03/01/2012

EDUCADOR AMBIENTAL:
Temos de ver com os
olhos da comunidade

Educador ambiental tem de ser crítico e prático
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O professor de educação ambiental e geografia política do curso de geografia da Universidade Federal de Uberlândia, doutor em geografia Humana pela Universidade Complutence de Madri (Espanha), geógrafo licenciado pela Universidade Federal do Espírito Santo e mestre em geografia Humana pela Universidade de São Paulo – USP, Anderson Português, diz que desenvolve seu trabalho 'olhando com os olhos da comunidade'. “Ao invés de chegarmos com ideias prontas, com verdades prontas, impor essas ideias em oficinas”. Anderson Português frisa que o educador ambiental tem de ser sempre crítico, mas precisa ter senso de alternativa e educação ambiental não é propriedade do biólogo, geógrafo ou engenheiro florestal. Leia abaixo entrevista completa concedida em João Pessoa, Paraíba, logo após ele realizar oficina no II Congresso Nacional de Educação Ambiental.

Wagner Oliveira - As informações obtidas no congresso são riquíssimas e observei que os participantes gostaram da sua oficina. Mas para quem não participou do Congresso Nacional de Educação Ambiental e segue o blog Educação Ambiental em Goiás eu pergunto. De que forma a educação ambiental pode ser instrumento para o desenvolvimento local?
Anderson Português –
ela pode ser instrumento de promoção do desenvolvimento local na medida em que se comporte como emancipatória. Na medida em que promova a autonomia das comunidades como um valor social. Nesse sentido, sim, ela contribui para o desenvolvimento local. Também motivando a conservação dos recursos naturais como um valor coletivo, como um valor social. Aí também você tem essa colaboração. Entendemos que o desenvolvimento é um processo possível, socialmente falando, mas ele precisa de uma base de valores, de uma base ética vinculada às questões ambientais. É nesse sentido que a educação ambiental traz uma contribuição bastante valiosa.

“Não acredito na possibilidade de desenvolvimento sustentável em escalas muito grandes porque o grande capital não permite”

Wagner Oliveira - Como deve ser a visão do educador ambiental diante dos problemas ambientais atuais?
Anderson Português -
O educador ambiental tem de ser sempre crítico mas precisa ter senso de alternativa. Não adianta fazer crítica e ficar no fatalismo. Fazer crítica e ficar se lamentando das coisas que dão erradas. Tem de ter certa proatividade. Tem de pensar nas possibilidades do que pode dar certo. E incentivar o que pode dar certo. Duvidar das informações que chegam pela televisão porque muitas delas, inclusive quando falam positivamente do meio ambiente, vêm carregadas de muitas informações complicadas que, cientificamente, não têm nenhum embasamento. Duvidar, questionar e ajudar as pessoas a questionarem, a pensarem soluções. O grande papel do educador ambiental, hoje, é ter um motivador para a busca de soluções que sejam ambientalmente aceitáveis. Não só ficar na crítica pura, na crítica pela crítica porque isso não vai ajudar ninguém a chegar a lugar nenhum.

Wagner Oliveira – O senhor disse que trabalha com uma comunidade olhando com os olhos dessa comunidade e isso leva tempo. Assim fez seu doutorado somente depois de treze anos de mestrado. Como é olhar com os olhos da comunidade?
Anderson Português –
Quando você tenta entender os fenômenos da natureza a partir dos sentimentos, das emoções, das perspectivas de vida, dos anseios, das angustias, dos medos e até dos preconceitos que existem na comunidade. Ao invés de chegarmos com ideias prontas, com verdades prontas, impor essas ideias em oficinas, o que tentamos fazer é entender como essa comunidade funciona, quais sãos suas lógicas de poder, quais são suas estratégias de sobrevivência, o que para ela é importante, quais sãos suas manifestações culturais que agregam realmente essa comunidade. O que as pessoas têm em comum e não suas diferenças. Aí começamos a ter o entendimento de como essa comunidade é e como ela funciona. Para você saber que conteúdos vai incorporar da educação ambiental para que o resultado seja mais efetivo. E como você disse, eu terminei meu mestrado, em 1988, e, em 1999, comecei a levantar os dados parar o meu doutorado. Mas eu só defendi o meu doutorado em 2010. Comecei a fazer pesquisa e só depois entrei formalmente no doutorado porque precisava de um tempo de convivência, de pesquisa, de estudo. Até para amadurecer-me como pesquisador para conseguir fazer a pesquisa que fiz que é uma pesquisa extensa, são 615 páginas (sobre comunidades de pescadores da Barra do Rio Doce, no Espírito Santo). Para escrever isso sobre uma comunidade tão pequena tem de ter uma vivência grande para conseguir mergulhar.

