26/04/2013


A da torneira talvez seja mais limpa

Pesquisadores de Araraquara avaliaram a qualidade de três “modelosde água mineral e detectaram níveis preocupantes de contaminação em galões de 20 litros antes do vencimento do prazo de validade

André Julião/Unesp Ciência

NUNCA SE VENDEU TANTA ÁGUA MINERAL NO MUNDO, o que em parte é resultado de uma bem–sucedida promoção do produto engarrafado como  alternativa mais limpa, mais pura e mais segura àquela que nos chega pelas torneiras. Mas um estudo feito por pesquisadores da Unesp e publicado na revista Food Control sugere que não é bem assim e, em alguns casos, pode ser o contrário. Em várias amostras analisadas foram encontrados níveis preocupantes de bactérias antes do vencimento do prazo de validade indicado no rótulo das garrafas. Em alguns casos, isso ocorreu já nos primeiros dias após o envase.

Realizado pela pós-doutoranda Maria Fernanda Falcone Dias na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp em Araraquara, o trabalho suscita questões sobre a legislação para a água mineral brasileira. “Nosso objetivo é gerar dados para ajudar a melhorar a qualidade do produto que chega aos consumidores”, afirma o professor Adalberto Farache Filho, também de Araraquara e coautor do estudo.

Proveniente de fontes naturais, a água mineral não passa por nenhum tipo de tratamento. Deve ser livre de contaminação na origem e preservar suas características originais, o que inclui a presença de diversos sais e de uma fauna microbiana considerada benéfica à saúde humana. Geralmente em posse da iniciativa privada, as fontes de água mineral devem ter sua qualidade certificada pelo Departamento Nacional de Pesquisa Mineral.

Já a água de abastecimento público (vulgarmanente conhecida como “torneiral”), além de passar por tratamento químico e físico, tem sua qualidade obrigatoriamente verificada por análises microbiológicas antes de ser distribuída nas cidades. A principal é chamada CHP, sigla para Contagem de [micro-organismos] Heteretróficos em Placa. Embora esse teste seja feito também na água engarrafada (antes do envase), a legislação só estabelece um valor máximo aceitável – de 500 UFC/ml (unidades formadoras de colônia por mililitro de água) – para o líquido que vai para as torneiras. “Esse é o padrão internacional, que é seguido pela Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária]”, explica Maria Fernanda. Mas já existe uma tendência mundial de adotar o mesmo limite máximo também para a água de garrafa, acrescenta ela.

Maria Fernanda analisou o conteúdo de garrafas de meio litro e de 1,5 litro em 11 ocasiões ao longo de um ano, que é o prazo recomendado para seu consumo. Já os garrafões de 20 litros passaram por cinco testes, realizados ao longo dos 60 dias de validade do produto. Ao todo foram 324 amostras de seis marcas (não relevadas pelos autores). Além da CHP, outras análises procuraram detectar a presença de coliformes fecais e totais e de bactérias como a Escherichia coli e a Pseudomonas aeruginosa, que podem causar diarreia e infecções, principalmente em crianças, gestantes e idosos.

Os resultados mostraram que, dos três tipos de garrafa d’água, o de 20 litros foi o que apresentou mais problemas de contaminação. Em dois terços dos 60 garrafões analisados foi encontrada contagem superior a 500 UFC/ml – às vezes chegando a incríveis 560.000 UFC/ml, mais de mil vezes acima do padrão aceitável para a água de abastecimento.

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Em dois desses galões foram detectadas ainda a bactéria P. aeruginosa e outras do chamado grupo dos enterococos. A primeira é um ser oportunista que pode agravar o estado de saúde de quem tem o sistema imunológico comprometido. As últimas  não são causa direta de doenças, mas costumam ser usadas como indicadores de contaminação por esgoto. Não é de hoje que os garrafões de água mineral apresentam problemas sanitários. Numa tentativa de evitar o problema, uma portaria de 2011 do DNPM determinou prazo de validade de três anos para os galões retornáveis de 10 e 20 litros. Segundo Farache, a contaminação geralmente decorre de falhas de higienização na indústria. “Não adianta reutilizar [o garrafão] por um prazo limitado se ele não for lavado a cada vez que é usado.”

Esse tipo de contaminação pode ocorrer ainda na fonte, mas é mais comum durante ou após o envase. O próprio ambiente, as embalagens e as tampas são potenciais moradas dessas bactérias. Os equipamentos usados no processo, bem como os reservatórios de armazenamento podem também abrigar populações de micro-organismos contaminantes, enumeram os pesquisadores.

Ao abrigo do sol
 
Outra possível fonte de contaminação (ainda que indireta) é a exposição ao sol. A radiação acelera a quebra de moléculas orgânicas presentes na água (em baixíssimas concentrações), que passam a ter o tamanho ideal para virar comida de bactérias. Com alimento disponível, elas se reproduzem e a população cresce. E então, quando morrem, servem de alimento para outras bactérias.


