08/11/2008

ENTREVISTA MARTHA TRISTÃO
Professora doutora (ES) – UFES/RECEA

Educação ambiental:


“É preciso encontrar

a identidade local”

“Os professores participantes desse evento, com certeza voltam com novas possibilidades de inserção da educação ambiental”

A professora doutora Martha Tristão proferiu palestra no I Congresso Goiano de Educação Ambiental - Congea frisando a importância de encontros para provocar a “potência de ação para a educação ambiental”. Ela veio do Espírito Santo e prega que é preciso resgatar a vida comunitária para que se provoque realmente uma transformação. “Porque só com conteúdo vamos continuar com a mesma racionalidade cognitiva que criticamos.” A palestrante concedeu entrevista ao educador ambiental da Semarh Wagner Oliveira apontando também que em relação à educação ambiental é preciso encontrar a identidade local numa relação com o global. O I Congea foi realizado de 15 a 18 de outubro na Universidade Federal de Goiás. Confira abaixo a entrevista.

I CONGEA - Como deve ser a formação de educadores ambientais?
Martha Tristão -
Acredito numa formação de contextos formativos que envolve vários contextos. Um que seria a formação inicial que debatemos muito no I Congea que não pode se resumir, se reduzir à criação de uma disciplina específica que vai se somar às outras disciplinas do currículo. Ela tem de ser pensada de uma maneira articulada, integrada para uma formação interdisciplinar. E articulada com a formação continuada. Para essa formação continuada nós temos contextos diversos. Um evento como o I Congresso Goiano de Educação ambiental já é um processo formativo. Os professores, na sua maioria participantes desse evento, com certeza voltam para suas escolas com novas possibilidades de inserção da educação ambiental nas suas práticas com a potência de ação. A pesquisa é outro contexto importante da formação. As políticas públicas, as políticas de governo são outro contexto de formação. A atuação profissional, a atuação na prática cotidiana desses professores é considerada um contexto significativo. Entendo isso como um conjunto de ações. Claro que temos de ter políticas públicas que favoreçam isso. Por exemplo, em Goiás, em Goiânia, observamos que os professores foram favorecidos porque vieram para o evento. Isso aconteceu porque a secretária de educação com certeza liberou esses professores. Isso é extremamente significativo. Precisamos envolver os professores nesse debate, nessa discussão.

“Valorização dos saberes populares, saberes tradicionais. Encontrar a identidade local numa relação com o global”

I CONGEA – A Sra. recebeu uma sugestão de uma das congressistas de que é preciso formar o cidadão ambiental.
Martha Tristão -
Exatamente. Falamos da identidade desse sujeito com o ambiente em que vive. Com o meio ambiente numa relação constante de interação. É a valorização dos saberes populares, dos saberes tradicionais. Encontrar a identidade local numa relação com o global.

“Políticas que envolvam ampla discussão e debate junto aos professores porque não adianta criar projetos e atividades sem o envolvimento dos autores dessas propostas”

I CONGEA - É preciso ter políticas públicas.
Martha Tristão -
Políticas que envolvam ampla discussão e debate junto aos professores porque não adianta criar projetos e atividades sem o envolvimento dos autores dessas propostas. Os professores têm de se tornar autores dessas propostas e não simples atores. Eles não representam essas políticas. Têm de ter uma atuação e uma inserção nesse debate. Por isso que sempre coloco que a proposta elaborada por outros que eu não participei, não tive nenhum envolvimento, nenhuma discussão, no mínimo vou ter um estranhamento. Vou ter um estranhamento com um pacote que chega até minha escola sem eu ter sido envolvida. É preciso que os professores e professoras estejam inseridos em um amplo debate, uma ampla discussão.

“Vamos para o sexto encontro de educação ambiental. Temos reivindicado junto à Secretaria de Educação a liberação dos professores porque entendemos esses eventos e encontros com dimensão educacional e ambiental”