Wagner Oliveira – Por favor, comente sua frase: “Não me interessa o que nos diferencia. Interessa os valores sociais que nos unem”.
Anderson Português –
Porque se não as pessoas começam a falar de suas diferenças políticas, suas diferenças religiosas, os pontos de vista que cada um defende porque na comunidade tem gente de uma religião, tem gente de outra. Tem gente que apoia um candidato político, tem gente que apoia outro. Quando trabalho com comunidades procuro deixar claro para eles que não me interessa aquilo que os diferencia, que os divide e que os afasta. Pelo contrário, interessa-me aquilo que os unem. Alguma religião, por exemplo, manda agredir o meio ambiente? Não! Então temos uma coisa que nos unem. Algum candidato da política está mandando matar os animais? Não! Então temos uma coisa que nos unem. Não me interessa as diferenças e sim as coisas que nos unem.
Wagner Oliveira – O senhor apresentou um slide com uma foto de contraste do sol que as pessoas podem interpretar de várias formas e disse que para que a claridade surja a escuridão precisa dar licença. A escuridão está na certeza?
Anderson Português –
A ignorância cega. Mas a certeza absoluta também. Porque ela não deixa você enxergar o mundo com outros olhos, ter outras perspectivas ou ter outras possibilidades. Ela não te deixa experimentar. Você está tão certo daquilo que para você é uma verdade absoluta que você não se deixa experimentar. E experimentar é muito bom. Você pode crescer com isso, levar as pessoas a crescerem com a perda do medo da coisa nova. Nesse sentido é que tenho medo da certeza absoluta. Acho que a ignorância é sim uma forma de escuridão. Mas acho que quando se tem uma certeza fixa e você não abre mão dela você também se condena a escuridão porque não se abre para outras searas. Heloísa Helena comentava uma vez que quem tem ideia fixa é débio mental. E ela tem razão. A gente se fixa em uma ideia e não se abre para as outras, não se permite emocionar por outras coisas, se tocar por outras ideias, por outros pensamentos. A gente está reduzindo, engessando nossa forma de pensar, nossa forma de ser.

"A especialização enriquece o detalhe e empobrece a visão do todo. Você fica extremamente especialista em uma coisa e extremamente empobrecido em outra"

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Wagner Oliveira - O senhor diz que para mobilizar uma comunidade é preciso começar pelas instituições sociais. Que instituições socais são excelentes meios de sensibilização ambiental.
Anderson Português –
Normalmente falo dessa maneira porque acho mais fácil. O que estou chamando de instituições sociais são as empresas, sindicatos, igrejas, escolas. Estou entendendo que as comunidades são formadas por pessoas que dividem a mesma cotidianidade e o mesmo território. Que, portanto, dividem os mesmos problemas e os mesmos sucessos coletivos. Mas essas pessoas se organizam em núcleos sociais: família, escola, emprego, igreja... É mais fácil você atingir as pessoas chegando pelas instituições. Quando você vai visitar as empresas, visitar sindicatos, pede para falar com os funcionários, mobiliza muita gente ao mesmo tempo. Você vai a uma missa e consegue passar sua mensagem para muita gente ao mesmo tempo. É neste sentido que acho que as instituições são importantes até porque são formas de manter a coesão social. Família é uma instituição importante. Quando você consegue inclusive valorizar a instituição social, a força comunitária dela, você está trazendo um benefício para essa comunidade. Está mostrando que elas são importantes e são respeitadas.

Wagner Oliveira - Qual a importância da mobilização atingir os pais?
Anderson Português –
Na educação escolar, especificamente, eu sempre acho interessante fazer educação ambiental de diferentes maneiras na mesma comunidade. A escola tem de oferecer educação ambiental para os alunos sim. Os professores já têm porque já passam pelas capacitações que são oferecidas por prefeituras, órgãos do Estado. Mas se a escola quer romper os limites dos muros e chegar à comunidade porque ela não faz, por exemplo, oficinas para os pais? Por que não oficinas para os donos de empresas do bairro? Por que não oficinas para os motoristas que usam as ruas do bairro, sejam taxistas ou motoristas de ônibus. Por que não para as pessoas que usam o território do bairro. Por que as escolam se fecham nos seus próprios muros? Fazer para o bairro inteiro não dá porque são muitas pessoas. Mas pode pegar por grupos sociais. Pegar algumas empresas mais próximas das escolas e trabalhar com elas. Como os bares estão tratando seus fornecedores e seus lixos? O que se pode fazer para reduzir papel, sacolas, lixo nos supermercados do bairro? São coisas que a escola pode fazer inclusive contando com a ajuda dos alunos.


