03/10/2011

O EXEMPLO DO INTERIOR
"Catalão vai transformar
chorume em energia"

A Cidade de Catalão já tem 70 por cento dos bairros atendidos com coleta seletiva e pretende chegar a 100 por cento em breve. Há ‘catadores’ que já obtêm por mês até R$ 1500 reais e o município, diferentemente da maioria dos municípios goianos, conta com aterro sanitário que recebe manutenção e foi considerado um dos melhores de Goiás em diagnóstico da Semarh de setembro de 2009. O secretário municipal de meio ambiente Carlos César do Nascimento participou de curso de capacitação do 17º Simpósio Ambientalista Brasileiro no Cerrado realizado na Câmara Municipal de Goiânia. Ele está à frente da Secretaria de Meio Ambiente de Catalão desde 1º de janeiro de 2009, mas antes foi durante oito anos chefe do escritório regional do IBAMA em Catalão. Carlos César concedeu entrevista a Educação Ambiental em Goiás quando frisou que o município no interior de Goiás está fazendo a destinação correta do lixo e dos recicláveis com recursos próprios e vai produzir em breve energia de chorume.

Wagner Oliveira - Qual a atual situação de Catalão em relação ao meio ambiente?.
Carlos César - Problemas são muitos. É uma cidade que vem crescendo de uma maneira até assustadora e com isso os problemas ambientais vão aumentando. Mas a Secretaria de Meio Ambiente tem se estruturado, tem se organizado para tentar atender também a população e as questões ambientais. Haja visto o aterro sanitário que transformamos realmente em aterro sanitário e tem uma gestão, tem acompanhamento para atender a política de resíduos sólidos.


Wagner Oliveira – Existiu lixão até que ano?
Carlos César - Ocorreu até 2009. Em outubro de 2009 ele já passou a ser aterro sanitário. Nos primeiros meses da administração recuperamos, fizemos uma remediação do aterro e, a partir daí, ele passou a funcionar como aterro sanitário.


Carlos César do Nascimento ao lado do banner do curso de capacitação do SABC

Wagner Oliveira – Muitos municípios têm dificuldades de criar o aterro sanitário. E agora a própria Lei de Resíduos Sólidos nacional exige que em quatro anos toda prefeitura tenha seu aterro sanitário. Qual orientação o senhor daria para municípios que ainda não têm aterro sanitário? Onde poderiam conseguir apoio nesse sentido. Onde vocês buscaram as condições?
Carlos César - Nós fizemos com recursos próprios. O município bancou toda a estrutura, toda a remediação do aterro. Mas eu digo que difícil não é fazer o aterro. A manutenção é difícil. E a gente está prezando pela manutenção desse aterro. Temos mantido várias pessoas envolvidas, com todo o cuidado. As análises que tem de ser feitas são feitas constantemente. Não descuidamos da manutenção. Acho que o grande segredo é esse. É você construir e manter ele em pleno funcionamento.

Wagner Oliveira - Qual foi o custo para construção do aterro sanitário?
Carlos César - O custo só com a remediação, já que já existia o local, foi em torno de R$ 1,5 milhão.

Wagner Oliveira - Não buscaram recursos em ministérios?
Carlos César - Não. Devido ao tempo e queríamos resolver essa questão. E buscar recursos no início da administração demandaria tempo. Economizamos tempo e o município dispunha do recurso.

Carlos César do Nascimento e o chefe da fiscalização de Catalão

Wagner Oliveira - O senhor disse na palestra que hoje 70 por cento da cidade de Catalão já conta com coleta seletiva.
Carlos César - Em torno de 70 por cento da cidade já está contemplada com a coleta seletiva. O que precisamos agora é conseguir mais estrutura, mais caminhões para cobrirmos toda a cidade. Temos dois caminhões que fazem a cidade e necessitamos de mais um para cobrir. Estamos buscando recursos junto a ministérios, principalmente o Ministério do Meio Ambiente e junto a fundos do Banco do Brasil e do BNDES para conseguirmos mais um caminhão para a coleta seletiva.


Wagner Oliveira - Divulga-se que normalmente catadores ganham em média um salário mínimo. O senhor diz que os catadores de Catalão que ganhavam em torno de R$ 350 reais, hoje, estão ganhando até R$ 1500 reais. Por que os catadores de Catalão estão ganhando mais, o que vocês fizeram?
Carlos César - Primeiro que a produção de lixo é muito grande, como em Goiânia. Aproveitamento que acaba sendo pequeno. A coleta seletiva propiciou aos catadores, à cooperativa, aumento de forma significante na quantidade de material reciclável. Isso proporcionou a eles o aumento também da renda. O material já chega praticamente separado. Eles fazem é a triagem separando plástico, vidro... Eles ganharam tempo já que não precisam ir para a rua, não precisam fazer o que faziam antes no aterro controlado quando ficavam nas trincheiras para recolher. Hoje, não. Só fazem a triagem.

Recicláveis de catalão prontos para ir para a indústria

Wagner Oliveira - E a Prefeitura continua dando todo apoio para a cooperativa?
Carlos César - Os cooperados recebem desde transporte, alimentação, EPIs (Equipamentos de Proteção Individual), uniformes, tudo a Prefeitura dá incentivo para eles. Eles não têm gasto nenhum com almoço, jantar. A prefeitura montou tudo para a cooperativa.

