07/12/2008

PARQUE DE PIRENEUS

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A beleza do cerrado que lembra as savanas africanas. Várias formações fisionômicas com campos limpos, campos sujos, veredas, cerrado Strictu sensus, matas de galerias e campos rupestres no Parque de Pireneus


Pôr-do-sol no Parque de Pireneus atrai muitos turistas

O Parque Estadual dos Pireneus foi criado em 1987 com objetivo básico de preservação de ecossistemas naturais de grande relevância ecológica e beleza cênica e tem hoje uma área de 2.833 hectares. Ele possibilita a realização de pesquisas científicas e o desenvolvimento de atividades de educação e interpretação ambiental, recreação em contato com a natureza e turismo ecológico. Está localizado entre os municípios de Pirenópolis, Corumbá de Goiás e Cocalzinho e o órgão responsável pela gestão é a Secretaria Estadual do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos - Semarh. Tem altitudes que variam de 1.100 a 1.320 metros, com ponto culminante de 1.385 metros no Pico dos Pireneus. O Acesso é por meio das cidades de Pirenópolis (18 km) e Cocalzinho (7 km). Está a 120 quilômetros de Goiânia e 150 de Brasília.


"O ser humano só muda
com educação ambiental"


Nenon Pereira Folha completa em janeiro de 2009 dois anos na gestão do Parque Estadual de Pireneus. Ele lembra que durante este período buscou melhorar as vias internas do parque, conseguiu coibir várias formas de vandalismo com diálogo e conscientização ao invés de repressão. Antes de gerir o parque, Nenon Folha trabalhou no Núcleo de Educação Ambiental da antiga Agência Ambiental e levou para sua administração a mesma filosofia do seu trabalho em palestras em escolas e universidades de Goiás. Assim, muitas vezes foi visto no parque vestindo colete verde da Educação Ambiental. Além disso, continua realizando suas palestras para estudantes e turistas que visitam o local. Nenon e José Francisco apresentaram os principais pontos do parque aos educadores ambientais Odália Machado e Wagner Oliveira. Leia entrevista a Wagner Oliveira na sede do Parque Estadual de Pireneus.

"O ser humano só muda de comportamento e de atitude de espírito por meio da educação ambiental. E ela é importante não só no Parque de Pireneus, mas começa em casa"


Wagner Oliveira - Por que educação ambiental é importante no Parque de Pireneus?

Nenon - Porque o ser humano só muda de comportamento e de atitude de espírito por meio da educação ambiental. E ela é importante não só no Parque de Pireneus, mas começa em casa. Você começa a ter essa mudança quando começa a agregar valores aos recursos naturais. Educação ambiental não é fácil porque quem tem de mudar sou eu. Está escrito no artigo 225 da Constituição Federal que todos têm direito a um meio ambiente ecologicamente equilibrado. Mas para que aconteça isso eu tenho de mudar. Por isso precisamos da educação ambiental.

Wagner Oliveira - O que o Parque de Pireneus tem a oferecer para os turistas?

Nenon - Ele é rico em formação e monumentos naturais, cachoeiras, plantas medicinais, fauna e flora típicas do cerrado.

Wagner Oliveira - Estou ouvindo uma seriema cantando. Há muitos animais aqui. Há onças?

Nenon - Com certeza. Temos visto rasto de onça suçuarana, onça-preta e outros animais como seriema, ema, veado campeiro, tamanduá-bandeira, tatu-china, tatu-galinha, capivara, várias famílias de macacos, várias espécies de gaviões.

Entrada do Parque a partir de Pirenópolis

Wagner Oliveira - Quem são os pesquisadores que fazem trabalhos aqui e quais resultados interessantes já podemos citar?

Nenon - São biólogos e geólogos. Temos recebido várias turmas da Universidade Estadual de Goiás - UEG, Universidade Federal de Goiás – UFG, Universidade de Brasília - UnB e também de outras escolas particulares que ministram cursos, fazem pesquisas. Não temos resultados em mãos, mas a importância das pesquisas está em estar catalogando para cuidarmos, preservarmos e levarmos a informação a outros alunos e outras entidades que procuram o parque.

“já está provado por geólogos e outros estudiosos que fazem pesquisas que no passado tudo isso aqui era submerso”




Morro do cabeludo: um dos cartões postais do parque

"Temos feito um trabalho muito sério no sentido de proibir que as pessoas levem qualquer tipo de produtos ou espécies para casa ou que retire do lugar onde está"

Wagner Oliveira - Quais comprovações existem no Parque de Pireneus de que o cerrado já foi fundo de mar?

Nenon - Várias características nas formações rochosas dentro do parque que indicam que aqui no passado foi mar. Isso já está provado por geólogos e outros estudiosos que fazem pesquisas que no passado tudo isso aqui era submerso.

Wagner Oliveira - O sr. também conhece bem o cerrado e quando recebe turistas acaba fazendo um trabalho de guia. O que podemos falar sobre as espécies vegetais existentes no Parque de Pireneus?

Nenon - Temos caju, mangaba, pequi, mamacadela, bacupari. E várias espécies são endêmicas e típicas dessa região.

"Uma vez tirada a cobertura vegetal do cerrado vai levar uns 30 anos para ela regenerar"

Wagner Oliveira - Destruir o cerrado afeta essas espécies.

Nenon - Se destruir a vegetação típica do cerrado essas espécies vão desaparecer. Uma vez tirada a cobertura vegetal do cerrado vai levar uns 30 anos para ela regenerar. Por isso temos de cuidar dessas riquezas do cerrado.


