17/12/2010

CALDAS NOVAS - ESPECIAL
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Águas termais
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de dois mil anos
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O que há por baixo da cidade de Caldas Novas e da Serra de Caldas Novas? O geólogo e pesquisador que já trabalhou na perfuração de poços de petróleo, Fábio Floriano Haesbaert, chegou a cidade em 1987. Desde a época desenvolve trabalho profissional e busca conhecimentos em outras partes do Brasil e do mundo para conhecer melhor as águas termais de Goiás. Muitas pesquisas foram feitas por exemplo pela Universidade Técnica de Berlim. "Os pesquisadores vinham da universidade, faziam trabalhos e dávamos o apoio, trocávamos experiências e conseguíamos ir desenvolvendo e entendendo melhor o Aquífero Termal", recorda. Mas o geólogo faz um alerta: "Caldas Novas tinha de ser uma cidade exemplo em termos ambientais". Confira abaixo entrevista em que o geólogo revela descobertas importantes para desfrutarmos das águas termais de forma racional e na medida do possível sustentável.
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Milhares de turistas procuram a Cidade de Caldas Novas e Rio Quente, em Goiás, pelo potencial balneário e a divugação de que as águas termais têm potencial de cura. O geólogo Fábio Haesbaert se destaca por conhecer essas águas. Foto montagem em homenagem ao pesquisador

Wagner Oliveira - Geologicamente o que conhecemos em Caldas Novas?

Fábio Haesbaert - Quando se chega a Caldas Novas o que chama a atenção e destaca-se no horizonte é a Serra de Caldas Novas. Essa serra é uma feição de muita importância em termos ambientais, tanto para preservação da vegetação que está preservada em um parque estadual quanto para nossas águas. Antigamente achávamos que a serra era um vulcão. Na imagem de satélite ou de avião por cima, via-se uma feição ovalizada como se fosse de um vulcão extinto. Posteriormente, a partir da década de 70, descobrimos que não era vulcão. A partir da década de 80 os últimos estudos verificaram que, tanto na superfície quando em subsuperfície, em profundidade, você não encontrava nenhuma feição de vulcanismo. Se pudéssemos fazer um corte no terreno e olhar por baixo de Caldas Novas veríamos que todo esse pacote, onde a cidade está assentada, está dentro de uma antiga depressão, um grande buraco, que foi enchido de sedimentos, de areia. Tínhamos aqui um mar. Era uma região lacustre. Nosso planeta, ao longo dos milhares de anos, foi mudando a feição e até hoje ele está movimentando. Temos a tectônica de placas e o Brasil separando da África. Mas há cerca de um bilhão de anos tínhamos um grande lago e foram depositados sedimentos marinhos. Com certeza, naquela época, a água era até mais salgada do que hoje. Depois essa deposição foi se consolidando, se transformando em rocha, ocorrendo diversos movimentos compressivos que propiciaram a formação da Serra de Caldas Novas. A serra hoje está erguida devido a movimentações da crosta terrestre que a arquearam. Por isso que formou esse domo. Primeiro teve a formação da depressão com água, depois houve a deposição de sedimentos, de areias, de argilas, e a transformação em quartzitos e rochas argilosas. Depois houve movimentações que comprimiram, dobraram e soergueram a rocha, surgindo ali a Serra de Caldas Novas. Na serra ainda vemos todos esses dobramentos. Posteriormente foram erodidos e ficou só aquele cocuruto, a serra isolada, que é produto não de um vulcanismo, que teria empurrado de dentro para fora, mas da própria movimentação da crosta terrestre.


Belas fontes coloridas espalhadas pela cidade de Caldas Novas simbolizam o potencial da região

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"Em baixo de Caldas Novas há grandes cavidades, como cavernas, há mais de 400 ou 500 metros de profundidade e locais de aberturas enormes lá em baixo", diz Fábio Haesbaert


Wagner Oliveira - A altura da Serra de Caldas Novas seria a original de antiga época? Poderia ser um testemunho?

