27/07/2012

"Educação ambiental 

é falha no Brasil"

Bióloga e doutora Cláudia Ferreira

Ocimara Balmant 
Publicado originalmente em O Estado de S.Paulo
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Quem não ouviu falar da Rio+20? Por duas semanas, representantes do mundo todo estiveram no Brasil discutindo soluções para problemas como a emissão de gases poluentes, o desmatamento, a carência de água potável e o descarte de lixo, entre outros temas cuja resolução depende, fundamentalmente, da formação de cidadãos conscientes e comprometidos.


Mas o que as escolas têm ensinado sobre o assunto? Apesar de haver legislação sobre educação ambiental e materiais específicos produzidos pelo Ministério e pelas Secretarias de Educação, será que o conteúdo é trabalhado em sala de aula?

Foi com essa inquietação que a bióloga Claudia Ferreira, também professora de metodologia de ensino ambiental, saiu a campo em escolas públicas de São Paulo. "Minha constatação foi de que no papel é tudo bonito, mas, na da sala de aula, o material é deixado de lado. Seja pela falta de habilidade e conhecimento do professor, seja pela infraestrutura do sistema", afirma a pesquisadora, que defendeu sua tese de doutorado sobre o tema neste ano na Faculdade de Educação da USP.

Durante dois anos, 2009 e 2010, ela frequentou três escolas estaduais da capital paulista: acompanhou reuniões de planejamento pedagógico, conversou com pais, entrevistou docentes e assistiu a aulas que dão o cenário da situação.

Exemplos
Numa sala de 8.ª série (9.º ano do ensino fundamental), a professora de geografia pediu que os alunos lessem um texto sobre o Fórum Social Mundial e escrevessem sobre o tema. Em outra escola, a docente de ciências desistiu de levar os alunos da 5.ª série (6.º ano) ao jardim interno da escola, apesar da recomendação do material didático. Alegou que dava muito trabalho retirar 47 alunos da sala.

Há casos, é claro, de professores que se esforçam bastante, explica a pesquisadora, mas mesmo assim não conseguem abordar o tema de forma que instigue os alunos. E o motivo não é o desinteresse prévio dos estudantes, mas o tipo de abordagem. "A criança e o adolescente são muito interessados, mas querem atividades que façam sentido", afirma Claudia. Na pesquisa, ela narra o caso de uma aluna que levou um caranguejo morto à aula de ciências. A partir do inusitado, a professora decidiu falar sobre os crustáceos e recebeu total audiência da sala.

Infraestrutura
O caso aponta a um outro problema frequente: a carência de laboratórios e de biblioteca com acervo diversificado. Sem esse aparato, dizem os professores, eles acabam por tratar o conteúdo de forma teórica e em salas superlotadas, que chegam a abrigar 50 alunos.
Para mudar isso, diz a educadora, é preciso, antes de tudo, que os órgãos governamentais capacitem os professores e produzam os materiais pedagógicos tendo em vista as sugestões desses profissionais que vivem o dia a dia da sala de aula.

Em segundo lugar, é preciso garantir que o tema perpasse o conteúdo de todas as disciplinas, conforme prevê a lei. "O diretor e o coordenador pedagógico não podem ignorar o tema. Eles precisam se responsabilizar em incluí-lo no planejamento anual", afirma.


Por último, o aluno deve ser convidado para essa conversa, para que isso faça sentido na vida dele. O indicado é que a equipe administrativa e de professores, com a participação dos estudantes, faça uma sondagem de situações-problemas, de necessidades e de interesses específicos daquela comunidade escolar no que se refere ao temas ambientais. A partir daí, é natural que os desafios se traduzam em ações conscientes.


"Em uma das escolas que visitei, um pai me disse: Meu filho aprendeu na aula e me ensinou como economizar energia no banho?. É isso. Quando faz benfeito, a escola afeta a comunidade, contamina todo mundo", conclui a pesquisadora. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

Tratar o assunto de modo correto é difícil, mas não impossível

Análise: Celinha Nascimento coordenadora de Educação Ambiental da Comunidade Educativa CEDAC.

Apesar de o tema estar na moda, não se faz ainda educação ambiental em escola. E uma razão simples pode dar uma primeira pista: o que pertence a todo mundo pode não pertencer a ninguém. Os professores e as próprias instituições têm muita dificuldade em trabalhar os temas transversais, que perpassam todas as disciplinas.

Meio ambiente, ética, mundo do trabalho, sexualidade pertencem a todos os professores e é necessário um movimento bastante coeso entre os educadores para que essas áreas sejam, de fato, trabalhadas no ambiente escolar. Opta-se, na maioria dos casos, por falar do assunto em datas comemorativas - como o Dia do Meio Ambiente, do Índio ou da Árvore -, ou por meio de iniciativas muito pontuais, como a famosa horta ou a coleta de lixo. Quando o tema ganha as salas de aula, faz-se apenas o que já está estabelecido, como a produção de artesanato com material reciclável nas aulas de artes.

Educação ambiental é muito mais que isso. E, para início de conversa, é preciso ter paciência e disposição para reflexões profundas. Mas isso acontece raramente. As escolas acabam por andar na contramão, querem coisas rápidas. Com esse pensamento, é difícil tirar da cabeça delas que recolher os papéis jogados no chão é cidadania, mas não exatamente uma ação ambiental.

Os professores precisam receber formação e, com base nisso, estabelecer a prática didática mais adequada. Ler um poema sobre árvore nas aulas de português não é educação ambiental. É preciso ir além. Que tal propor aos alunos a elaboração de um jornal ambiental ou uma peça publicitária? Atividades como essas trabalham os dois conteúdos simultaneamente: além de pesquisar e compreender os temas ambientais que irão abordar, eles aprendem a fazer entrevista, coleta de dados, sistematização de informação e exercitam a escrita correta, sucinta e coerente, entre outros aprendizados da Língua Portuguesa.

