Não só as crianças mas, também, os adultos precisam ter formação. Pensar sobre a beleza do Cerrado.


EA em Goiás - Qual experiência de educação ambiental na Europa o senhor citaria?
Luc Vankrunkelsven - São 26 países da comunidade europeia e educação e cultura é sempre matéria dos governos locais. Não posso falar de forma geral porque meu governo é da Flandria. Na Bélgica está bem incorporado no ensino das escolas e também na formação de movimentos e instituições.


Cena de mais um documentário exibido: impactos sociais, econômicos e ambientais

EA em Goiás - De que forma o senhor está defendendo hoje o Cerrado na Europa e na OMC?
Luc Vankrunkelsven - Não há critérios ambientais na OMC (Organização Mundial do Comércio). Este é um dos problemas. Também não tem condições de trabalho na OMC. Mas na Europa eu convidei agora o fotógrafo João Caetano e o Fórum Goiano de Defesa do Cerrado para exposição com essas fotos e também para debate no parlamento europeu.


Soja do Brasil principalmente para alimentação animal na Europa

EA em Goiás - Durante palestra na PUC-Goiás o professor de administração Ricardo Resende comentou: “É preciso desenvolver sistemas sustentáveis e capazes de combater os esquemas atuais. Tem de saber quem tem vocação para plantar, para produzir eletrodomésticos. Combater modelos e sistemas insustentáveis. Ter modelos sustentáveis para contrapor.” Esses modelos sustentáveis já surgiram, vão surgir ou só temos o diagnóstico ainda?
Luc Vankrunkelsven - Eu não acredito na vocação de alimentar o mundo. Os americanos têm essa ideia do século XIX e o Brasil tem agora a ideia de alimentar o mundo, não da soberania alimentar. Meu segundo livro Soja Diferente diz que cada povo, cada país, tem de discutir como organizar a agricultura e a comida. E não como mostrei em um filme sobre o dumping com frango que chega à África e destrói a cultura e economia. Não gosto de a Europa acreditar que tem vocação para exportar leite para a Ásia porque só é possível com a soja importada do Brasil. Produz 10 mil litros de leite, mas só é possível com ração forte da soja. Então eles vão usar neste modelo a palavra sustentável. Mas para mim só vão usar a palavra sustentável para um capitalismo verde. Todos agora falam em sustentabilidade. Mas tenho medo dessa palavra usada por multinacionais e até bancos. Vamos discutir o que é sustentabilidade. Sou pela sustentabilidade. Eu discuto na Bélgica a industrialização animal com grandes sindicatos de agricultores e eles também usam essa palavra sustentabilidade. Dizem que vão converter esse fluxo de soja do Brasil para a Europa de forma sustentável. E para mim nunca poderá ser sustentável. A produção pode ser sustentável, mas esse sistema de navios que cruzam o Oceano Atlântico na calada da noite não pode ser sustentável.

Ilustração de livro de Luc com desenhos de crianças: percepção infantil e educação ambiental



Um mundo sem árvores, só prédios, só concreto.

Clique para ler ampliada

Página do livro de Luc com dez razões para dar seu apoio e participar

A entrevista pode ser reproduzida citando a fonte: www.wagneroliveiragoias.blogspot.com/
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26/05/2010

. Educação Ambiental
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na CONAE 2010
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CONAE 2010 - Documento Final - Baixe Aqui

Leia no link acima a íntegra do documento final da Conferência Nacional de Educação - CONAE, realizada pelo Ministério da Educação e que ocorreu de 28 de março a 1° de abril de 2010. Documento final apresenta diretrizes, metas e ações para a política nacional de educação. A CONAE mobilibou cerca de 3,5 milhões de brasileiros e brasileiras, contando com a participação de cerca de 450 delegados e delegadas nas etapas municipal, intermunicipal, estadual e nacional envolvendo em torno de 2% da população do país. Abaixo a parte do documento direcionada à educação ambiental.
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Quanto à educação ambiental:

