13/11/2011

Parques de veredasFoto Wagner Oliveira de veredas no Jardim de Maytrea da Chapada dos Veadeiros em agosto de 2011

Subsistemas do Cerrado,
da Amazônia e da Caatinga

Prof. MS. Valter Machado da Fonseca*


O nosso Cerrado sempre foi considerado um bioma secundário, marginal, justamente pelas características de sua fitofisionomia. Os aspectos principais que marcam a fitofisionomia do Cerrado brasileiro são os tipos predominantes de vegetações de folhas ásperas com galhos e troncos retorcidos, árvores tortuosas, dentre outros aspectos. Geralmente, grande parte de observadores e até mesmo de estudiosos e cientistas usam a Amazônia como parâmetro de comparação para definir o Cerrado.


E, é justamente por isso que se cometem os maiores equívocos de formulações e análises, conceitos incorretos. Apesar de os ecossistemas serem interdependentes e interligados, cada um deles deve ser observado em separado, porém, sem jamais se perder a visão do conjunto, da totalidade dos ecossistemas e de suas partes constitutivas. Assim, diante da magnitude, da majestosidade da Amazônia, classificam equivocadamente o nosso Cerrado como um ecossistema secundário e marginal, sem nenhuma significação para a ciência.


Ora, para se pesquisar sobre quaisquer temas é preciso que se leve em consideração as diversas categorias de análises a eles relacionados, sob pena de se construir um resultado forçado e totalmente equivocado. Por exemplo, ao analisar nosso Cerrado é preciso que atentemos para seus aspectos particulares, singulares. Ele se constitui de inúmeras espécies de extrema beleza. A beleza das espécies do Cerrado é marcada exatamente pela sua simplicidade, pela leveza singela de suas flores, pela riqueza de sua fauna de roedores, de pequenos mamíferos, de aves, anfíbios, répteis, quelônios e pela enorme diversidade de peixes em suas águas. É importante dizer que grande parte da flora do bioma sequer foi ainda catalogada e se desconhece o princípio ativo de boa parte de suas espécies vegetais.


É importante ainda salientar que o Cerrado é a grande caixa d’água que abastece a maior parte do continente sul americano. Grande parte das nascentes que formam os principais rios e corpos d’água superficiais localiza-se exatamente no cerrado. Isto sem mencionar que nas entranhas de seu subsolo localiza-se um dos maiores aquíferos do mundo: O Guarani. O Guarani é um aquífero que constitui uma das principais reservas estratégicas de água potável [extremamente pura] do mundo e que, infelizmente já está sendo poluída em diversos pontos, em decorrência do despejo massivo de insumos agrícolas, pesticidas, herbicidas, dentre outros agrotóxicos usados de forma cada vez mais agressiva no plantio de lavouras de monoculturas, em especial a soja e a cana-de-açúcar.


E as veredas? Qual sua importância?


Se o cerrado como um todo já é marginalizado, os parques de veredas o são, ainda de forma mais desoladora. Quantas vezes já se ouviram comentários como: “para que serve um punhadinho de palmeiras e coqueiros espalhados no Cerrado?” Ou “essas palmeiras do Cerrado só servem para criar áreas pantanosas ou, então, para atolar os tratores e as máquinas agrícolas”. Na verdade, escondem-se os verdadeiros significados e importância dos parques de veredas com o objetivo de tirar os entraves que poderiam emperrar a superexploração desordenada do Cerrado, em função, principalmente, das atividades ligadas ao agronegócio.


Na verdade, não se pode dizer que as veredas sejam um tipo específico de fitofisionomia do Cerrado, uma vez que elas são encontradas como enclaves dentro da Floresta Amazônica, nas bordas da Caatinga nordestina, ou nas áreas de transição dos diversos biomas. As veredas sempre foram marcas dentro do Cerrado, em especial no planalto central do Brasil, Goiás, Mato Grosso e na região norte/noroeste do Estado de Minas Gerais, onde se destaca o Parque Nacional Grande Sertão e Veredas, principal fonte de inspiração do exímio e magnífico escritor e poeta João Guimarães Rosa.


Mas, quais as funções dos parques de veredas nos ecossistemas?


Podemos afirmar, sem nenhum medo de errar, que as veredas são indicativos de ambientes ecologicamente equilibrados. Nas áreas onde os parques de veredas estão em bom estado de conservação o ambiente como um todo está preservado e conservado. As veredas possuem como características fitofisionômicas a presença de palmeirais, cujas espécies mais comuns são os buritis. A existência das formações de buritizais indica, sempre, a presença de água ou nascentes. Indica que o lençol está próximo ou aflorando na superfície do terreno. Assim, as veredas são indicativos fortes de presença de água e, dessa forma, de maneira direta ou indireta, se ligam à dinâmica das bacias de drenagens e às nascentes.


A destruição dos subsistemas de veredas em quaisquer dos biomas irá gerar desequilíbrios ambientais nesses ecossistemas principalmente nas áreas de nascentes e na dinâmica fluvial do bioma como um todo. Então, cabe aos gestores, aos educadores ambientais, aos ambientalistas seriamente comprometidos com a preservação dos ambientes equilibrados e com a conservação e manejo correto dos recursos hídricos propor e estimular ações efetivas que visem à preservação dos parques de veredas, bem como alavancar campanhas explicativas acerca do significado e importância deste subsistema, para desfazer esta imagem de marginalidade e colocando as veredas no lugar de destaque que elas merecem, lugar que elas sempre deveriam ter ocupado, devido à sua espetacular relevância na conservação dos ambientes terrestres e aquáticos.

* Escritor. Técnico em Mineração e Geólogo pela UFOP. Geógrafo, Mestre e doutorando pela Universidade Federal de Uberlândia/MG (UFU). Pesquisador das temáticas “Alterações climáticas” e “Impactos sobre os ecossistemas terrestres e aquáticos”. Professor da Universidade de Uberaba (Uniube).

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