Fábio Haesbaert - É como se fosse um testemunho antigo. Mas além do arqueamento que existiu, temos dois tipos de rochas. No local onde Caldas Novas foi edificada temos um grupo de rochas que chamamos de grupo Araxá que é mais argilosa e mais fácil de erodir do que os Quartzitos, o outro tipo de rocha, que existem na Serra de Caldas. Os Quartzitos da Serra de Caldas são chamados de grupo Paranoá. O tipo de rocha da Serra de Caldas Novas é um e o de Caldas Novas é outro. Aquelas rochas da Serra de Caldas Novas mergulham por baixo de Caldas Novas. Há milhares de anos você tinha um pacote de Quartzitos do Paranoá e um pacote argiloso do Araxá em cima. Tudo foi dobrado em conjunto. Depois foi erodido. A parte de Caldas Novas, que é mais mole, erodiu mais depressa e formou uma depressão maior e a Serra de Caldas Novas ficou destacada. Além do dobramento que existiu naquele domo da serra, tivemos uma erosão em volta, nas rochas do Araxá que são rochas mais moles do que as rochas da serra.


Muitos clubes em Rio Quente e Caldas Novas são procurados por milhares de turistas

Wagner Oliveira - Falamos de um bilhão de anos atrás. E o Cerrado passou por um soerguimento no passado. Como a região de Caldas Novas se comportou nesse soerguimento?

Fábio Haesbaert - Na época da formação das rochas, onde hoje é Caldas Novas, os organismos que existiam eram bem primitivos, as primeiras algas, depois trilobitas... Havia aqui um mar que não sabemos qual era o seu formato, mas sabemos que havia um mar, porque na Serra de Caldas Novas temos o registro fóssil desse ambiente antigo. Você vê dentro do Quartzito marcas de ondas daquele mar. Foi possível conservar a marca antiga porque foram marcadas as areias, a água recuou e, em seguida, veio uma camada de argila que foi tampando, através de um evento rápido, catastrófico ou não. Depois tudo foi metamorfizando, um processo natural em que a areia vai transformando-se em arenito, depois em quartzito. Uma rocha que vai sendo comprimida pela variação de temperatura e pressão, sendo metamorfizada. Os sedimentos foram endurecendo e, como tinham sido protegidos em cima, ficaram sinais ou as marcas de ondas dentro dos Quartzitos da Serra de Caldas Novas, mostrando que tínhamos água aqui há um bilhão de anos. Em todo o Estado de Goiás tínhamos um grande mar e também os crátons. Tinha o cráton do São Francisco, que era uma região muito antiga, com mais de um bilhão de anos. Cratons são blocos de rochas antiguíssimos. Em volta tínhamos água. Toda essa nossa região teve uma grande movimentação para a formação das rochas como o soerguimento, o recuo do mar, a regressão e a transgressão. Ocorrências normais durante os eventos geológicos. A Terra é dinâmica, não podemos esquecer isso. Temos uma crosta terrestre, uma capa de rocha superior que está movimentando numa massa plástica. Não temos capacidade de ver isso. Só sentimos quando ocorre um terremoto no Chile, na região Andina, que é um local de encontro dessas placas. Felizmente o Brasil está em uma região estável. A separação ocorre no meio do Oceano Atlântico. E ali na costa do Oceano Pacífico, nos Andes, ocorre a entrada de uma placa. No Atlântico a placa cresce para a África e para a América do Sul. No Pacífico as rochas estão mergulhando embaixo da América do Sul. Tem um local que abre e um local em que a rocha é consumida. Essa movimentação sempre existe. Vivemos no máximo 100 anos e não temos a percepção dessa evolução geológica de milhares de anos. Sempre teve essas movimentações e toda essa região do Centro Oeste foi formada nesses eventos onde antes havia mar e foi soerguendo. A Serra de Caldas Novas foi um evento pontual e isolado onde também houve um soerguimento.


Wagner Oliveira - Subindo pela Serra de Caldas Nova observei em alguns lugares como se a rocha de hoje esteve antes numa forma líquida e daí sugerir a antiga teoria do vulcão.