Wagner Oliveira - O senhor diz que educação ambiental só na teoria não resolve, tem de ser na prática. Como pode ser a educação ambiental na prática?
Anderson Português –
Eu sempre recomendo que se fizer uma oficina faça um campo nem que seja pequeno. Leva para dar uma volta, vá a esquina, praça, ruas, vivenciar o bairro. As pessoas as vezes não se lembram disso mas bairro é uma palavra muito boa, muito generosa que inspira aconchego, inspira lugar que você conhece e onde estão seus amigos. Vá conhecer o bairro. Vamos levar esse povo para a rua para olhar a rua com outro olhar. Não de quem usa cotidianamente aquele espaço, mas de alguém que vai tentar enxergar naquele espaço os problemas que são apontados e levantados durante a oficina e talvez aí você consiga sensibilizar de maneira diferenciada.

Wagner Oliveira - O senhor diz que não gosta do conhecimento fragmentado. Como pode ser o conhecimento de pluralidade?
Anderson Português – Educação ambiental não propriedade do biólogo. Não é propriedade do geógrafo. Não é propriedade do engenheiro florestal. Educação ambiental é de quem quer fazer e se comprometer em aprender e sensibilizar, independentemente de sua função. Também não acho que seja uma prioridade do setor produtivo chamado educação. Educação ambiental pode ser feita pela empresa, pela igreja, por outras instituições sociais. Ela deve ser não só pluridisciplinar, mas tem também de ser plurisetorial, pluriparadigmática. Ela tem de se abrir para as possibilidades que ela mesma cria. E como o ambiente é um fenômeno complexo, é difícil uma única ciência dar conta de toda essa complexidade.
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Wagner Oliveira - A especialização do conhecimento também não resolve?
Anderson Português –
A especialização enriquece o detalhe e empobrece a visão do todo. Você fica extremamente especialista em uma coisa e extremamente empobrecido em outra.

Wagner Oliveira - Por que o senhor vê o modelo de desenvolvimento atual como extremamente destruidor, predatório?
Anderson Português –
Porque ele é um modelo que já está ultrapassado porque não foi todo repensado. Chamamos ele de modelo pós-fordista de desenvolvimento. Esse modelo pós-fordista não foi repensado, ainda mantém traços economicistas muito fortes que privilegiam a dimensão econômica do desenvolvimento e desprestigia tanto o patrimônio social quando o patrimônio ambiental. Por isso é que ele está condenado a falência. Não temos condições no planeta de dar qualidade de vida para todos os habitantes tomando por base a classe média americana. Precisaríamos de quatro a cinco vezes o planeta Terra para isso. Nesse sentido, ele é basicamente econômico. Quando a gente fala no desenvolvimento de base local estamos propondo um modelo de desenvolvimento que vem contra esse modelo estabelecido que não é o modelo da mídia, que não é o modelo do grande capital, que não é o modelo do grande capitalismo. É um modelo fundamentado nas possibilidades reais de as pessoas conquistarem uma coisa chamada felicidade coletiva que também podemos chamar de qualidade de vida.
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Wagner Oliveira - Como o senhor vê os conceitos de desenvolvimento sustentável e de sociedades sustentáveis, que inclusive a doutora Michèle Sato bate muito nesta tecla.
Anderson Português –
São apenas conceitos e conceitos você pode construir. Temos a liberdade de construir. A sociedade sustentável é sustentável porque adotou um modelo de desenvolvimento que não é esse que está aí. Capitalista, somente econômico, baseado nos desejos do capital. Ela é sustentável porque adotou outras coisas como valor. Ela valoriza sua cultura, seu patrimônio natural, valoriza sua identidade. Por isso é que ela é sustentável. Exatamente porque rompeu com esse modelo tradicional pós-fordista de desenvolvimento. Acredito que isso é mais possível no âmbito das comunidades. Ou seja, um desenvolvimento alternativo acontecer de baixo para cima. Porque não adianta esperar que empresários e governos promovam desenvolvimento local que eles não vão promover.