I CONGEA - Como está atualmente no Espírito Santo a educação ambiental?
Martha Tristão -
Temos um diagnóstico disponível no site
www.recea.org.br (Rede Capixaba de Educação Ambiental). Esse diagnóstico tem um panorama do perfil e da atuação desses profissionais que hoje inserem a educação ambiental no seu cotidiano, na sua prática. O que observamos é que essas políticas implementadas pelo MEC das conferências nas escolas, das Convidas são extremamente importantes. Elas são significativas. Precisam se tornar públicas com envolvimento, debate, discussão junto aos professores. Estamos tendo uma experiência agora que é a criação das Com-Vidas (Comissões de meio ambiente e qualidade de vida) no município. É o primeiro município onde será criada a Com-Vidas. São 11 escolas que estão envolvidas na criação das convidas. Dei um exemplo. São movimentos que a Secretaria de Educação tem tido a adesão junto ao Ministério [da Educação] e tem favorecido uma implementação da educação ambiental. Temos também uma organização grande da Rede Capixaba de Educação Ambiental – Recea. Temos encontros bianuais. De dois em dois anos fazemos encontros estaduais. Vamos para o sexto encontro de educação ambiental. Temos solicitado, reivindicado junto à Secretaria de Educação a liberação dos professores para participarem desses eventos, encontros. Porque entendemos esses eventos e encontros com uma dimensão educacional e ambiental. Não entendemos esses eventos e encontros deslocados. São encadeados nesses processos de formação ambiental dos professores e professoras. Temos vários projetos extremamente significativos. Projetos na região sul, na região do Caparaó. Temos uma rede de educadores ambientais na região sul. Temos na região norte outro pessoal bastante envolvido com o projeto das tartarugas marinhas, Tamar. Este projeto foi ampliado e virou um projeto de formação de cidadania. Não dá nem para mencionar aqui quantos projetos temos lá.

“Estamos pensando numa proposta que tenha um conteúdo mínimo, mas que atenda às especificidades locais, culturais, regionais”

I CONGEA - Educação ambiental no Cerrado de Goiás deve ser diferente da praticada no restante do país?
Martha Tristão -
É isso que estamos pensando quando pensamos na formação continuada. Estamos pensando numa proposta que tenha um conteúdo mínimo, mas que atenda às especificidades locais, culturais, regionais. Temos alguns conteúdos que são gerais, necessários para formarmos em educação ambiental e temos algumas especificidades que é de Goiás, do Espírito Santo, do Mato Grosso. Temos de ter uma abertura para fazer essa inserção no local.

“Precisamos resgatar um princípio inacabado da ciência moderna que é o princípio da comunidade. Só com conteúdo vamos continuar com a mesma racionalidade cognitiva que criticamos”

I CONGEA - Não basta para o educador ambiental só ter formação, conhecimentos, mas é preciso também ter uma mudança de paradigmas, mudança de hábitos?
Martha Tristão -
Estamos vivendo uma transição para uma mudança de paradigma no seu modo de se relacionar com a vida, com o mundo. Um modo mais solidário, mais cooperativo, mais coletivo. Precisamos resgatar um princípio inacabado da ciência moderna que é o princípio da comunidade. Precisamos resgatar a vida comunitária. Com isso vamos realmente provocar uma transformação. Porque só com conteúdo vamos continuar com a mesma racionalidade cognitiva que criticamos.

“Parabenizo a ação das pessoas organizadoras desse evento. Foi extremamente significativo do ponto de vista da discussão, do debate. Por tudo que foi possibilitado nesse encontro”

I CONGEA - Em relação à realização do I Congresso Goiano de Educação Ambiental em Goiás. É um passo importante?
Martha Tristão -
Estou encantada. Parabenizo a iniciativa. Ainda mais acontecendo dentro da universidade. Acho mais significativo ainda do ponto de vista de chamar a atenção dos jovens da comunidade geral para a educação ambiental, para a importância desse debate. É uma iniciativa extremamente importante, significativa. Parabenizo a ação das pessoas organizadoras desse evento. Foi extremamente significativo do ponto de vista da discussão, do debate. Por tudo que foi possibilitado nesse encontro. Os encontros são extremamente frutíferos para discutir, aprofundar e debater os temas. Os encontros precisam acontecer porque eles provocam essa potência de ação tão necessária para a educação ambiental.

“Precisamos fazer com que os professores escrevam suas práticas. Coloquem no papel o que estão fazendo porque os trabalhos estão acontecendo”

I CONGEA - Qual sugestão você daria para o professor que está no interior do Estado. Como ele poderia se preparar melhor para dar aulas de educação ambiental?
Martha Tristão -
Ele já está fazendo. Tem uma professora de um município do interior de Goiás que se manifestou. Ela já está fazendo um trabalho lindo, maravilhoso. Não tem é visibilidade. Não tem publicação. Os trabalhos ficam endógenos. Não saem dali. Precisamos fazer com que os professores escrevam suas práticas. Coloquem no papel o que estão fazendo porque os trabalhos estão acontecendo. Não temos de ter arrogância de achar que precisamos ir lá porque estão acontecendo. Primeiro precisamos pedir licença para entrar na escola. Não podemos invadir esses espaços e achar que nós é que vamos definir a forma como esses professores vão trabalhar. Eles têm de descobrir fazendo e já sabem.

Trabalho da Comissão de Comunicação e Imprensa do I Congea Contato: Wagner Oliveira - Semarh
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