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a) Garantir por meio de recursos públicos, a implementação e acompanhamento da Lei da Política Nacional de Educação Ambiental (Lei n. 9795/1999).
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b) Introduzir a discussão sobre educação ambiental na política de valorização e formação dos/das profissionais da educação.
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c) Garantir, fortalecer e efetivar a implantação de políticas públicas e de programas de educação ambiental, considerando-a como atividade curricular obrigatória, nas instituições de educação básica, profissional e tecnológica, e em todos os cursos de licenciatura e de bacharelado, na perspectiva dos projetos político-pedagógicos, mediante avaliações contínuas e com profissionais preparados/as.
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d) Estimular a participação da comunidade escolar nos projetos pedagógicos e nos planos de desenvolvimento institucionais, contemplando as diretrizes da educação ambiental.
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e) Garantir a oferta do ensino médio, articulado ou integrado à formação técnica profissional nas áreas agroflorestal, ecológica, de sociedade sustentável, para elaboração e gestão de projetos de fortalecimento comunitário nas reservas extrativistas, territórios indígenas, comunidades quilombolas e comunidades tradicionais.
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f) Assegurar a inserção de conteúdos e saberes da educação ambiental nos cursos de licenciatura e bacharelado das instituições de ensino superior, como atividade curricular obrigatória.
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g) Garantir nos estabelecimentos públicos e privados de ensino, em todos os níveis, etapas e modalidades, técnico e superior, uma educação ambiental crítica e emancipatória, com vistas à formação de sociedades com sustentabilidade ambiental, social, política e econômica, e que tenha como finalidade repensar o modo de vida, o sistema de produção, a matriz energética, as relações do ser humano, sociedade e natureza e os seus impactos, de forma a internalizar, no âmbito individual e coletivo, intra e intergeracional, os princípios da sustentabilidade.
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h) Articular as ações, projetos e programas de educação ambiental nas esferas federal, estadual e municipal, em sintonia com as diretrizes do Programa Nacional de Educação Ambiental (Pronea) e da Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA), de acordo com a Lei Nacional de Educação Ambiental
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i) Inserir uma concepção de sustentabilidade socioambiental, articulada à política e à orientação nacionais, que vêm sendo apontadas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável e suas diretrizes, e, no caso específico dos povos do campo, pela Política Nacional de sustentabilidade Socioambiental dos Povos e Comunidades Tradicionais (Decreto 6.040/07).

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25/05/2010

EA nos acordes
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A música tem grande importância na Educação Ambiental porque pode passar informação com rico conteúdo de forma bem simples e interessante. Um exemplo é o vídeo Lixo que posto abaixo. Educação Ambiental nos acordes, na união de sons que formam a harmonia. Que acorde também quem ainda não despertou para a coleta seletiva, para o reaproveitamento, para cuidar e fazer a sua parte na preservação do planeta. As imagens fazem parte também do vídeo de Fernando Leal & Guilherme Leão e mostram a arte com recicláveis.

Máscaras com metal reaproveitado

Veja abaixo o vídeo Lixo com música e letra


Veja o vídeo e copie a letra da música:
De Fernando Leal & Guilherme Leão
e cante com seus alunos


Vidro, plástico, metal, papelão.

Coleta seletiva é uma solução...
O futuro do planeta, pode estar em nossas mãos...

Aterro sanitário é diferente de lixão,
onde o céu, a água, e o solo sofrem, com poluição.
Há também odores, que cheiram à putrefação.

Restos de comida, madeira e jardinagem.
Tudo vira adubo se for feita a compostagem.
Se existe uma saída, é preservar a vida,
não poluir os rios e acabar com o lixão...

O lixo separado, é reaproveitado.
O lixo gera emprego, o lixo vira arte.
O lixo é reciclável é reutilizável.
Se for reciclado, ele é reduzido.
Chorume é poluente, se não for tratado.
Só irá pro aterro o que, não for separado.

Reutilize, o desperdício pode acabar.
É verdade, o mundo ainda pode mudar!

Seco, molhado, orgânico, inorgânico.
Lixo, separado, é reinventado.
Lixo hospitalar, é preciso incinerar.

Sopre a corneta, ajude o planeta,
tudo só depende de vontade e ação.
Seja lá o jeito, tem é que ser feito.
Verde, amarelo, vermelho e azul...

Reutilize, o desperdício pode acabar.
É verdade, ainda há tempo pra mudar.

Seja lá o jeito, tem é que ser feito.
Verde, amarelo, vermelho e azul.
Se existe uma saída, é preservar a vida,
não poluir os rios e acabar com o lixão...

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23/05/2010

Seminário Meio Ambiente
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e os avanços na indústria
Clique no convite para ler
02 de junho de 2010 - Casa da Indústria
em Goiânia
- Reservas: 062-3219-1419
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20/05/2010

Andre Trigueiro critica rumos
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da gestão ambiental no País

Por Silvia Marcuzzo*

O multimídia André Trigueiro, jornalista com uma experiência singular na área da sustentabilidade, fez uma palestra que comoveu a platéia no último dia da Conferência do Instituto Ethos de Responsabilidade Social, 14 de maio. Apresentador do Jornal das Dez, da Globo News e do quadro Mundo Sustentável, da rádio CBN, André também ajuda a formar novos profissionais como professor de Jornalismo Ambiental da PUCRJ. Autor de três livros, sendo que o último une os temas Espiritismo e Ecologia, edita e apresenta o programa Cidades Soluções, também da Globo News, revela, com exclusividade para a Envolverde, opiniões que vão muito além das notícias que apresenta na emissora onde trabalha.