Fábio Haesbaert - Não sei onde você viu, mas pode ser os dobramentos. Dentro do próprio metamorfismo você tem a rocha antiga que era uma areinha, uma argila, depois foi dobrada e hoje tem toda aquela feição, como se tivesse sido puxada, devido ao movimento tectônico mesmo.


Fábio mostra origem de rochas de Caldas Novas na Tabela do Tempo Geológico: "As rochas da região de Caldas Novas surgiram nessa época do Pré-Cambriano, de 600 milhões de anos há um bilhão de anos"

Wagner Oliveira - Também para ter ocorrido vulcão uma das evidências seria encontrar pedras de basalto e não foi encontrado.

Fábio Haesbaert - Não encontramos nenhuma rocha vulcânica. Não encontramos nada ligado ao vulcanismo, um evento extrusivo, onde a lava sai, derrete e escorre no chão. A rocha neste caso seria o basalto. Poderíamos ter também um corpo intrusivo tentando sair, sem conseguir, resultando em um tipo de rocha que também é ígnea, em profundidade. E não temos essas rochas.


Cidade repleta de piscinas por todos os lados. Muitas são esvaziadas todos os dias e no próximo dia logo cedo já estão cheias novamente. Muita água termal utilizada. Para isso é importante medir a água da chuva que cai, infiltra e que é vai embora para a via pluvial e rios

Wagner Oliveira - O diamante também é sinal de vulcão. Também não se encontrou nenhum na região?

Fábio Haesbaert - O diamante é uma rocha ígnea, de condição muito especial de formação. Não existe em Caldas Novas, mas há no Triângulo Mineiro, Minas Gerais; Catalão, em Goiás.


Fábio Haesbaert é um especialista que olha e estuda o que há lá em baixo, nas profundezas da Terra, para sabermos viver aqui em cima, em sintonia com o meio ambiente


Wagner Oliveira - No Rio Araguaia, em Baliza, há trabalhadores em balsas que encontram diamantes. Seria evidência de que houve vulcão em alguma época do passado naquela região.

Fábio Haesbaert - Temos durante a formação de Goiás, da região Centro Oeste, essas movimentações. Tivemos vários movimentos tectônicos. Catalão é um evento tectônico. Lá teve um corpo de rocha ígnea que empurrou a região e trouxe muita mineralização. Hoje, no Brasil, procura-se muito diamante nos aluviões, na areia, nos rios. Aquilo foi erodido de algum lugar acima do rio e depositou. É muito difícil no Brasil você encontrar esses corpos originais do diamante. Não se encontrou ainda como você tem na África do Sul. Lá descobriram corpos originais da formação e fazem a mineração em cima daquele corpo. Aqui, procuramos, através de garimpos, nos aluviões.


A água de Caldas Novas fica armazenada em bolsões de rochas. Ao descer vai se mineralizando, passando por rochas fraturadas

Wagner Oliveira - Mas na formação de onde hoje é o Estado de Goiás tivemos vários vulcões e suas cinzas formaram camadas pelo Estado.

Fábio Haesbaert - Tivemos vários. No município de Crixás, por exemplo, temos uma região que chamamos de vulcanosedimentar. Lá temos feições dentro da rocha que chamamos de ‘pillow lavas’. Podemos vê-las preservadas. Numa época que naquela região, em um ambiente dentro de águas, em lagoas, a lava saía muito quente e ia escorrendo. Como resfriava muito rápido ela ficava ali no mesmo local. Então temos feições que parecem bolas de sorvete na rocha. Mas é o magma saindo, resfriando e formando aquelas bolotas que chamam ‘pillow lavas’. Temos muitas feições de vulcanismo em todo o Estado de Goiás.


Por baixo de Caldas Novas há muitas cavernas, mostram pesquisas. Na foto Caverna de Terra Ronca, em Goiás, para imaginarmos como podem ser as cavernas por baixo de Caldas Novas

Wagner Oliveira - E além de Crixás?

