05/06/2011

DIA DO MEIO AMBIENTE

Araguaia:
a relação água e vida
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Foto do Google Earth mostra local entre Pará e Tocantins com mata ciliar reduzida pelo desmatamento. Com a terra desprotegida as águas não infiltram como antes e o rio vai perdendo quantidade e qualidade das águas

Ao conversar com ribeirinhos, índios Karajá ou quem conheceu o Rio Araguaia das décadas de 60 e 70 já é possível constatar que o rio sofre as consequências da ação antrópica com a ocupação dos cerrados com a expansão das froteiras agrícolas e das cidades. Há dois anos conversei com o cacique Raul da aldeia Buridina e ele relatava que o Araguaia tinha muito mais água e muito mais peixes na mesma época do ano em que hoje observamos o rio. Antigos pescadores também observam o mesmo. E análises da água realizadas por órgãos ambientais também mostram alterações. Realmente não é possível o homem ocupar o meio ambiente sem causar alterações e impactos ambientais. Ainda mais tendo de produzir alimentos para bilhões de pessoas que vivem na Terra. Mas o que se procura é minimizar esses impactos com, por exemplo, o cumprimento das leis. E para sensibilizar e conscientizar é muito importante conhecer. Só assim sabe-se a verdadeira importância de preservar. As águas do Rio Araguaia mantêm múltiplas vidas dentro e fora do rio. Não só os animais e peixes dependem do rio como o ser humano também que não só pode se alimentar dos frutos do rio como depende também do equilíbrio no tempo, no clima, que vão afetar as colheitas de grãos. Tudo está interligado no meio ambiente e para sobrevivermos bem nesta Terra dependemos desde uma pequena nascente ou córrego a um grande rio. Podemos viver na Terra porque ela mantém as condições ideais para a vida desenvolvidas ao longo de milhões, bilhões de anos. E todos devem ter o compromisso de preservar: ribeirinhos, fazendeiros, turistas, pescadores, índios e poder público. A ação conjunta de todos na preservação é a melhor alternativa para mantermos as belezas naturais do Rio Araguaia e inclusive a nossa própria vida.


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Abaixo matéria publicado pelo jornal O Popular


Araguaia já perdeu 44,5%
da vegetação permanente


Estudo revela que devastação das APPs do rio coloca em risco qualidade e quantidade de água


Almiro Marcos
O Popular 4-6-2011


Um Dia Mundial do Meio Ambiente sem muitos motivos para comemorar. Pelo menos é assim que pode ser considerado em relação ao Rio Araguaia. Os títulos de principal rio goiano e paixão do povo de Goiás não são garantia de preservação para ele. A importância que ele tem no discurso não se transporta para o mundo da prática. A realidade é ingrata e revela que a devastação já atinge quase metade das matas localizadas às margens e nas nascentes do Araguaia e de outros rios da bacia em Goiás.

Chamadas de áreas de preservação permanente (APPs), tais tipos de vegetação são teoricamente protegidas por lei e não poderiam ser retiradas. Mas foram e, o pior, é que talvez não precisem ser recuperadas. Ocorre que mudança proposta na atualização do Código Florestal Brasileiro (que encontra-se atualmente no Senado) dá margem para que situações como a da Bacia do Araguaia sejam consolidadas da forma como estão. Ou seja, sem recuperação do que já foi desmatado e ameaçando a disponibilidade dos recursos hídricos e a biodiversidade.

Estudo feito por pesquisadores então vinculados à Universidade Federal de Goiás (UFG) e publicado em 2009 tentou apontar o impacto do desmatamento em APPs nas bacias do Alto e Médio Araguaia, que abrangem justamente o território goiano. A área pesquisada, com base em imagens de satélites fornecidas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), foi desde as nascentes, em Mineiros, até a divisa com o Tocantins (Conceição do Araguaia).

Foi feito um recorte nas duas regiões, abrangendo, além do próprio Araguaia, rios que o abastecem, como Vermelho, Caiapó e Crixás. As referências das informações foram os meses de julho e agosto de 2006. A situação verificada não foi nada alentadora: 44,58% das APPs da bacia do Alto e Médio Araguaia já foram desmatadas. Isso representa uma área de 635.256 hectares (ou pouco mais de 635 mil campos de futebol).

"A situação já era preocupante. Apesar de não termos feito uma verificação posterior, é certo que a situação mudou para pior. Afinal, o que observamos como regra é que a devastação sempre aumenta, enquanto as ações de recuperação são pontuais", justifica a professora Luciane Martins de Araújo Mascarenhas, hoje vinculada à Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO) e que na época do estudo era doutoranda em Ciências Ambientais pela UFG.