Wagner Oliveira - A prefeitura sabe também da importância desse investimento. Não é por acaso que decidiu investir.
Carlos César - São duas grandes importâncias: ambiental, já que preserva, aumenta a vida útil do aterro sanitário e a questão social porque hoje na cooperativa são 32 cooperados, 32 famílias que estão ganhando praticamente dois salários mínimos ou um pouco mais.

Wagner Oliveira - Há catadores quem ganha mais, como o senhor disse na palestra, que chegam a ganhar R$ 1500 reais por mês.
Carlos César - A média dos últimos três meses ficou em torno de R$ 1450,00.

Wagner Oliveira - A população de Catalão vestiu a camisa da coleta seletiva? Carlos César - A população respondeu de forma maravilhosa a coleta seletiva. Eles abraçaram e a gente vê com a quantidade de material que é recolhido.

Wagner Oliveira - Quando a coleta seletiva foi implementada?
Carlos César -
Nós começamos a fazer o projeto da educação e mobilização da comunidade em outubro de 2009. Começamos a coleta seletiva em janeiro de 2010.

Campanha da coleta seletiva em Catalão

Wagner Oliveira - O senhor bate muito na tecla de educação ambiental. Esse trabalho é resultado de educação ambiental? Como o senhor vê a educação ambiental nesse contexto?
Carlos César - Educação ambiental é primordial. Convencer as pessoas de mais idade é difícil. Agora principalmente nas escolas, se o pai sai com seu filho e pega um papel e joga na rua o filho fala pro pai que não pode. Então trabalhar com educação ambiental é primordial. Temos uma equipe de analistas que trabalham junto às escolas do município e às vezes até as do Estado tentando o convencimento das boas práticas ambientais.

Wagner Oliveira – A equipe de educação ambiental é da Prefeitura?
Carlos César - Dentro da própria Secretaria de Meio Ambiente há uma equipe de educação ambiental. E dentro da Secretaria de Educação também há uma equipe de educadores ambientais. Na verdade são duas equipes e, às vezes, trabalhamos em conjunto.

Wagner Oliveira - Vocês buscaram experiência de coleta seletiva em Goiânia ou quais lugares?
Carlos César - Buscamos experiência em relação à coleta seletiva principalmente em Belo Horizonte. Belo Horizonte já tem experiência de muitos anos. Foi uma das primeiras capitais do país a trabalhar com coleta seletiva. Pegamos também experiência de algumas cidades de São Paulo e de Goiânia. Fizemos um pool de experiências e começamos a coleta seletiva de forma gradativa em Catalão

Carlos César do Nascimento na Câmara Municipal de Goiânia

Wagner Oliveira - Para que os catadores ganhassem mais vocês escolheram indústrias para destinação, maior valoração?
Como conseguiram obter maior valor que refletiu em maior arrecadação ou remuneração para o catador?
Carlos César -
Há um gestor do aterro sanitário que não faz parte da cooperativa, mas da Secretaria de Meio Ambiente e ele auxilia os cooperados buscando junto as indústrias o melhor preço e também a qualidade do material que é separado também tem de existir. Quanto melhor e mais limpo o material estiver mais valor será agregado. Então o diretor do aterro tem um trabalho fundamental junto aos cooperados. Ele faz esse trabalho de pesquisa de mercado, auxilia a cooperativa para conseguir um valor melhor.

Wagner Oliveira – Catalão vende mais recicláveis para indústrias de São Paulo ou de Minas Gerais?
Carlos César -
Vendemos mais para Minas Gerais.

Wagner Oliveira - O senhor lembrou que um diagnóstico realizado pela Semarh em 2009 considerou o aterro sanitário de Catalão como um dos melhores de Goiás. Talvez melhor do que o de Goiânia?
Carlos César -
Não conheço e por isso não tem como eu fazer comparação. Essa foi uma avaliação da Semarh, Ministério Público, que classificou o aterro de Catalão.

Wagner Oliveira - O aterro sanitário de Catalão trata os efluentes, lagoas de decantação... Mas chega a tratar os gases como o metano direcionando para produção de energia? Chegou a esse nível?
Carlos César -
Não. Estamos instalando, chegou e está em fase de teste um equipamento que vai tratar o chorume e transformá-lo em energia. É um equipamento novo e só há uma cidade no Sul do Brasil que tem essa experiência. Estamos instalando em Catalão para eliminação dos gases e tratamento do chorume.

Recicláveis já prensados

Wagner Oliveira - Em Paulínia, São Paulo, uma central de resíduos faz o tratamento da terra com a descontaminação do solo, reaproveitamento de rejeitos de construções e faz a utilização dos gases do aterro para produção de energia elétrica. Catalão poderia até buscar experiência em Paulínia. Carlos César - Podemos buscar experiências boas.

Wagner Oliveira - Quais são os novos passos agora para Catalão em relação a meio ambiente depois de dar exemplo para a maioria dos municípios de Goiás com a coleta seletiva?
Carlos César -
Na coleta seletiva queremos chegar a 100 por cento da cidade talvez até meados do próximo ano. Acho que é importante a construção de uma sede própria para a Secretaria de Meio Ambiente. E a consolidação de duas áreas de conservação. Uma já está consolidada e outra está consolidando agora dentro da cidade.
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