Esse ciclo de vida e morte é uma hipótese de trabalho. Em várias amostras, os pesquisadores observaram baixa concentração de micro-organismos nos primeiros dias após o envase, que por sua vez aumentou alguns dias depois, para em seguida voltar a ser baixa. “Por enquanto é apenas uma possibilidade, mas outros estudos feitos no exterior chegaram a resultados parecidos”, diz Maria Fernanda.

Farache alerta ainda para outro tipo  muito comum de contaminação dos garrafões de água mineral (que ficou fora do escopo do estudo). Ocorre no local de consumo, mas pode ser facilmente evitado. “É preciso fazer a higienização correta não só do galão como do suporte”, diz. Tanto um como o outro devem ser lavados com água sanitária, ou, pelo menos, com água clorada e sabão, a cada troca do recipiente, enfatiza o pesquisador.

Imagem/montagem: Shutterstock.
Fonte: http://www.unesp.br/aci_ses/revista_unespciencia/acervo/40/quem-diria

01/04/2013

O Aedes aegypti e a Dengue: 
uma epidemia quase irreversível

Remanscentes da Mata Altântica em Goiás: "Desmatamentos desordenados acabaram com o hábitat natural do mosquito"
  
Prof. Dr. Valter Machado da Fonseca

Hoje pela manhã, ouvi por uma rádio local a chamada de uma campanha de combate à dengue. Confesso que fiquei aterrorizado e surpreso com a suposta frase de efeito utilizada pela locutora da referida emissora: “não seja responsável pela morte de outras pessoas”. Esta frase aparentemente ingênua e simples, na verdade tem um conteúdo que escamoteia a realidade e, ao mesmo tempo, tenta jogar a responsabilidade da epidemia da doença nas costas da população. Não quero dizer com isso que a população não deva fazer sua parte, muito pelo contrário, Porém, o que quero enfatizar é que o eixo, os motivos e as consequências desta doença não devem ser deslocados, ou seja, a verdade deve ser dita, doa a quem doer e a sociedade é a menos culpada por este estado de coisas.

Na verdade, o surgimento do (Aedes aegypti) vetor (transmissor da dengue) nos centros urbanos é fruto direto do desequilíbrio ambiental provocado pelas atividades humanas no campo, isto é, a intervenção antropogênica (humana) no espaço agrário brasileiro, sob a forma de atividades diversificadas como agropecuária, mineração, desmatamentos desordenados, dentre outros fatores, acabaram com o hábitat natural do mosquito, deslocando-o para os centros urbanos. Ele vivia naturalmente nas matas e, ao removermos a vegetação, quebramos seu hábitat, e, consequentemente suas fontes de alimentos e sobrevivência. Ao quebrarmos seu hábitat natural, ele veio para as cidades em busca de novas fontes de sobrevivência. Na verdade, o homem já perdeu o total controle sobre a proliferação do Aedes aegypti. A dengue já se tornou uma moléstia epidêmica em diversas áreas e regiões do país. Então, podemos dizer que a dengue é fruto do desequilibro ambiental provocado pela ação humana no espaço agrário (no campo).

No caso das regiões produtoras de alimentos de exportação (monoculturas), como é ocaso da mesorregião do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, o problema da contaminação pelo mosquito se torna mais grave. A prática das monoculturas (soja, cana-de-açúcar, dentre outros produtos) demanda a remoção das vegetações. Ao removê-las, substituí-las por espécies de monocultura, na verdade, está se promovendo uma homogeneização das espécies vegetais, o que irá promover o desequilíbrio biológico entre as espécies, criando, assim, condições propícias para o surgimento de pragas e de espécies de insetos resistentes às próprias pragas, em decorrência da eliminação de competidores. Ou seja, estaremos, na prática, criando as condições para que uma espécie seja hegemônica em uma determinada área ou região, em função do desequilíbrio da biodiversidade regional, com a eliminação de espécies competidoras potenciais.

As ações criadas pelo poder público para o combate à epidemia como o lançamento de fumaça inseticida (fumacê) surtiu algum efeito apenas no início do processo. Tal prática acabou propiciando a seleção de mosquitos mais resistentes ao inseticida, os quais iniciaram um novo ciclo de vida de vetores selecionados e mais resistentes. Então, infelizmente, o combate ao vetor (Aedes aegypti) tem se tornado, cada dia mais complicado. O combate às fontes de incubação do inseto (águas paradas) já está se tornando ineficaz, em função das novas características da subespécie de inseto que se torna mais resistente. Então, a solução real para o problema do controle do Aedes aegypti e, consequentemente da dengue, pode estar muito mais relacionado com as formas de minimizar o desequilíbrio ambiental no campo do que com o combate aos próprios criadouros urbanos (fontes de água parada). Nas reais condições de desequilíbrio ambiental provocado pelo próprio ser humano, o pequenino Aedes aegypti tem se tornado um gigante diante do todo poderoso homo sapiens, que tem se tornado ínfimo e irrisório diante deste frágil e delicado inseto
 

Escritor. Geógrafo, Mestre e Doutor pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Pós-Doutorando pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Pesquisador e professor da Universidade de Uberaba (UNIUBE).
machado04fonseca@gmail.com