Depois de pronto, os produtos podem ser expostos ou distribuídos e, nesse momento, cumpre um segundo requisito inerente aos temas transversais: a interface com a sociedade. Nesse caso, podem ser tanto estudantes de outras turmas, como os pais, a população da vizinhança etc. Sem esse entendimento amplo do que seja educação ambiental, o professor se vê na berlinda de achar que vai precisar deixar de lado o conteúdo da disciplina para falar de meio ambiente.

E não é sem razão esse desespero. No dia a dia, ele precisa dar espaço a um tanto de atividades. Desde a ONG que vai falar de doenças sexualmente transmissíveis (DST), de outra que vai falar da dengue e de uma terceira que vai abordar a educação no trânsito. Além dos feriados, das datas comemorativas... E a lista segue.

Para que a educação ambiental não entre nessa cesta, tem de ir além dos parâmetros do MEC, integrar de verdade a comunidade escolar e ver essa apreensão de conteúdo refletida na mudança de hábito. Contra o desperdício, os alunos podem receber garrafinhas em lugar de copo plástico. Para aproveitar a água da chuva, a escola poderia ter uma cisterna. É a transversalidade dentro e fora das paredes da sala de aula.
(O Estado de São Paulo)   

Publicado também em http://www.jornaldaciencia.org.br






Professores sofrem dificuldades para ensinar educação ambiental em SP

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Estudantes se interessam pela temática, mas professores não sabem como abordar Foto: Instituto Ecofaxina

Raíza Tourinho - Portal EcoD - www.ecod.org.br

Com a crença de que a educação ambiental é essencial para estimular a humanidade a agir em defesa do meio ambiente, a bióloga Cláudia Ferreira dedicou dois anos (2009 e 2010) para descobrir como a questão era abordada nas escolas pública paulistas.

Para obter o título de doutora na Faculdade de Educação da USP (Universidade São Paulo), a pesquisadora frequentou salas de aula do ensino fundamental de três escolas estaduais da capital paulista, acompanhando desde reuniões de planejamento pedagógico até as aulas ofertadas aos estudantes. Além disso ela analisou o material oferecido, entrevistou pais, professores e gestores. 

“Todos os professores dizem que é muito importante trabalhar o tema meio ambiente. Só que na prática, eles não conseguem fazer isso"
Claudia Ferreira, bióloga
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E o cenário que viu não foi nada animador: apesar do interesse de estudantes e o reconhecimento da importância do tema por parte dos professores, a questão é mal abordada nas salas de aula. Para tal constatação, motivos não faltam. Apesar de bem elaborado, o material desenvolvido para a temática é entregue sem nenhuma orientação; não há infraestrutura escolar; sem valorização e acompanhamento, os professores desmotivam-se a agir.
Confira nesta entrevista, concedida ao EcoD por telefone, o cenário que Claudia se deparou, os resultados do estudos, e o que falta para pegar de vez a política da educação ambiental no Brasil.

lattes.jpgEcoD: Como foi que surgiu a ideia da pesquisa? Fale um pouco sobre seu estudo.
Claudia Ferreira: Meu interesse era saber como o meio ambiente estava sendo trabalhado nas escolas públicas de São Paulo. Aqui, a gente tem os materiais, com diretrizes para os professores, que é enviado pelo Mec (Ministério da Educação). Então, queria saber como é enviado esse material, como isso chega aos professores, como eles trabalham no dia a dia o tema. Fiz uma pesquisa bem ampla sobre o assunto. Fui investigar na Secretaria de Educação como eram feitos esses materiais, analisei o conteúdo e depois fui para a secretaria de ensino para saber como esse material chega lá e é enviado para as escolas.

E qual foi a conclusão que a senhora chegou?
Os materiais que analisei têm um conteúdo sobre o meio ambiente que acho importante. Eles mandam esses materiais para as escolas, mas os professores têm uma série de dificuldades para trabalhar esse tema em sala de aula. Porque eles já não têm condições de infraestrutura para poder trabalhar, eles tem baixos salários, desvalorização, não tem curso de capacitação disponível. Fora que são sobrecarregados: como ganham pouco, eles trabalham nos três turnos.
Existe uma Política Nacional do Meio Ambiente, de 81, onde dizia que a educação ambiental deveria ser oferecida em todos os níveis de ensino. Ou seja, isso é dito desde 1981. Como é que até hoje não conseguimos colocar isso em prática? Já deu tempo suficiente e até agora não conseguimos tirar as coisas do papel efetivamente. Nossa Constituição Federal, de 1988, também estabelece a educação ambiental em todos os níveis de ensino, assim como conscientização pública e preservação do meio ambiente. Essas coisas deveriam estar presentes no dia a dia da escola.

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Projeto feito por estudantes de umas das escolas pesquisadas, a mais ativa. Foto: Arquivo Pessoal

E como é, na prática?
Fui nas escolas, entrevistei os professores, analisei os materiais e assisti as aulas. O que eu percebi é que todos os professores dizem que é muito importante trabalhar o tema meio ambiente. Só que na prática, eles não conseguem fazer isso. Os materiais chegam praticamente um mês após as aulas começarem. Outra coisa é que quando chegam, não há uma orientação nem preparação. Eles se sentem perdidos, não sabem o que fazer com aquilo.
As escolas também não costumam usar o meio ambiente próximo para abordar essa questão. Um exemplo é uma das escolas que tinha um jardim lindo ao redor dela, mas o tempo todo em que fiquei no local, quase seis meses, eles não foram lá nenhuma vez. Então, é complicado porque eles tem uma coisa na mão que não é útil porque eles não sabem trabalhar com isso.