Fábio Haesbaert - Temos Catalão que é um corpo ígneo.

Wagner Oliveira - Auguste de Saint-Hilaire veio a Caldas Novas para analisar a água. Como foi essa passagem pelas águas termais?

Fábio Haesbaert - Vários naturalistas vieram a Caldas Novas pesquisar as águas. Auguste de Saint-Hilaire passou aqui em 1818. Veio fazer um trabalho para o governo Imperial. Na época relatou o número de fontes e temperatura de águas, o que é muito interessante. Comparamos agora e vemos que as águas estão nas mesmas temperaturas da época de Auguste de Saint-Hilaire. Ele esteve em Caldas Novas e também em Rio Quente. Ele não poderia fazer mais do que isso - tirar a temperatura e fazer observações visuais. Depois disso vários outros pesquisadores vieram, vários médicos, pessoas de Minas Gerais, que trabalhavam em Araxá. Foram feitos vários estudos detalhados que qualificaram melhor as águas. As águas têm potencial de cura.

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Cavernas são locais muito escuros. Muitas vezes inundadas por água, com rios. Esta foto também é de Terra Ronca já que cavernas por baixo de Caldas Novas estão a cerca de 400 metros de profundidade

Wagner Oliveira - Desde quando Caldas Novas atrai multidões há procura das águas termais?

Fábio Haesbaert - Na Europa água termal atraia multidões desde a época medieval. No Brasil, quando Bartolomeu Bueno passou por aqui, constatou, divulgou e começou a ter o uso. Quem vinha de São Paulo aproveitava a rota ou as pessoas vinham especificamente para ficar tomando banho. Eram os curistas. Desde a época Imperial as pessoas vêm para Caldas Novas. Vinham para se curar. Vinham leprosos, pessoas com problemas de pele, problemas reumáticos e diversas outras doenças.

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Wagner Oliveira - Quando se obteve mais conhecimento científico das águas de Caldas Novas?

Fábio Haesbaert - Depois de Auguste de Saint-Hilaire, por volta de 1818 e até a 1970, tivemos várias intervenções em Caldas Novas para que se conhecessem melhor essas águas. Eram pesquisas em relação ao tipo de água, a qualidade da água, se a água era boa para curar, quais eram as propriedades - para qualificar a água. A partir da década de 70 é que se começou a pesquisar mais cientificamente se era vulcão ou não. Foi quando se descobriu que não tínhamos relação com vulcanismo.


Fábio Haesbaert mostra características de vulcão que não foram encontradas em Caldas Novas. Deveria haver sinais nas rochas como existem até hoje sinais da presença do mar no passado da região

Wagner Oliveira - As águas termais de Caldas Novas estão dentro de um bolsão de rochas?

Fábio Haesbaert - Superficialmente temos uma serra que se destaca e uma planície em volta. Se pensarmos geologicamente, em baixo de Caldas Novas e da Serra de Caldas, temos uma grande depressão, um buraco enorme. Neste buraco, na crosta terrestre, os sedimentos foram depositados e se transformaram em rocha. Essas rochas, que estão dentro dessa grande cavidade, estão intensamente fraturadas, quebradas. As rochas têm grandes rachaduras porque foram muito movimentadas, dobradas e chegaram até a arquear, formando um cocuruto que é a Serra de Caldas Novas. A grande formação de fraturas, que se comunicam entre si, chega a mais de 1000 metros de profundidade. Isso formou um ambiente muito interessante porque permitiu que a água de chuva descesse em profundidades elevadas. A água de chuva cai no terreno e entra no solo. O topo da Serra de Caldas Novas é bem plano. O solo ali funciona como uma esponja que capta a água, absorve e, embaixo do solo, onde há rachaduras na rocha, a água começa a descer lentamente. Nessas fendas a água desce mais rápido em cima e, depois, vai diminuindo a velocidade porque as fraturas fecham um pouco. Outra anomalia que temos em baixo de Caldas Novas são grandes cavidades, como cavernas, há mais de 400 ou 500 metros de profundidade. Há locais de aberturas enormes lá em baixo. Como a crosta terrestre esquenta à medida que se desce para o interior da Terra, a água de chuva, ao descer nas fraturas, vai esquentando, pela troca de calor através do contato com a rocha. Durante a descida a água também vai se mineralizando. Ela vai absorvendo os elementos químicos das rochas por onde passa que são xistos, quartzitos... Vai havendo toda uma troca iônica.