Implicações

Mais do que um desrespeito à legislação ambiental em vigor, que prevê proteção das matas ciliares dos cursos d'água (no caso do Araguaia são 100 metros a contar de cada uma das margens), as constatações do estudo têm implicações práticas. "Sem a proteção das matas ciliares e nascentes, colocamos em risco a disponibilidade e a qualidade da água", acrescenta o professor Manuel Eduardo Ferreira, doutor em Ciências Ambientais e vinculado à UFG, que também participou do trabalho.

O titular da Delegacia Estadual do Meio Ambiente, Luziano Carvalho, desenvolve um projeto de recuperação de nascentes em Goiás desde 1999. É com conhecimento de causa que ele salienta que a proteção vegetal natural favorece os mananciais. "As árvores, principalmente nas áreas de nascentes, fazem com que a água da chuva se infiltre e abasteça os lençóis subterrâneos. Sem a proteção, não há recarga, aumenta a evaporação da água que brota e diminuiu a quantidade", diz.

Fonte: Jornal O Popular


Ocupação da área pesquisada
foi intensificada a partir de 1970


A área da bacia pesquisada no estudo não tem ocupação antiga. A intensificação se deu a partir da década de 1970, com a expansão da fronteira agropecuária nacional. A vegetação natural foi gradativamente derrubada para dar espaço para pastagens e lavouras.

O fato levou à futura degradação de áreas que, até pelo bom senso, não poderiam ter sido convertidas, como margens de córregos e próximas a nascentes, essenciais para a disponibilidade dos recursos hídricos. Hoje, o quadro consolidado na metade das áreas de preservação permanente (APPs) é o da falta da cobertura natural. Um dos problemas decorrentes foi o surgimento de erosões (voçorocas).

A professora Luciane Martins, que participou do estudo sobre a degradação de APPs, explica que o tipo de solo do Alto e Médio Araguaia favorece o surgimento de erosões e o assoreamento dos rios, já que o material, sem a proteção das árvores e suas raízes, é levado direto para o leito dos cursos d'água. Em situações normais, árvores e raízes funcionam como filtro para esse material, além de impedir, é claro, o surgimento do processo erosivo.

A ocupação do Cerrado como um todo foi feita, no passado, com incentivo do governo. Por isso, produtores rurais se defendem. "Houve incentivo. O governo financiou. As cidades cresceram e a economia desenvolveu. A lei da reserva legal, que definiu área a ser mantida de 20%, veio em 1989. Agora, como vão punir pessoas que vieram e ocuparam as áreas antes disso?", argumenta o presidente da Federação da Agricultura e da Pecuária em Goiás (Faeg), José Mário Schreiner.

Fonte: Jornal O Popular



Outros levantamentos
mostraram problema


O levantamento feito sobre a situação das áreas de preservação permanentes (APPs) da Bacia do Araguaia em Goiás não é o primeiro que indica problemas para o rio. Outros estudos ao longo dos últimos anos indicam problemas preocupantes na bacia, sejam recentes ou antigos.


Em 2004, uma expedição organizada pelo governo de Goiás, chamada de Couto de Magalhães, percorreu boa parte do rio levando técnicos e colhendo informações a respeito do grau de devastação e conservação do rio.

Foi verificada a presença de construções irregulares nas margens do rio e também de desmatamento dentro da faixa que deveria ser preservada. O Ministério Público (MP), que enviou um perito ambiental com o grupo de pesquisadores, constatou que o desmatamento irregular continuava ocorrendo em APPs, a despeito da tese de que a devastação na região já havia sido consolidada no passado.

Além disso, amostras de água foram coletadas em vários pontos do rio, avaliando vários itens, dentre eles a qualidade da água. Um dos pontos que chamaram a atenção dos técnicos foi o alto índice de sedimentos transportados, acima do que o rio normalmente leva.

Outro estudo a respeito da qualidade da água do Araguaia foi feito pelo pesquisador suíço Gérard Moss, que percorreu vários países fazendo análise de água. No País, com o Projeto Brasil das Águas, ele coletou amostras em várias bacias. A verificação da questão do Araguaia indicou a alteração da composição natural da água do rio em função da ação humana em suas margens.

Dos dez pontos onde o pesquisador fez coleta de água na Bacia do Araguaia em Goiás, em apenas dois a água foi considerada natural (sem alterações). Em quatro pontos, a análise indicou impacto de baixo a moderado. Em outros quatro pontos, a situação da água foi considerada com impacto da atividade agropecuária.

Fonte: Jornal O Popular


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