Por qual motivo? Acomodação, falta de preparo?
Eles falam assim: “ahh, não tenho tempo para isso, tenho muita coisa para cumprir aqui” ou então “imagina sair com 47 pré-adolescentes de 12 anos, eles vão fazer uma bagunça!’. Dessa forma, eles partem para aquilo que é mais pragmático. Quem fica mais responsável para abordar este tema são os professores de Ciências e Geografia. O que a gente percebe nas políticas é que a Educação Ambiental deveria ser um tema gerador de muitas outras coisas. Essa questão deveria ser vista de maneira interdisciplinar.
Basicamente, o que eu vejo nos professores é a falta de condições de trabalho, os professores acabam deixando de lado essa abordagem. Tanto a Educação Ambiental quanto qualquer outro projeto depende de condições básicas necessárias para que tenha sucesso. Então, os professores deveriam ter materiais disponíveis e mais tempo dentro da grade para fazer isso.

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Questão ambiental é melhor aprendida na prática/Foto: guaruja_sp

Mas os professores não têm nenhum tipo de formação para aplicar esse material em sala? Simplesmente é distribuído para os professores sem nenhuma orientação?
Quando eu estive na Secretaria de Educação eles disseram que quando criam os materiais reúnem os professores de todas as escolas; fazem videoconferências; e mandam orientações para a secretaria de ensino fazer capacitação com os professores. Discurso, né?! Fui na diretoria de ensino para saber como isso era aplicado e aí a história já mudou um pouco: eles disseram que, de vez em quando, faz algum curso. Mas quando eu cheguei na escola, os professores e coordenadores afirmaram que não têm orientação nenhuma, que chegam os pacotes e mandam eles trabalharem o material. Cada professor vai lidar com esse material da forma que conseguir.

E a questão é que esses professores também não tiveram acesso à Educação Ambiental durante sua formação. Qual era a percepção deles sobre o meio ambiente, além de dizerem que era importante?
Eu percebi que eles têm uma visão um pouco antropocêntrica, ou seja, colocando o homem como dono da natureza. Uma hora ele (o homem) é o vilão, outra hora ele é o coitadinho. Não há uma visão mais crítica que aborde os efeitos históricos, sociais. Eles não conseguem se inserir neste meio ambiente, perceber que fazem parte dele. E o que consta nos documentos é que a gente tem que colocar na escola uma educação ambiental crítica, que discuta o homem inclusive.
"O que faria uma grande diferença é melhorar essa comunicação entre quem elabora as políticas públicas, os materiais, e as escolas" 
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E a percepção dos alunos? Qual é?
Essa é uma questão que eu gostaria de ter incluído no meu trabalho, mas não consegui chegar até este foco. O que eu tenho dos alunos é os que os professores me falaram e uma ou outra conversa informal. Eu percebi que eles gostam de falar sobre o meio ambiente e se interessam pelo assunto. Mas os professores têm que procurar atividades do dia a dia que faz sentido para eles. Em uma escola, eles saíam com os alunos e viam os problemas de lixo, água contaminada, de moradores de rua. Isso tudo virava temas geradores. Era muito interessante. E isso tornava as famílias mais engajadas e a comunidade mais unida.

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Estudantes criaram brinquedos com materiais recicláveis/Foto: Arquivo Pessoal

Infelizmente, pelo que eu sei, iniciativas como essa ainda são isoladas. Como abranger um maior número de escolas? Como mudar este panorama?
Parte muito da vontade, nem tanto de dinheiro. Depende muito da iniciativa das escolas. O que faria uma grande diferença é melhorar essa comunicação entre as escolas e quem elabora as políticas públicas e os materiais. Porque parece que é jogado em uma caixinha lá de cima. Os professores não foram consultados para a elaboração desses materiais, além de não ter orientação sobre o seu uso.
Outra coisa é que a equipe administrativa junto aos professores e alunos, poderia fazer a sondagem dos problemas do bairro. As necessidades e interesses da comunidade escolar poderiam servir de base para elaborar o projeto político-pedagógico. Se essas coisas tiverem no documento inicial, os professores vão conseguir trabalhar no dia a dia, enfrentar os desafios, e partir para a ação.

E qual é o impacto do ensino de educação ambiental nas escolas?
Apesar dos professores acharem importante (ensinar a educação ambiental), eles relataram dificuldades, uma vez que a realidade dos alunos dessas escolas é muito difícil. As famílias têm problemas com a realidade sócio-econômica, desemprego, alcoolismo, violência, falta de condições básicas e vida. Tudo isso levam elas a priorizarem as necessidades imediatas ao invés do meio ambiente. No entanto, quando se faz educação ambiental de verdade essas reflexões ultrapassam os muros da escola e formam cidadãos mais críticos e conscientes do seu papel na sociedade. Se existisse uma abordagem que mostre que não é cuidar só da água, do lixo, mas das relações entre os indivíduos, a vida destas pessoas poderia melhorar. Para muitas dessas crianças, a escola é o único contato com uma cultura. O que a gente faz na escola contamina a comunidade e afeta todos.