Foto do Google Earth mostra Serra de Caldas Novas por cima. De um lado a cidade de Caldas Novas e do outro a cidade de Rio Quente. Por cima muitos imaginaram que seria a boca de um vulcão, extinto. Mas pesquisas mostraram que o cocuruto é um morro testemunho importante porque absorve as águas da chuva que vão se tornar termais

Wagner Oliveira - E depois de a água descer 1000 metros?

Fábio Haesbaert - Existe toda uma questão da pressão e temperatura envolvida. Existe o movimento convectivo. A água entra na Serra de Caldas Novas e o nível da água lá é muito mais alto do que em Caldas Novas. Depois de atingir os 1000 metros ela sai, por outras fraturas, na cidade de Caldas Novas, na Lagoa de Pirapitinga e no Rio Quente. Em Caldas Novas, quando Auguste de Saint-Hilaire veio aqui, não havia a grande exploração de água que temos hoje. Naquela época havia dezenas de nascentes de água dentro e nas margens do Ribeirão de Caldas Novas. O pessoal tomava banho nas minas de água, surgentes, na margem do rio. Com a perfuração dos poços, já na década de 70 e 80, ocorreu uma superexploração e o nível da água caiu, o que é natural, devido a diminuição da pressão do aquífero.


Fábio gosta de tomar água mineral com gás, mas um gás que é engarrafado no momento em que a água é retirada da natureza

Wagner Oliveira - Há relatos de pessoas que furavam cisternas e encontravam água termal?

Fábio Haesbaert - Não conheço, mas, naquela época, se fosse à beira do Ribeirão, poderia ser encontrada.

Wagner Oliveira - Hoje a água no lençol freático baixou quantos metros?

Fábio Haesbaert - Hoje ainda temos poços jorrantes no Paranoá. Nestes a água ainda sobe 15 metros de altura acima da superfície. Chegou a subir 50 metros acima da superfície nos primeiros poços perfurados. O nível da água chegou a cair mais de 50 metros e, hoje, encontra-se a 25 metros da superfície.


Surpreende quem sobe a Serra de Caldas Novas ver que lá em cima é bem plano. Ocupa o local formações de cerrado que ajudam na infiltração da água que pode levar 1000 anos para sair no Rio Quente ou 2000 anos para sair em Caldas Novas

Wagner Oliveira - Hoje, os poços artesianos atingem quantos metros de profundidade?

Fábio Haesbaert - As perfurações procuram atingir as fraturas, pegar a rocha onde ela está quebrada, para encontrar a água quente. Para ter um bom fluxo de água termal devem atingir mais de 250 metros, até 600 ou 700 metros.

Wagner Oliveira - Mas se parar de chover a água vai abaixando o seu nível.

Fábio Haesbaert - Sim, vai abaixando.

Wagner Oliveira - Temos pesquisadores sugerindo que civilizações podem ter sido extintas por falta de água ou problemas ambientais. Se as chuvas diminuem já percebemos mudanças no meio ambiente. Em viagem de Goiás para a Bahia vemos muitos rios secos em grande parte do ano. O que seria um tempo de falta de chuvas que já daria problema para Caldas Novas?

Fábio Haesbaert - Estamos tratando de águas subterrâneas. As nossas águas levam cerca de 2000 anos para entrar na Serra de Caldas Novas, descer e sair em Caldas Novas e 1000 anos para sair no Rio Quente. As águas do Rio Quente são diferentes das águas de Caldas Novas. Existe uma diferença química e uma diferença de idade. Esses tempos, 1000 e 2000 anos, são muito longos. Para uma análise dos eventos naturais, quando se pensa em águas subterrâneas, você tem de pensar em décadas ou séculos de observação para poder entender como ocorre qualquer interferência em subsuperfície. Não vai ser uma seca de cinco anos que vai fazer a água daqui acabar.