Wagner Oliveira - O senhor diz que mudanças ocorridas nos últimos quarenta anos são significativas embora insuficientes. Como podemos ter melhores resultados com essas mudanças? O que está falhando?
Anderson Português –
É uma questão de tempo. Uma questão histórica. Dizer que a sustentabilidade é um conceito que não existe parece-me muito perigoso. É entregar de bandeja uma palavra tão forte e midiaticamente tão forte para as pessoas fazerem dela o uso que quiserem. Não concordo com isso, não acho que seja uma boa ideia. Temos de nos manter no discurso, debate levantando questões. E eu como pesquisador tenho a contribuir com este conceito. Então porque vou abrir mão? É neste sentido que digo que nos últimos quarenta anos o simples fato de existir uma ideia de sustentabilidade, mesmo que ela não tenha se efetivado 100% em lugar nenhum do planeta, só pelo fato de existir, gerou enquanto discurso ideológico coisas boas. Hoje, temos muito mais parques, áreas protegidas porque as pessoas querem sustentabilidade. Temos produtos orgânicos para comprar em contraposição aos que têm agrotóxico porque as pessoas querem sustentabilidade. Hoje, temos construções mais saudáveis, leis ambientais porque as pessoas querem sustentabilidade. Então não posso pegar esse conceito e jogar no lixo já que ele trouxe nos últimos quarenta anos alguns avanços sociais ainda que insuficientes.
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Wagner Oliveira - Em que tipo de comunidades é mais difícil para o educador ambiental desenvolver seu trabalho?
Anderson Português –
Comunidades onde o grande capital se faz muito presente.

Wagner Oliveira - O senhor mostrou slides com fotos de canaviais no sul de Ituiutaba. Como o senhor vê a substituição do Cerrado, da Amazônia para plantação de cana não para alimento mas para produção de combustível?
Anderson Português –
É complicado porque há muitas coisas que precisam ser pensadas. Substituição de vegetação por área de plantio é absurdo. Isso não faz o menor sentido. Substituição de áreas de baixa produtividade... O agronegócio é um problema muito grave, mas existe forma de compatibilizar o agronegócio com a agricultura familiar porque existem terras ociosas já desmatadas para isso. Marina Silva fala muito isso. Podemos incentivar o agronegócio onde já existe área desmatada. Não precisa tirar mais nenhuma árvore. Pelo contrário, o Brasil tem áreas suficientes para desenvolver o agronegócio, desenvolver a agricultura familiar e ainda reflorestar. Nosso problema não está na área. Está na eficiência por área. Temos uma baixa eficiência. Se conseguíssemos uma política estruturante -- que a ela (Marina Silva) foi cortada a oportunidade de elaborar, que ela estava elaborando na época --, se tivéssemos política estruturante no sentido de colocar o agronegócio em áreas onde vão gerar impacto menor seria maravilhoso. Só que a bancada ruralista é imensa e os interesses do grande capital também são imensos. Aí a consequência é a banalização do espaço agrário e o lamentável empobrecimento cada vez maior do pequeno produtor.
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"Se a escola quer romper os limites dos muros e chegar à comunidade porque ela não faz, por exemplo, oficinas para os pais? Por que não oficinas para os donos de empresas do bairro? Por que não oficinas para os motoristas que usam as ruas do bairro?"

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Wagner Oliveira - O senhor disse que sua cidade chegou a 5% de umidade do ar em 2011 e perguntou: cadê a água? Em seguida respondeu: a água está na irrigação da cana. Não seria no sentido literal porque não há pesquisas... Anderson Português – Não sei. Não há pesquisas que mostram dessa forma. Faltou água em alguns bairros e disseram que tinha a ver com desvio de alguns mananciais para irrigação de cana. Disseram, não posso afirmar. Mas de qualquer maneira estamos falando de um problema que foi ambiental. A seca é um problema ambiental. É um fenômeno natural que aconteceu e atingiu inclusive os canaviais.

Wagner Oliveira - O senhor disse que adora o Greenpeace que parte para a “porrada”. Ações de ativistas radicais são necessárias muitas vezes?
Anderson Português –
Acho que são. Não sou radical não, mas não vou reprovar quem faça. De vez enquanto é necessário. Desde que não haja violência, não haja grupos armados, não haja descumprimento dos preceitos legais, acho que as pessoas têm direito de reunião, de manifestação pública e isso é constitucional e republicano. Nesse sentido fazer manifestações no sentido de mais ruidosa acho que é legítimo sim. Desde que sem descumprir os preceitos legais.