Fonte: Raíza Tourinho - Portal EcoD - www.ecod.org.br


Veja vídeo com entrevista Univesp TV

07/07/2012

TRANSPORTE
Gás carbônico ou metano?
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Rafael conduz com sua guiada carro de boi número 157 no Desfile dos Carreiros no Carreiródromo em Trindade

Antes da popularização do automóvel e por décadas os carros de boi foram muito utilizados pelos romeiros que visitavam Barro Preto, atualmente Trindade, até que foram proibidos por lei em 1960 "por estragar o calçamento das ruas e em nome do progresso". Mas não adiantou e a proibição fortaleceu a tradição e, em 2012, mais de 300 carros de boi estiveram em Trindade participando de desfile que ajudou a apaziguar o conflito entre prefeitura e carreiros há pouco mais de 30 anos. Em 2012 também mais de 2,5 milhões de pessoas, mais de 3000 bois e outros milhares de cavalos... passaram por Trindade durante a Romaria do Divino Pai Eterno. Momento de fé, tradição e também ímpar para comparar o meio de transporte para cargas e passageiros utilizado desde o descobrimento do Brasil com os atuais. Com mais de 7 bilhões de pessoas no mundo conseguiríamos viver somente com o transporte em carros de boi emissores de metano, sem utilizar automóveis emissores de gás carbônico? Faça sua reflexão conhecendo abaixo a vida dos carreiros que visitam todos os anos o Santuário do Divino Pai Eterno em Trindade,cidade a 18 quilômetros de Goiânia, em Goiás, no Brasil
Paisagem ao longo da estrada que pode ser observada pelos carreiros e outros peregrinos entre Goianira e Trindade durante viagem mostra algumas árvores de cerrado como o ipê amarelo, matas de galeria, pastos para o gado e lavouras

"A caminhada para o santuário e a manifestação num Deus trino e na Virgem
Maria estão vinculadas à tradição e à população rural pela compreensão do mundo ou da natureza que envolve o homem. O romeiro não está preocupado com o significado teológico racionalizado conforme o modelo romano. A sua compreensão do sagrado acontece de outras formas a partir da sua cultura e valores rurais. O carreiro na sua labuta diária associa a presença da divindade à natureza, ao seu trabalho e às ferramentas que utiliza. A fé do romeiro sertanejo liga-se à sua existência. Quando faz promessa ou reza para o santo chama-o de Divino Pai Eterno. O que mais importa para o homem simples é a recompensa segundo as suas necessidades" (Trecho de tese de mestrado Os Carreiros e a reprodução social da traição, de João Otávio Martins - PUC-GO 2001)
Carros de boi levantam poeira na estrada. Entre Goianira e Trindade são aproximadamente 20 quilômetros percorridos em estrada de terra com muita poeira no mês de junho. Por essa estrada passam muitos carros de boi vindos principalmente de Damolândia, Inhumas e Nova Veneza. Uma viagem sem pressa, no ritmo de um século atrás
Luiz que caminha de pés no chão na estrada de terra vermelha e fofa também é outro carreiro mirim e com a formação de novos condutores dos carros de boi a tradição vai passando de pai para filho, de avô para neto...
Missa dos carreiros na Basílica do Divino Pai Eterno em Trindade. Cada carreiro com sua guiada, vara de ferrão, na mão

"A peculiariedade do santuário de Trindade se fundamenta na realidade de
um povo abandonado no sertão de Goiás no final do século XIX. A Revolução Industrial estava em fase de expansão na Europa e não havia se implantado na América Latina. A Região Centro Oeste estava ainda atrasada em seu desenvolvimento em todas as dimensões. Embora rica em terras férteis, madeira, ouro e pedras preciosas etc. não havia estradas para o escoamento da produção. O único meio de transporte era o trem de ferro que vinha de São Paulo até Uberaba (MG)." (Trecho de tese de mestrado Os Carreiros e a reprodução social da traição, de João Otávio Martins - PUC-GO 2001)
Imagem do Divino Pai Eterno na Basílica de Trindade. A devoção ao Divino Pai Eterno em Trindade completa 172 anos em 2012. Por volta de 1840 o casal Constantino e Ana Rosa Xavier encontrou enquanto trabalhavam na lavoura um medalhão de barro de aproximadamente 8 cm com a estampa da Santíssima Trindade coroando Nossa Senhora. A notícia de milagres se espalhou e assim começou a festa de Trindade com mais e mais romeiros surgindo a cada ano. Estima-se que em 2012 passaram por Trindade cerca de 2,6 milhões de pessoas durante os dez dias de romaria.
Milhares de pessoas na Missa dos Carreiros no penúltimo dia da Festa de Trindade, sábado
Basílica de Trindade é a maior atualmente. Mas nova e mais ampla igreja será construída. Em 2012 uma capela ficou pronta ao lado do local da obra
As crianças de Piracanjuba no carro de boi entrando no Carreiródromo de Trindade: continuidade
Portal na entrada de Trindade a partir da GO-060 com grupo de ciclistas que saem de Goiânia para um percurso de pelo menos 18 quilômetros na Rodovia dos Romeiros: sem emissão de gás carbônico ou metano, de combustíveis fósseis
"A preparação da bagagem é um trabalho masculino e não deve ser feito de qualquer maneira, existe uma ordem a ser seguida para acomodá-la no carro. Colchões, cobertores e malas de roupas são as primeiras coisas a serem colocadas dentro do carro de boi, trata-se de uma forma de proteger tais coisas da grande quantidade de poeira comum nas estradas goianas nessa época do ano. Uma das últimas coisas a ser colocada dentro do carro de boi é a chamada “caixa”. Feita de madeira é nela que se guardam muitos dos utensílios da cozinha. A lona usada para fazer a barraca dos acampamentos que pontuarão a viagem também é algo que deve ser colocado por último. Essa ordenação para colocar a bagagem dentro do carro de boi obedece a um critério que leva em conta o que será utilizado primeiro para montar o acampamento, por exemplo, quando se chega ao local do acampamento a primeira coisa a ser feita é montar a barraca e logo em seguida improvisar a cozinha. Daí a necessidade de a lona da barraca e da “caixa” com os utensílios da cozinha serem as últimas coisas colocadas dentro do carro de boi, pois serão as primeiras a serem retiradas" (Trecho de tese de mestrado de Valéria Leite de Aquino - UFRJ)
Roda do carro de boi repleta de cravos de metal. Se estragar durante a viagem é consertada na estrada mesmo
Quadro exposto na Sala dos Milagres mostra carro de boi na antiga Barro Preto transportando madeira e passando pela antiga igreja que existe até hoje
Mulher caminha ao lado do carro de boi em uma viagem de 80 quilômetros por estradas de terra ou de asfalto mantendo tradição que passa de pai para filho há décadas
Esselmes Rodrigues de Nova Veneza para sua mula em frente a entrada do Carreiródromo e pede várias vezes para o seu cão subir na mula para fazer o desfile. Mesmo acostumado o cão não atende até que decide subir. "Ele está cansado", justificou Esselmes
Pouso no Arrozalino, cerca de 9 quilômetros para chegar a Trindade. No local muitas famílias passam a última noite antes de chegar a Trindade. Durante a noite muitos querem descansar para seguir viagem logo cedo no dia seguinte. Mas muitos jovens aproveitam tambem para se divertirem com carros adaptados com potentes caixas de som. Ouvem música, dançam, bebem
Quadro com pintura mostra momento de ataque de onça. O devoto pediu ao Pai Eterno para não morrer e a onça se afastou mas matou outra pessoa