Qual é a sua avaliação sobre a transição para uma economia de baixo carbono? Quem você acha que está cumprindo melhor esse dever, a iniciativa privada, governos locais, ONGs?
Depende de que lugar do mundo a gente prestar atenção. No Brasil, tem uma confusão em relação à regulação. Acho que tem muitas organizações estatais dando pitaco sobre qual deve ser a melhor configuração da matriz energética, se ouve falar do Ministério de Minas e Energia, Petrobras, Eletrobrás, Aneel. E nesse momento, o governo tem a determinação de levar em frente projetos de grandes hidrelétricas na Amazônia a toque de caixa. Isso não é bom, deixa no ar informações que não foram devidamente apuradas gerando incerteza tanto em relação ao custo da obra, quanto aos impactos gerados.
Estou falando de Belo Monte e da dificuldade de justificar para sociedade brasileira porque a pulverização da matriz energética, aqui encontra, ao que parece, alguma exigência. O país vai crescer muito nos próximos anos, o governo está com a corda no pescoço, tendo que construir uma Belo Monte a cada dois ou três anos. Esse debate é sempre levado com muita pressa e pouca transparência, pouca participação da sociedade na descoberta de alternativas ou um melhor desenho dessa nova matriz.


Diante desse contexto, as organizações não governamentais socioambientais estão conseguindo mostrar melhor pra sociedade o que tudo isso significa?

Eu acho que há um certo radicalismo de algumas organizações. Por exemplo, não existe energia limpa. Hidrelétrica gera impactos violentos. Na Alemanha, vi um movimento contra fazendas de vento porque geram muito ruído. Quando se concentra aerogeradores em um campo idílico perto da natureza, quem mora no campo não suporta o ruído das wind farm plants. É preciso ter essa clareza de que não dá para agradar a todo mundo sempre.

Algumas organizações ambientalistas estigmatizam tremendamente, por exemplo, a construção de hidrelétricas de grande porte. Entretanto, é preciso fazer a conta. Em algum momento a gente vai ter que chegar a um projeto que compreenda o aproveitamento da água como fonte de energia renovável, o que vai gerar algum tipo de impacto. A questão não é não gerar impacto como algumas organizações idealizam. Solar e eólica não são fontes firmes de energia. É preciso ter clareza de que elas chegam bem como fonte complementar em alguns lugares, para não ser refém só de hidrelétricas, térmicas ou nucleares. O radicalismo nesse debate não ajuda.


E o que está sendo feito em relação à eficiência energética?

Pouco. Não é o discurso dominante. Acho que o governo central não desenvolve grandes campanhas, não define políticas públicas em direção à eficiência. A intenção desse governo é marcar uma diferença em relação ao passado, ao governo do “apagão”. Ao que parece, há um receio de defender a eficiência energética, que isso seja confundido com alguém que esteja acuado, frágil, que não esteja dando conta do recado e tenha que apelar para as pessoas físicas ou jurídicas não usarem tudo aquilo que poderiam usar de energia. Isso é uma hipótese. Estamos em dívida com a sociedade brasileira, o Brasil não despertou, não acordou para a urgência de uma política pública grande que se resolva em diferentes frentes na direção da eficiência energética.


E a questão da fragilização da legislação ambiental? Você acha que o governo é comprometido com uma política para a sustentabilidade?

Eu acho que é inevitável o conflito. O governo tem um discurso dúbio e a sinalização não é clara em relação à forma como se enxerga o modelo de desenvolvimento. PAC é um nome infeliz pra um programa de governo que só tem pelo nome o compromisso com a aceleração do crescimento e não se compromete publicamente no nome com a sustentabilidade. Quando se coloca o projeto da regulação dos recursos do Pré-sal em urgência no Senado para ser votado a toque de caixa, há uma complexidade enorme que vai definir os próximos 50 anos no Brasil. É um projeto que precisa ser acordado pela vontade do governo e em poucos meses define o destino de um país. Não faz sentido, pressa, açodamento, PAC.


Tudo isso significa que garantias de qualidade ambiental estão em perigo?