Wagner Oliveira - Alguns vêem uma educação ambiental romântica sendo feita. O senhor observa essa educação ambiental romântica e ela não daria resultados?
Anderson Português –
A educação ambiental romântica tem mais a ver com aquela receitinha “menino apaga a luz, fecha a água quando estiver escovando os dentes”. Isso é educação ambiental sim e é importante também. Mas ela não é suficiente porque muda hábitos mas não muda conhecimentos. Muitas vezes a pessoa até pode fechar a torneira mas não entende o porquê está fechando aquela torneira. O menino até pode não jogar o papel de bala no chão mas não entende o porquê. O fato de ele não jogar o papel de bala no chão não quer dizer que aquele papel ou plástico vai ser reciclado ou que ele saiba o que é reciclagem. Então é nesse sentido que essa educação ambiental mais receituário é chamada de romântica.

Wagner Oliveira – Há um contraste por exemplo com a quantidade de água que é utilizada na agricultura em pivôs. Há municípios com 500 pivôs retirando água de rios que poderiam abastecer cidades.
Anderson Português –
Isso mesmo. Mas não desprezo nenhum tipo de tentativa de incutir bons sentimentos, boas emoções, bons hábitos em ninguém.
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"A especialização enriquece o detalhe e empobrece a visão do todo"
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Wagner Oliveira - Qualidade de vida é princípio para desenvolvimento local?
Anderson Português –
Isso está em Marcelo José Lopes de Souza que é o autor de quem pego essa ideia emprestada e ele coloca que qualidade de vida e justiça social são os elementos fundadores do que chamamos de desenvolvimento sócio-espacial. Que é um desenvolvimento de base, de baixo para cima. Ele coloca que sem justiça social e sem qualidade de vida não existe desenvolvimento. A questão é o que é justiça social? O que é qualidade de vida? E isso é uma coisa que você tem de responder a partir do olhar da comunidade. Por isso é que apliquei os questionários. Eu perguntava para ele se era feliz, o que faltava, o que achava que precisava naquele lugar para a vida melhorar. Para entender como ele se relaciona com aquele território. Porque a qualidade de vida é uma característica da população de um dado lugar em específico. A noção de qualidade de vida tem de ter localização geográfica, contexto histórico e contexto social.

Wagner Oliveira - O desenvolvimento sustentável só é possível em escala local? No modelo que está aí não é possível?
Anderson Português –
Não vamos conseguir fazer desenvolvimento sustentável no planeta inteiro. Mas é possível fazer nas pequenas comunidades. Na dimensão da paróquia, do bairro, na dimensão da rua a gente consegue. Agora fazer um projeto de desenvolvimento para o planeta inteiro não dá.
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Desenvolvimento sustentável e sociedades sustentáveis: "São apenas conceitos e conceitos você pode construir"
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Wagner Oliveira - A comunidade é capaz de fazer projetos para sua melhoria ou somente consultorias?
Anderson Português – Consultoria é uma maneira muito interessante de resolver certos problemas quando você já tem manifestação da comunidade. Já trabalhei com consultoria mas tenho concluído cada vez mais que o universo canalha da consultoria está se expandindo. E canalha é uma palavra muito elegante que posso utilizar neste momento para caracterizar as pessoas que negam às comunidades a oportunidade de pensar para que eles possam continuar ganhando dinheiro.

Wagner Oliveira - O senhor cita Marcelo Marcelo Lopes de Souza que trabalha comunidades urbanas, José Carpio Martín, que trabalha comunidades rurais, da Universidade de Madri, como leituras importantes. Na sua opinião como deve ser a formação do educador ambiental? Além das leituras que o senhor sugeriu.
Anderson Português –
Formação sempre crítica, sempre plural, lendo autores de diferentes áreas de formação. Estudando casos diferenciados para que ele possa absorver a metodologia. Aparece um caso lá do Amapá? Não tem problema, pega e leia. O importante não é o lugar em si, mas como o trabalho foi feito. Absorver as metodologias para você ir se aprimorando como profissional. Não ter medo de errar porque vai errar mesmo. Vai errar de vez enquanto. Mas depois você acerta. E não ter medo do novo.

Wagner Oliveira - É possível conciliar preservação e sustentabilidade com desenvolvimento econômico?
Anderson Português –
No modelo pós-fordista, não! No modelo globalizado que está aí, não! Para isso teremos que repensar o modelo. Para repensar o modelo não dá para pegar grandes coletividades. Por isso que sempre proponho trabalhos partindo das comunidades.

Wagner Oliveira - Não existe esse modelo ideal ainda.
Anderson Português –
O modelo ideal, não. Acho que podemos conseguir desenvolvimento sim, com sustentabilidade, a partir das estratégias de desenvolvimento das comunidades quando isso é pensado a partir da dimensão local. Daí a importância do conceito de lugar. Não acredito na possibilidade de desenvolvimento sustentável em escalas muito grandes porque o grande capital não permite.
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