"A 1 de fevereiro de 1914, homens de Goiabeiras (Inhumas) foram caçar uma onça que lhes tinha dado grande prejuízo. Jerônimo Martins Borges deu um tiro nela mas não a matou. a onça, furiosa, lançou-se sôbre o perseguidor.  Jerônimo ficou debaixo da fera que o maltratou horrivelmente. Neste perigo gritou: Divino Padre Eterno, valhei-me," prometendo ao mesmo tempo o melhor de seus bois, no caso de ser salvo. No mesmo instante, largou a onça sua vítima. Lançou-se sobre um outro companheiro Teófilo que ficou morto no lugar. Jerônimo sarou e veio cumprir sua promessa e rende graças ao Divino Padre Eterno. (Trecho que faz parte da pintura exposta na Sala dos Milagres no Santuário em Trindade)
Ainda na estrada carreiros já avistam a cidade de Trindade depois de percorrerem mais de 70 quilômetros
Couro de onça exposto na Sala dos Milagres: ...
"Logo no primeiro dia de peregrinação descobri duas regras básicas para peregrinar com os carreiros. A primeira é nunca recusar comida quando te oferecerem, a segunda é nunca fazer o caminho contrário da peregrinação, afinal de contas “pra frente é que se anda”. "Durante os dias de peregrinação, é comum encontrar pessoas pelo caminho que distribuem alimentos, geralmente pães, refrigerantes, biscoitos e água; ou quando se passa pelos dois municípios que estão na trajetória da peregrinação, é comum encontrar recepções com alimentos à espera dos romeiros. Foi em uma dessas recepções, quando manifestei meu pouco apetite, recusando a comida que me ofereciam, que Tânia me repreendeu dizendo ser uma falta de consideração recusar a comida e que mesmo sem fome eu devia comer, já que várias pessoas haviam se ocupado na preparação daqueles quitutes e não comer deles seria uma grande desfeita" (Trecho de tese de mestrado de Valéria Leite de Aquino - UFRJ)
Detalhe do couro de onça na Sala dos Milagres em Trindade
Presença de jovens que mantêm a tradição de ir a Trindade em carros de boi, carroças, a pé ou a cavalo
Na foto, ao lado do experiente carreiro de Damolândia Joaquim Oliveira ou, como ele mesmo lembra, mais conhecido como Periquito da Venda do Barato. Até tentei fazer um vídeo com ele mas não aceitou. Disse que tinha outros no grupo que poderia falar melhor. Não insisti, respeitei mas pedi uma foto. Os bois são tão mansos que pude até pegar nos chifres
Carro de boi na frente conduzido normalmente por alguém do sexo masculino e atrás as carroças com as mulheres e crianças que não seguem a pé
Cena de acidente em quadro exposto na Sala dos Milagres

"Assim como os primitivos atribuíam à natureza um presente dos deuses, sem colocar em risco a vida vegetal, mineral e animal os carreiros não duvidam de que o santuário do Divino Pai Eterno, em Trindade é um lugar especial que acolhe os peregrinos preservando-lhes dos sinais de morte e renovando-lhes a fé e a esperança de uma vida melhor. Naturalmente, para as sociedades primitivas a natureza era sagrada porque dela sobreviviam e dependiam para a continuidade" (Trecho de tese de mestrado Os Carreiros e a reprodução social da traição, de João Otávio Martins - PUC-GO 2001)
Conduzindo o carro de boi com a guiada no ombro vai o candeeiro pela estrada de terra que agride menos os cascos dos animais. Mas e com o dito progresso se todas as estradas dos carreiros forem asfaltadas os bois vão conseguir percorrer 80 quilômetros no asfalto? Assim o progresso ameaça a tradição que durante décadas é passada de pai para filho, para neto e bisneto

"Os carreiros, por pertencerem a uma tradição e viverem, ainda na área rural,
conseguem reproduzir os costumes do passado, mas carregam influências da
modernidade. A luz elétrica, a televisão, a ideologia capitalista do lucro e da
necessidade de consumo, enfim, a virtualidade pouco a pouco vai ocupando espaço na área rural Numa visão mágica, etnocêntrica, o homem do campo, o carreiro,faz questão de preparar o carro de boi, com originalidade: o couro bem curtido, a madeira mais resistente de acordo com as exigências do peso a ser carregado, geralmente de aroeira para as peças centrais e de jacarandá para as cangas. O tirante que liga uma canga a outra deve ser de couro novo e curtido. Não pode faltar o chapéu e a botina de couro para resistirem ao sol quente e as estradas roceiras." (Trecho de tese de mestrado Os Carreiros e a reprodução social da traição, de João Otávio Martins - PUC-GO 2001)
Quadro exposto na Sala de Milagres da Basílica de Trindade mostra acidente por volta de 1938 com graça alcançada. Dentro do carro de boi alguém se machucou
No pouso as mulheres logo colocam a panela no fogo com a carne seca e vão para o banho enquanto os homens vão descangar os bois no pasto