Wagner Oliveira - Mas se novas águas da chuva não infiltrarem no solo vai afetar a quantidade de água que pode ser retirada.

Fábio Haesbaert - Vai afetar lentamente, vai diminuir, mas em cinco anos não vai ocorrer depleção do nível. O mais importante é que antes a natureza tinha um ciclo normal, a água surgia naturalmente. Hoje, fazemos a retirada da água por bombeamento. Foi isso que fez com que a região se desenvolvesse. Houve o progresso, o desenvolvimento do Estado. É um bem da natureza que o homem quer usufruir também. É a questão do uso sustentável.


Em cavernas há estalactites no teto e estalagmites que são formadas a partir das gotas que caem no chão carregando minerais durante milhares, milhões de anos. Essa formação da foto também é de caverna no Parque de Terra Ronca, em Goiás. Serve para imaginarmos como podem ser as cavernas em baixo de Caldas Novas

Wagner Oliveira - Em 1995, o nível da água do lençol freático rebaixou quantos metros?

Fábio Haesbaert - Chegou a rebaixar mais de 50 metros da superfície. Depois disso foram adotadas práticas de controle, como o monitoramento de todos os poços com hidrômetros e cada um tendo uma cota de água para retirar. Existe um monitoramento mensal do aquífero e estamos pesquisando para entender mais. O Projeto de Preservação das Águas termais da Associação das Empresas Mineradoras das Águas Termais de Goiás - Amat é um exemplo disso, para que possamos fazer a modelagem matemática e geológica do Aquífero, como se faz em um campo de petróleo. Em Caldas Novas já temos muita informação. Não temos ao nível da indústria de petróleo. Mas já temos bons trabalhos, o que permite fazer a modelagem do aquífero para poder preservar as águas. O controle dessa água vai ser feito dessa forma. Hoje, sabemos o quanto tiramos de água porque todo poço tem hidrômetro. Sabemos a quantidade de chuva que cai na região porque temos três estações metereológicas medindo todas as condições atmosféricas. Fazemos o monitoramento do nível da água. Junto com isso, e com um conhecimento maior, é que o homem vai conseguindo gerenciar e usar corretamente os recursos naturais. Hoje, o próprio empresariado já tenta conhecer melhor para saber a hora certa de tomar o remédio.


Wagner Oliveira - Depois de 1995 quando a água rebaixou no lençol freático o controle com os hidrômetros fizeram com que ela voltasse a que nível?

Fábio Haesbaert - Ela recuperou cerca de 25 metros. Caldas Novas desde o início da cidade utilizava as águas quentes para abastecimento público. Era natural porque ainda era um povoado onde colocavam as bombinhas e mandavam água termal para as casas. A cidade foi crescendo e continuou usando água das mesmas fontes e, por meio de poços, depois. Até 1996, toda água da cidade foi usada de minas e poços termais. Depois as minas secaram e foram utilizados só os poços. A partir de 1996 foram desativados os poços e feita a captação de água fria no Ribeirão Pirapitinga, que é um ribeirão que passa ao lado da Lagoa Quente, a seis quilômetros da cidade. Essa água, hoje, é tratada. Hoje, todos os poços estão com hidrômetros e começou a ser feito um controle bem rigoroso. Quando foi desativado o último poço, na época da Saneago, que depois se transformou em Demae, em um mês o nível das águas subiu seis metros, demonstrando como era prejudicial para o aquífero o bombeamento de poços para abastecimento da cidade.


Onde hoje há cerrado já existiu um belíssimo mar

Wagner Oliveira - Impacta também se compactamos a cidade, se asfaltamos, cimentamos, fazemos calçadas, prédios porque a água não vai infiltrar normalmente como acontecia no passado em que a região era ocupada somente pela vegetação do Cerrado.

