01/04/2013

O Aedes aegypti e a Dengue: 
uma epidemia quase irreversível

Remanscentes da Mata Altântica em Goiás: "Desmatamentos desordenados acabaram com o hábitat natural do mosquito"
  
Prof. Dr. Valter Machado da Fonseca

Hoje pela manhã, ouvi por uma rádio local a chamada de uma campanha de combate à dengue. Confesso que fiquei aterrorizado e surpreso com a suposta frase de efeito utilizada pela locutora da referida emissora: “não seja responsável pela morte de outras pessoas”. Esta frase aparentemente ingênua e simples, na verdade tem um conteúdo que escamoteia a realidade e, ao mesmo tempo, tenta jogar a responsabilidade da epidemia da doença nas costas da população. Não quero dizer com isso que a população não deva fazer sua parte, muito pelo contrário, Porém, o que quero enfatizar é que o eixo, os motivos e as consequências desta doença não devem ser deslocados, ou seja, a verdade deve ser dita, doa a quem doer e a sociedade é a menos culpada por este estado de coisas.

Na verdade, o surgimento do (Aedes aegypti) vetor (transmissor da dengue) nos centros urbanos é fruto direto do desequilíbrio ambiental provocado pelas atividades humanas no campo, isto é, a intervenção antropogênica (humana) no espaço agrário brasileiro, sob a forma de atividades diversificadas como agropecuária, mineração, desmatamentos desordenados, dentre outros fatores, acabaram com o hábitat natural do mosquito, deslocando-o para os centros urbanos. Ele vivia naturalmente nas matas e, ao removermos a vegetação, quebramos seu hábitat, e, consequentemente suas fontes de alimentos e sobrevivência. Ao quebrarmos seu hábitat natural, ele veio para as cidades em busca de novas fontes de sobrevivência. Na verdade, o homem já perdeu o total controle sobre a proliferação do Aedes aegypti. A dengue já se tornou uma moléstia epidêmica em diversas áreas e regiões do país. Então, podemos dizer que a dengue é fruto do desequilibro ambiental provocado pela ação humana no espaço agrário (no campo).

No caso das regiões produtoras de alimentos de exportação (monoculturas), como é ocaso da mesorregião do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, o problema da contaminação pelo mosquito se torna mais grave. A prática das monoculturas (soja, cana-de-açúcar, dentre outros produtos) demanda a remoção das vegetações. Ao removê-las, substituí-las por espécies de monocultura, na verdade, está se promovendo uma homogeneização das espécies vegetais, o que irá promover o desequilíbrio biológico entre as espécies, criando, assim, condições propícias para o surgimento de pragas e de espécies de insetos resistentes às próprias pragas, em decorrência da eliminação de competidores. Ou seja, estaremos, na prática, criando as condições para que uma espécie seja hegemônica em uma determinada área ou região, em função do desequilíbrio da biodiversidade regional, com a eliminação de espécies competidoras potenciais.

As ações criadas pelo poder público para o combate à epidemia como o lançamento de fumaça inseticida (fumacê) surtiu algum efeito apenas no início do processo. Tal prática acabou propiciando a seleção de mosquitos mais resistentes ao inseticida, os quais iniciaram um novo ciclo de vida de vetores selecionados e mais resistentes. Então, infelizmente, o combate ao vetor (Aedes aegypti) tem se tornado, cada dia mais complicado. O combate às fontes de incubação do inseto (águas paradas) já está se tornando ineficaz, em função das novas características da subespécie de inseto que se torna mais resistente. Então, a solução real para o problema do controle do Aedes aegypti e, consequentemente da dengue, pode estar muito mais relacionado com as formas de minimizar o desequilíbrio ambiental no campo do que com o combate aos próprios criadouros urbanos (fontes de água parada). Nas reais condições de desequilíbrio ambiental provocado pelo próprio ser humano, o pequenino Aedes aegypti tem se tornado um gigante diante do todo poderoso homo sapiens, que tem se tornado ínfimo e irrisório diante deste frágil e delicado inseto
 

Escritor. Geógrafo, Mestre e Doutor pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Pós-Doutorando pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Pesquisador e professor da Universidade de Uberaba (UNIUBE).
machado04fonseca@gmail.com

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