"Enquanto as mulheres tomam banho, os homens montam as barracas. Cada família monta a sua, e à medida que as mulheres retornam do banho e organizam precariamente as malas e colchões dentro da barraca, já se inicia a preparação da “janta”. Essa é uma tarefa exclusivamente feminina, que pode ser feita ocasionalmente em conjunto com outras famílias, elementares ou amplas, mas em geral cada grupo familiar amplo se responsabiliza pela preparação de sua própria comida. (Trecho de tese de mestrado de Valéria Leite de Aquino - UFRJ

"João da Silva, de São José de Mossâmedes, depõe sobre a demora da
viagem quando ia ao santuário com seu carro de boi. Ressalta a importância
do automóvel que gasta apenas duas horas em comparação com cinco dias e cinco noites no carro de boi. O mesmo vai ao santuário porque o Divino Pai Eterno atende os seus pedidos. Ao mesmo tempo faz a sua observação sobre os romeiros em geral: “Prá mim alguns vão pra cumprir promessas, outros pra mostrar seus carros bem traiados. Mas, pra quem vai de automóvel ou carro de boi é a mesma coisa. O que importa prá o Divino Pai Eterno é a fé.” (Trecho de tese de mestrado Os Carreiros e a reprodução social da traição, de João Otávio Martins - PUC-GO 2001)
Ronaldo, Joziane e sua irmã no pouso Arrozalino. O casal conduz o carro de boi enquanto a irmã vai dirigindo o automóvel. Eles contam a experiência que vivem a cada ano em vídeos no final desta publicação
Cláudia da Fazenda Córrego do Cavalo já participa da romaria há 26 anos acompanhando os pais. Na família a romaria dos carreiros começou com os avós. "Meu avô começou e meu pai continuou"
No meio do pasto no pouso foi montado uma das barracas. De um lado e do outro carros de boi e por cima uma lona. Todos da família dorme embaixo da cobertura mas em locais definidos mas normalmente separando rapazes solteiros de moças solteiras
A presença de meninas como candeeiras conduzindo o carro de boi pelas estradas do interior de Goiás rumo a Trindade
A tradição continua com a presença de jovens
Carros de boi seguindo pelas estradas de terra ao lado de lavouras
Montagem de acampamento no pouso utilizando bambus e lona plástica. As funções são bem definidas e essa é a parte dos homens. Enquanto isso as mulheres vão tomar banho para logo em seguida prepararem o jantar. Eles seguem viagem logo cedo para chegar aos pousos antes das 16 horas, tempo suficiente para montar o acampamento, tomar banho e fazer a comida já que depois das 18 horas o sol vai se por e no escuro fica tudo mais difícil
Cada boi tem o seu lugar. Na frente os bois vão com a canga no pescoço para não se separarem
O carreiro de Damolândia Joaquim Oliveira "segurando" o carro de boi por alguns instantes. Mesmo com bois mansos, o que pude comprovar segurando no chifre deles, os chifres estão amarrados um ao outro 
Os bois preferem estradas de terra onde desgastam menos os cascos em viagens longas
Carro de boi anão. Há anos que romeiros desfilam com búfalos, porcos, cabritos e até pequenos carros de boi adaptados para cães - diversificação
Pintura na Sala dos Milagres mostra acidente com carro de bois. A vítima recebeu a graça ao fazer promessa ao Divino Pai Eterno
Azeite para lubrificar o eixo do carro de boi Pode usar também banha de porco e outros tipos de lubrificantes mas só não pode ficar sem lubrificar porque o carro para de canta. O chiado ou cantiga de cada carro de boi é produzida pelo atrito do cocão sobre o eixo
Tradição de décadas mas com tecnologia no presente também. No meio da estrada o sinal de celular permite principalmente aos jovens comunicarem-se com outros jovens ou parentes que ficaram nas cidades. Já no passado as notícias da viagem só seriam transmitidas na volta dos carreiros às cidades de origem
As mulheres podem ir a frente dos carros, ao lado ou dentro quando já estão cansadas. O pai tem guiada e os filhos e netos também têm as suas
A tradição e a modernidade movida pela fé
Foto exposta na Sala dos Milagres na Basílica do Divino Pai Eterno em Trindade mostra homem com pernas presas embaixo de tronco de árvore que caiu do carro de boi
Joziane desempenha a função de candeeira, na frente dos bois com a vara chamada de guiada. Ao lado Ronaldo com sua vara de guiada também é o carreiro que fica o tempo todo atento para que os bois não saiam da estrada
Na estrada de terra nem se percebem as fezes dos bois, cavalos, mulas. A poeira ia logo cobrindo tudo. Mas logo que entraram em Trindade o asfalto ia sendo premiado. Do ponto de vista de meio ambiente, se automóveis emitem gás carbônico, o boi com suas fezes, seus puns e arrotos emite gás metano uai. Mas e as fezes desses animais não são também adubo orgânicos? Então vão se decompor naturalmente...
Romaria com carros de boi acontece todos os anos e eles fazem suas viagens da cidade de origem para estar em Trindade entre 22 de junho e 1º de julho
Dentro do carro de boi vão os mantimentos, bagagens e quem não consegue ou não quer seguir a pé
Entre carros de boi, carroças e cavaleiros vêm os carros adaptados com motor. Na foto bem atrás um deles vem lotados de bagagens, barracas, comida e bebidas consumidas durante a viagem e os dias de festa
O galo vai comportadamente em cima do couro do carro de boi durante desfile no Carreiródromo
No final da estrada de terra entre Goianira e Trindade surge finalmente o asfalto que vai sendo marcado pelas rodas dos carros de boi
"O último dia de peregrinação dos carreiros de Damolândia parecia exigir um pouco mais de vaidade, principalmente entre as mulheres. A proximidade de Trindade prescrevia um maior cuidado com a aparência, vale lembrar que o segundo e último acampamento se localiza a poucos quilômetros dela, ninguém queria chegar à cidade mal arrumado, e principalmente com as roupas demasiadamente sujas. Como o excesso de poeira nas estradas não isenta ninguém da sujeira, muito menos aqueles que vão caminhando, para evitar a utilização de roupas de forma desnecessária, já que se sabe que estarão sujas nas primeiras horas de caminhada, é comum, entre homens e mulheres, usarem a mesma calça durante os dois primeiros dias de peregrinação. Mas no último dia ninguém quer chegar em Trindade vestindo uma roupa já usada, por isso praticamente todos fazem questão de colocar uma “troca” de roupas limpas" (Trecho de tese de mestrado de Valéria Leite de Aquino - UFRJ)