Fábio Haesbaert - Muito. O que você falou é importante e concluiu o que é evidente: o problema do crescimento da cidade. Isto porque além da Serra de Caldas Novas se destacar como principal zona de recarga, nós sempre tivemos nessa parte baixa uma região, recoberta por um cerrado, que permitia também a penetração de água para o aquífero. E tudo isso, hoje, está sendo selado. Caldas Novas tinha de ser uma cidade exemplo em termos ambientais. Tínhamos de ter todo um projeto para melhorar a infiltração na zona urbana. Em termos de controle do esgoto teríamos também de sermos exemplo. Deveríamos ter uma cidade com 100 por cento de saneamento.


Fábio Haesbaert em elevador no prédio em que trabalha mostra ribeirão de Caldas Novas. Houve época com muitas nascentes de águas quentes

Wagner Oliveira - Fossas podem contaminar água no lençol freático.

Fábio Haesbaert - É o nosso país. Hoje, ainda bem que temos uma contrapressão grande do aquífero. Mas não podemos deixar de nos preocupar. No ribeirão onde havia nascentes de água termal temos, hoje, uma água poluída. Por isso os empresários assinaram um Termo de Ajustamento de Conduta - TAC para corrigir alguns problemas. O Ministério Público, em princípio, achava que a água de piscina estava contaminando o Ribeirão de Caldas. Na verdade as águas de piscinas ajudam a diluir a carga de poluentes que caem no ribeirão. Isto porque a cidade cresceu demais e as redes de esgoto não suportam. Há extravasamento e acaba indo para o ribeirão. Temos de evitar isto. Com esse termo de compromisso os mineradores e demais empreendimentos vão melhorar a água, jogando uma água muito limpa no ribeirão. Outra etapa importante é a necessidade de mobilizar a sociedade, poder público e órgãos governamentais para que não deixemos mais haver extravasamento de esgoto, concluindo todo esse controle de poluição dos ribeirões. Hoje, felizmente o aquífero não está afetado, mas são situações de risco que devem ser resolvidas. Não podemos deixar acontecer para tomar providências. A questão da impermeabilização existe e dificulta a penetração de água. E a questão dos poluentes também deve ser levada a sério.


Fábio Haesbaert mostra mudanças que ocorreram na Terra ao longo dos milhões de anos como a deriva continental. E com a região onde há hoje Caldas Novas não foi diferente. Estudar o passado é importante para sabermos como agir no presente

Wagner Oliveira - Outro problema também é o do lixão. Sabemos que em um lixão a penetração de água cria o chorume que é altamente tóxico. Está sendo construído o aterro sanitário e outro avanço é a implantação da coleta seletiva.

Fábio Haesbaert - Sim. Tem de ser feito da melhor forma possível para evitar a penetração. Apesar de que, geologicamente, a área situa-se a norte da cidade, uma região que em princípio não teria grandes influências para o aquífero. Mas desde que seja feita de forma adequada. Já andei lá onde existe o lixão. É uma região muito fraturada. Está em cima da rocha com pouco solo. Tem de ter feita toda uma impermeabilização ali para evitar contaminação.

Wagner Oliveira - Há nascentes próximas?

Fábio Haesbaert - Está na margem de um ribeirão. Toda cidade tem problema de lixo e aqui tem de ser muito bem feito.


Wagner Oliveira - Como o senhor vê a reutilização de água de chuva que cai no telhado, água para recarga. Já que muita água utilizada em Caldas Novas termina na via pluvial, direto para o esgoto sem voltar ao lençol freático local. Assim ficamos sempre dependentes das águas das chuvas que vão cair na Serra de Caldas e levam 1000 ou 2000 anos para voltarem a ser utilizadas. Em relação à recarga, o que poderia ser feito?

