15/01/2013

A produção de energia e 
a má distribuição das chuvas

Pôr-do-sol com chuvas em Goiânia captada hoje por http://www.facebook.com/ary.soaresdossantos

Prof. Dr. Valter Machado da Fonseca *

O temor do racionamento de energia, como acontece em quase todos os anos, é um dos assuntos preferidos pela mídia neste início de 2013. Isto acontece, em primeiro lugar, porque o Brasil é altamente dependente da energia hidrelétrica, ou seja, da energia gerada a partir do potencial hidrológico de nossos corpos d’água de superfície. Os rios brasileiros possuem grande potencial hidráulico para a geração de energia devido ao grande volume de águas que eles comportam. No território brasileiro estão localizadas as maiores bacias hidrográficas do mundo. Vale destacar a bacia hidrográfica amazônica (a maior do mundo), a bacia do Paraná, a bacia do São Francisco, do Rio grande, dentre outras. Podemos definir uma bacia hidrográfica como a área formada a partir do complexo hidrológico formado pelo rio principal e seus tributários (afluentes). Todo corpo d’água de superfície possui um bacia de drenagem e uma bacia de inundação.
E por que, mesmo apesar de às vezes acontecer grandes volumes de precipitações pluviométricas (chuvas), os reservatórios continuam com níveis abaixo do normal? Isto se deve a diversos fatores, como por exemplo: (a) chuvas muito rápidas e concentradas, geralmente são ineficientes para aumentar o volume dos rios e encherem os reservatórios. Pois, este tipo de precipitação pluviométrica escorre muito rapidamente pelo solo, não havendo prazo suficiente para a infiltração da água no solo, o que impede o aumento dos níveis dos lençóis freáticos que irão alimentar os corpos d’água. (b) as chuvas localizadas nas regiões intermediárias das bacias hidrográficas. Estas precipitações também são ineficientes, pois, não atingem as zonas de recarga dos corpos d’água e escorrem superficialmente não aumentando os níveis dos rios, córregos e ribeirões. Então, para que o volume de precipitações seja suficiente para elevar os níveis dos corpos d’água, elas têm que ocorrer nas regiões e locais corretos, isto é, elas têm que atingir as zonas de recarga dos mananciais: cabeceiras dos rios córregos e ribeirões, áreas rebaixadas das bacias de drenagem, áreas de recargas como os subsistemas de veredas, etc.
Então, muitas vezes volumes excessivos de chuvas não significam aumento dos volumes dos rios e dos níveis dos reservatórios das hidrelétricas. Além de ser essencial o volume correto de precipitações, faz-se necessário que ele ocorra nas regiões e locais de alimentação das zonas de recarga dos corpos d’água. Neste sentido, as precipitações têm que ser abundantes, frequentes e num ritmo gradual, permitindo a infiltração constante de água no solo, de maneira a manter o abastecimento do lençol freático.
Outros fatores que têm agravado o volume, ritmo, velocidade, frequência e localização correta das precipitações são os impactos antropogênicos sobre os sistemas aquático-terrestres. Ou seja, a ação desordenada do homem sobre as matas ciliares (muitas vezes removendo totalmente estas vegetações), os impactos sobre os rios e demais corpos d’água de superfície por intermédio de atividades de mineração de areias e cascalhos, provocando o assoreamento desses mananciais, a remoção das vegetações das cabeceiras dos rios, córregos, ribeirões e riachos e /ou remoção das vegetações das nascentes desses corpos d’água. Então, aliada aos fatores naturais que incidem sobre os tipos e volumes das precipitações, a ação antrópica desordenada do homem sobre os recursos hídricos e vegetações a eles associados têm provocado diminuições drásticas no volume, velocidade, ritmo, quantidade, localização e frequência destas precipitações.
Diante do exposto, torna-se preponderante que o homem tome ciência dos cuidados que deverão ser despendidos no trato com os recursos da natureza, pois, a água potável tem se transformado em recurso raro e, quem sabe, dentro de pouco tempo haveremos de pagar caro por nossa irresponsabilidade, por meio de um desequilíbrio letal no ecossistema terrestre, o que poderá provocar um desequilíbrio ambiental sem retorno, colocando em risco a continuidade de inúmeras espécies de seres vivos e dentre elas, o próprio ser humano.          


* Escritor. Geógrafo, Mestre e Doutor pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Pós-Doutorando pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).  Pesquisador e professor da Universidade de Uberaba (UNIUBE). machado04fonseca@gmail.com

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