"A peregrinação ao santuário do Divino Pai Eterno remete-se a uma reflexão
em curso de que o espaço sagrado extrapola-se às doutrinas religiosas do passado, que distanciaram-se da humanidade. O sagrado e o profano se misturam em constante trabalho para o reencontro do homem com a natureza. As estruturas são transformadas pelo novo que chega, porém são mantidas pelos valores essenciais à vida e à continuidade de sociedades e culturas." (Trecho de tese de mestrado Os Carreiros e a reprodução social da traição, de João Otávio Martins - PUC-GO 2001)
Bem lubrificado cada carro de boi emite um som único, faz um barulho, um zunido como se estivesse chorando pelas estradas de Goiás rumo a Trindade. O barulho chama a atenção de todos por ondem passam mas encantam de uma forma especial as crianças
Em cada pouso ou parada nas cidades percorridas pelos romeiros os jovens aproveitam para ouvir músicas, tomar uma cervejinha, conversarem. Muitos carros que levam bagagens e mantimentos são adaptados com equipamentos de som, motor de fusca por exemplo, suspensão reforçada para resistir a viagem mas sem lataria, apenas com capota de lona aberta lembrando as utilizadas nas charretes
Quadro de 1958 exposto na Sala de Milagres da Basílica de Trindade mostra acidente com carros de boi com uma vítima
Na estrada de terra nem se percebe a urina dos bois. No asfalto já é diferente. Impermeabilização das cidades impede que a água penetre no solo como deveria ser. O boi também compacta o solo nas fazendas dificultando a penetração das águas. Pior então com o asfalto nas cidades que força toda a água a seguir para os rios sem infiltrar no solo local
Chegada a Trindade
Muitos membros de uma mesma família e muitas famílias na estrada por 12, 13 dias ou mais - ida e volta normalmente a pé acompanhando os carros de boi
Carros de boi passando pelas cidades rumo a Trindade
Um encontro interessante entre o passado e o presente. Carro de boi de Nova Veneza atravessa a GO-060 e uma carreta carregada segue rumo a Goiânia. Quanta diferença na quantidade de carga transportada...
Depois que algumas dezenas de carros de boi passaram ficaram as "picadas" no asfalto produzidas pelas rodas com cheias de cravos de metal. E isso já foi polêmico no passado. Leis foram criadas para impedir o trânsito de carros de bois com a justificativa de que eles estragavam o asfalto e em "nome do progresso"

José Antônio do Carmo de Nova Veneza com mais de 50 aos de romaria conserta o canzil que quebrou logo que o carro de boi atravessou a BR-060 já em Trindade e depois de percorrer cerca de 80 quilômetros. "Tenho foto nos braços de minha mãe aqui em Trindade quando eu tinha com seis meses de idade. Somos todos de uma família. Tenho fé no Pai Eterno e não podemos deixar acabar essa romaria não"
"Não são raros os momentos em que os grupos de carreiros passam por algum contratempo, obrigando-os a interromper a caminhada por alguns minutos. Quando se trata de algum imprevisto que o próprio grupo não consegue resolver, convém pedir auxílio a um outro grupo de carreiros. No entanto, quando esses imprevistos acontecem, o pedido ou a oferta de auxílio está sempre relacionada ao grupo que segue atrás, e nunca ao que está na frente, este, por sua vez, prossegue viagem. Em algumas situações, quando percebíamos que o grupo que vinha atrás do nosso havia parado, indicando algum contratempo, falavam-se coisas do tipo “fulano vem logo atrás, ele ajuda”, demonstrando que não se espera prestar ajuda ao grupo de trás, ou recebê-la do grupo da frente, não se ajuda aquele de quem se recebe ajuda" (Trecho de tese de mestrado de Valéria Leite de Aquino - UFRJ)
Carro de boi em Trindade: com a proibição virou tradição que se mantem viva em Goiás