Fábio Haesbaert - A recarga artificial tem de ser feita. Toda essa parte de infiltração, ajudando a chuva a penetrar onde já foi impermeabilizado; essa política de captação de água de chuva no telhado, tudo isso já foi discutido aqui na cidade. Fizemos vários testes no bairro Turista 1 com valas de infiltração. Pegamos a água dos telhados dos condomínios e canalizamos para valas de infiltração no solo. Medimos e acompanhamos. A infiltração é muito rápida, muito fácil de fazer neste tipo de solo. Agora também dependemos de uma política, do poder público estar consciente disso e fazer projetos de lei que obriguem os cidadãos e deem incentivos. Em Caldas Novas o Plano Diretor já criou uma zona de proteção hídrica. Existem vários loteamentos em volta da Serra de Caldas que são considerados zona de proteção hídrica. É uma área em que se pode construir em um mínimo do terreno. Há pouco tempo discutimos com um vereador sobre esses loteamentos. Eles queriam que houvesse melhor adequação porque não tinha como construir só em 40 por cento do terreno. Eu disse: então vamos planejar uma forma de obrigar que a pessoa faça a captação corretamente da água de chuva. Não sei se o projeto tramitou. A pessoa que tem um lote naquela região teria de construir valas e fossas de infiltração para que toda a água de chuva entre no terreno. Teríamos de fiscalizar e de ter políticas desse tipo para que já no início fosse feito da forma correta, oferecendo projetos porque ninguém sabe como fazer, apesar de ser uma coisa simples.



Wagner Oliveira - Há risco de a água da piscina ser utilizada na recarga e contaminar o lençol freático?

Fábio Haesbaert - Nenhuma. A natureza já propicia uma filtragem e descontaminação natural dos micro-organismos. Agora não podemos é jogar água diretamente em cima do lençol freático porque pode contaminar. Tudo depende da profundidade. Se tivermos uma camada espessa de solo a água vai infiltrar e, naturalmente, vai se descontaminar. O mesmo ocorre com as fossas sépticas que precisam estar no mínimo há dois metros do lençol freático.



Wagner Oliveira - Se contaminar o lençol freático como se descontamina?

Fábio Haesbaert - É um problema seriíssimo, principalmente quando relacionado à contaminação química. Nós não temos indústrias. Descontaminação de elementos químicos pode levar a vida toda. É complicadíssimo. Países desenvolvidos gastam milhões para tentar minimizar o problema, tentar minimizar a propagação da contaminação.


Praça no Centro de Caldas Novas com fontes artificiais que jorram do chão

Wagner Oliveira - Sugerem pesquisadores que o Aquífero Guarani entre Brasil, Paraguai, Uruguaia e Argentina tem várias partes contaminadas e um dos fatores é o não tratamento adequado do lixo.

Fábio Haesbaert - O Aquífero Guarani é muito grande. Há muitos compartimentos. Geologicamente não é um “panelão” que vai daqui até lá. Pontualmente ele pode ter contaminação. Não podemos é generalizar.



Água potável termal no Caldas Termas Clube

Wagner Oliveira - Onde hoje temos o Estado de Goiás foi, no passado geológico, região de mar, gelo, e deserto.

Fábio Haesbaert - Você resumiu tudo. Tivemos a época que aqui foi mar, fazes de gelo com glaciações no globo todo. Tivemos épocas de secas. O mar já teve inundações homéricas, degelo, fases de grandes inundações, de grandes secas.


Experimentei depois de propaganda de vários turistas que disseram ser boa para o sistema digestivo

Wagner Oliveira - Essas fases repetem-se na história geológica da Terra.

Fábio Haesbaert - Muitas vezes. Temos aqui neste gráfico o tempo geológico da Terra de quase 4,5 bilhões de anos. Aqui temos desde o Arqueano na formação da Terra. Essas são as rochas mais antigas que temos. E também organismos mais antigos. As rochas da região de Caldas Novas surgiram nessa época do Pré-Cambriano, de 600 milhões de anos a um bilhão de anos atrás.

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2 comentários:

  1. cove acha que a pocibilidade e o vulcao entra em errupisao

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  2. Se existe uma forma de reaproveitamento das águas utilizadas nas piscinas os hotéis deverias ser obrigados a financiar este investimento juntamente com quem comercializa a fonte termal.

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