Sim. Mas voltando a pergunta original, a gente não pode ser idealista a ponto de acreditar em um modelo de desenvolvimento que não gere impactos. A questão é: quais impactos são suportáveis, inevitáveis? E aí um regime republicano federativo como o Brasil, onde o poder é vertical, a figura do presidente da república ainda concentra muito poder.

É preciso ter clareza do rumo. Até aqui, no que diz respeito a energia, vejo que existe uma pressa. E em ano eleitoral isso se agrava. O futuro a médio e longo prazo do Brasil em relação à forma como se toca esse campo não é bom. É preciso ter mais serenidade na hora de planejar, executar e conversar. Esse é o lado bom do período eleitoral. Candidatos vão apresentar propostas. Se tiver segundo turno, que eu torço que tenha, eles conseguem afinar as propostas, construir alianças e o próximo presidente, seja ele quem for, estará melhor alicerçado, embasado, pra apresentar uma melhor política. Não que haja um consenso, mas que as correntes de especialistas, do terceiro setor, do setor privado, do governo sentem, conversem e ajustem quais os impactos suportáveis, toleráveis e inteligentes que se pode ter.


E sobre o papel da imprensa nisso tudo, você acha que está se dando a atenção apropriada a esses assuntos, como a definição da matriz energética?

Houve avanço e há um processo de maturidade da mídia em relação à ordem de grandeza que os assuntos ambientais merecem. Estamos hoje muito melhores do que já estivemos. Mas ainda há muita desinformação. O Brasil é muito grande e a mídia não está presente no Brasil. Principalmente as mídias impressa e eletrônica que tem pegada forte em São Paulo, Rio e Brasília. Fora dessas três cidades, só abre espaço para Porto Alegre, Salvador, Belo Horizonte, Curitiba, Recife, Manaus e Belém quando é um assunto que lembre que aquele lugar seja exótico, extraordinário, inusitado. A mídia não cobre bem o Brasil. O Brasil é desigual e a cobertura da mídia também.

Quando o assunto é meio ambiente há outras singularidades que vão na direção do analfabetismo ambiental, da dificuldade de se produzir pautas menos óbvias e criativas, o custo da reportagem investigativa. Quantas empresas de comunicação ou mídias menos sofisticadas tem fôlego pra enviar um repórter para uma área distante, como o Xingu, para ver de perto, fazer uma apuração? O custo operacional de uma reportagem investigativa, problemas de logística, é preciso investimento. Significa tirar uma ou mais pessoas da pauta do dia a dia para ficar uma semana, dez dias, um mês cuidando de um assunto.


O que acontece? Falta dinheiro, não há projetos?

Não é isso. É uma visão empresarial e daí você vai ter que conversar com cada diretor de redação e perguntar qual espaço ele está abrindo no seu dia a dia para uma reportagem investigativa de qualquer ordem, pode ser policial política, econômica.


E qual é o impacto do “Cidades e Soluções” nos municípios?

A exibição do programa, tanto na Globo News, quanto no canal Futura, no sinal aberto da parabólica da Globo, na Globo internacional e no site, onde o programa fica hospedado por um ano tem tido retorno de gestores públicos, tanto do legislativo, como do executivo. O programa fomenta mudanças de rotina, uma nova maneira de planejar as atividades. É muito interessante perceber que as soluções existem, elas são replicáveis. Onde não se quer inventar a roda por vaidade, por pretensão de querer ser cultuado como aquele que resolveu o problema porque teve uma brilhante idéia. Boa parte dessas soluções não implica num custo maior, elas dão resultado efetivo, e elas mostram que na verdade não há falta de projeto, não há falta de solução. Há, talvez, falta de interesse em conhecer o que está acontecendo aqui no Brasil.


*Silvia Marcuzzo, jornalista, diretora da ECOnvicta Comunicação para Sustentabilidade


Colaborou Marina Paschoalli, estudante de jornalismo da Unesp de Bauru.


(Agência Envolverde)



Palestra de André Trigueiro
no 3º Congresso Espírita



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18/05/2010

Palestra:
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Necessidades econômicas
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sociais e ambientais


Clique no cartaz para ver ampliado

27 de maio, quinta-feira, na PUC-Goiás.
Com Luc Vankrunkelsven - escritor belga

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17/05/2010

16º Simpósio Ambientalista
Brasileiro no Cerrado

Encontro Regional - Anicuns

Clique no cartaz para ler

Dia 8 de junho de 2010
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De 2 a 6 de junho em Silvânia, Goiás. Informações e inscrições no cartaz. Só clicar que abre na tela.
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13/05/2010

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