"Imbuídos de um imaginário construído sob os ideais do progresso, os homens públicos queriam livrar-se, na medida do possível, de tudo aquilo que lembrasse a presença do que consideravam atraso, e as retaliações aos carreiros acabaram gerando uma decadência dos carros de bois. Algo que se refletiu, durante algum tempo, até mesmo nas romarias carreiras que se dirigiam à Trindade." "Muitos carreiros que se dirigem à Trindade se lembram claramente dessas retaliações. Foi inclusive, como foi visto, a partir de um conflito entre os romeiros carreiros e a prefeitura de Trindade, no final da década de 1980, que se originou o Desfile dos Carreiros, evento que trás os carreiros como grupo de destaque" (Trecho de tese de mestrado de Valéria Leite de Aquino - UFRJ)
Maria Verônica de 6 anos vai dentro do Carro de boi com a família de Nova Veneza. Ao lado, de azul, Irani Maria de Paula que observa Maria Verônica e diz: "Meu pai tem 70 anos que faz essa romaria com carro de boi e se Deus quiser a Maria Verônica vai continuar. O que move é a fé no Divino Pai Eterno e Nossa Senhora do Carmo"
A cabaça que o homem do campo leva para a roça cheia de água e amarrada no carro de boi
Desfile no Carreidrómo é um dos momentos principais
Circo Zanchettini desfilou também no Carreiródromo de Trindade. Nesse momento o carro estava sendo empurrado porque a vela do motor de caravan esquentou muito e nada de o carro "pegar". Mas a festa dos artistas continuou a mesma. Logo após o carro "pegou na partida" e deu tudo certo. "É igual ao táxi maluco. Daqui a pouco ele pega", explicou com confiança a matriarca do grupo - o que ocorreu mesmo
Público no Carreiródromo de Trindade. Milhares de pessoas passam todo o dia vendo cerca de 400 carros de bois desfilarem. A cada ano o desfile ganha maiores proporções
A imagem do Divino Pai Eterno nas mãos da matriarca da família Zanchettini
Meu pé, meu tenis na poeira da estrada para acompanhar o percurso de cerca de 20 quilômetros em estrada de terra entre Goianira e o pouso antes de chegar a Trindade. Não foi fácil tirar depois toda essa poeira da roupa...  A meia branca então... rs
Adriane e Sidney Filho de Itauçu acompanham carro de boi de João Francisco Carvalhaes no Carreiródromo de Trindade
Os carreiros se sentem em casa com a poeira. Ela faz parte da romaria há décadas e diferencia os carreiros de outros peregrinos que vão a Trindade durante a festa no final de junho. E muitos vão até a igreja para a primeira visita com a roupa com poeira da estrada. A poeira é o que justamente mostra que são carreiros
E as adolescentes fazem até festa com tanta poeira. Vi esse grupo sentado no chão de terra vermelha na beira da estrada aguardando carros de boi. Depois seguiram o carro sorrindo com poeira não só na roupa, no corpo mas também no rosto mas sorrindo sempre
Na Sala dos Milagres da Basílica de Trindade um grande couro de sucuri
A tradição diz que carreiros vão durante vários dias guiando seus bois que puxam o carro de boi pelas estradas, pousando em vários lugares. Mas fora da tradição a festa já recebe carreiros que trazem seus carros de bois somente para desfilar. Ao terminar o desfile colocam seus bois em caminhão gaiola e os carros de boi em caminhão de carroceria e vão embora

"O sr Tota, líder dos carreiros-romeiros de Mossâmedes, reclamou:“Existem carreiros que não se ajuntam com o grupo mais tradicional. São diferentes e levam as coisas de camioneta. Nossos carreiros não estão de acordo e lamentam por eles terem perdido a tradição dos seus pais e avós.” "No entanto confirmamos através dele que o número de carros de bois na romaria cresceu nas últimas décadas. “ Em 1940 iniciamos com apenas 4
carros. Hoje são mais de 40.” (Trecho de tese de mestrado Os Carreiros e a reprodução social da traição, de João Otávio Martins - PUC-GO 2001)



Grupo Sócio Cultural de Aparecida de Goiânia desfilou com bigas romanas puxadas por cavalos. Eles participam de eventos e fazem também corridas de cavalos e provas de laços. Um colorido especial ao evento dos carros de bois
Depois de três dias na estrada seguindo para Trindade por estradas principalmente sem asfalto e outros sete dias em trindade durante a festa do Divino Pai Eterno é hora de voltar para casa pelo mesmo percurso e pousando nos mesmos lugares. São então pelo menos 13 dias fora de casa


Vídeos:


























Música O Vai e vem do carreiro
Autor: José Fortuna , Carlos César 

Carreiro vai, Carreiro vem
Beirando matas, cordilheiras,
Campos e espigões
Na estrada azul dos matagais
Lhe acompanham passarinhos
Vindos dos sertões
No peito seu, eu sei que tem
Seis bois puxando o carro
Triste do seu coração
É a saudade emparelhada
Com a lembrança
O amor e a esperança
Desespero e solidão
[Refrão]
Carreiro vai, carreiro vem,
Rodando só pelo sertão
Cantando assim
Carreiro vai, Carreiro vem,
Na sua estrada de paixão
Que não tem fim
Carreiro vai, Carreiro vem,
Para bem longe do filhinho
Que ficou no lar
Bem cedo sai e a tarde vem
Deitar nos braços de Chiquinha
Sempre a lhe esperar
Solta seus bois lá no curral
Quando no morro surge
O claro raio de luar
Pega na viola pra cantar sua poesia
Quando fora a brisa fria
Vem com ele duetar
No vai e vem que o mundo dá
Vai o seu rastro rabiscando pedras e areiões
Dois riscos só deixa no pó
E o orvalho tremulando sobre mil botões
Igual o sol passa por nós
E a tarde deita no poente para repousar
Solta a boiada de estrelas cintilantes
Ruminando lá distante
Pelos campos do luar


Ouça a música: http://www.radio.uol.com.br/#/letras-e-musicas/sergio-reis/o-vai-e-vem-do-carreiro/611264

Link para fontes consultadas:
  
Dissertação de mestrado Os Carreiros e a reprodução social da traição, de JoãoOtávio Martins - PUC-GO 2001

 
Tese de mestrado de Valéria Leite Aquino - UFRJ)