Wagner Oliveira - O que o turista não pode fazer no parque?

Nenon - Há áreas que não podem ser visitadas a não ser para realização de pesquisas. Temos feito um trabalho de monitoramento dessas áreas para que elas não sejam degradadas por pessoas. Não é permitido esporte radical com jipeiros, motocross e até cavalgada. Som automotivo, bebidas e animais domésticos também são proibidos. Trabalhamos de acordo com as normas do plano de manejo e ele não permite. O Sistema Nacional de Unidades de Conservação – SNUC também prevê essas restrições.


Wagner Oliveira - O sr. já observa mudanças de comportamento de quem visita o parque? Hoje há mais conscientização? Há bons resultados obtidos a partir do trabalho de educação ambiental realizado no parque?
Nenon - Com certeza. Temos mantido uma presença constante no parque, conversando, informando o que pode o que não pode. Por que temos de preservar o parque e as espécies. E já observo mudanças de comportamento


Odália Machado e Nenon Folha no Pico de Pireneus: 1385 metros de altitude. Ao fundo o Morro do Cabeludo

Wagner Oliveira - Quais são os maiores desafios hoje do Parque de Pireneus?

Nenon - Temos vários. O primeiro é cercar o parque. Embora não impeça a ação de vândalos, mas pode minimizar. Estamos também lutando para a construção do Centro de Visitação do Parque de Pireneus. É onde vamos catalogar as informações que vão estar à disposição dos visitantes.

Wagner Oliveira - O que o turista ou visitante tem de fazer para ter acesso ao parque?

Nenon - Em Pirenópolis temos o Centro de Atendimento ao Turista – CAT, guias, todas as informações sobre as áreas de visitações dentro do parque. Estamos lutando para que o plano de manejo seja aprovado, mas o parque já está aberto à visitação. Há várias áreas e monumentos que podem ser visitados por turistas e pela comunidade dos três municípios que formam o parque: Pirenópolis, Cocalzinho e Corumbá de Goiás.


Várias nascentes dentro do parque mantêm viva a flora, a fauna e juntam-se a rios que correm para outros Estados brasileiros


Wagner Oliveira - A água que cai no Pico de Pireneus a 1.385 metros de altitude em relação ao nível do mar corre para três bacias hidrográficas no Brasil.

Nenon - Aqui é um divisor de águas. O parque tem importância relevante nesse sentido. Uma parte da água que caí e vai para a Bacia do rio Corumbá, caí no Rio São Francisco, Rio do Prata, que abastece Paraguaia, Uruguai e Argentina. Temos também a Bacia do Rio das Almas que leva para a Bacia Amazônica. Ainda temos a Bacia do Rio Maranhão que leva para o Rio Tocantins que, posteriormente, vai estar abastecendo a Bacia Amazônica. São três bacias importantes com nascentes no Parque de Pireneus.

Wagner Oliveira - Que tipos de fisionomias do Cerrado existem no Parque de Pireneus além do campo rupestre que ocorre em locais de mais de 900 metros de altitude?

Nenon - Tem o campo limpo e veredas, locais onde há espécies de arnica, o cerrado alto, as matas de galerias que regulam a temperatura e abriga a fauna e a flora existente dentro do parque. E nos campos limpos ocorre muito o chuveirinho ou Paepalanthus que é muito bonito.


Rochas quartiziticas enormes que seriam trituradas em pedreiras foram preservadas com a criação do Parque de Pireneus. Muitas lembram formas de pessoas ou de animais como a Pedra do Rei, Família Peri, Pedra da Tartaruga, Calango e outras

Wagner Oliveira - As canelas de ema também ocorrem em altitudes e aqui no parque podemos vê-las em vários locais. E elas resistem às queimadas.

Nenon - O cerrado está adaptado a essa interferência e várias espécies só brotam após o fogo. Fogo de 15 minutos e temperatura de cerca de 600 graus. Há espécies que precisam desse calor para levar um choque térmico para nascer. Há plantas que só lançam a flor após o fogo. Apesar de lutarmos para que o cerrado não seja queimado ele está adaptado para esses tipos de interferências

Estudos apontam que desgastes nas rochas foram feitos por animais aquáticos que se alimentavam na rocha. Daí a conclusão de que as rochas estiveram um dia no fundo do mar. Mares rasos no coração do Brasil onde hoje é cerrado


Wagner Oliveira - Foi fotografada aqui no Parque de Pireneus águia chilena. Veio migrando do Chile? Como está essa águia hoje?

Nenon - Têm cerca de dois metros da ponta de uma asa a outra. O lugar aqui é bem propício para que ela se reproduza. Mas é uma ave muito arisca que não gosta da presença de ser humano. Por isso temos áreas dentro do parque com restrições a visitação.

Wagner Oliveira - Há no Parque nascentes que não secam mesmo depois do período chuvoso.

Nenon - Notamos nisso a importância do cerrado. Ele funciona como uma esponja. Recebe água e dispensa o excesso. Essas nascentes são de águas que estão armazenadas e ficam correndo de acordo com temperatura.


Foram construídas guaritas e reformado o posto fiscal


Wagner Oliveira - Dentro do Parque de Pireneus há lugares ainda pouco conhecidos que o sr. já visitou?

Nenon - Há vários pontos que podem ser trabalhados de acordo com o plano de manejo para que as pessoas tenham acesso como cachoeiras, pedras, cavernas, monumentos e vários outros locais importantes, mas que ainda não há acesso.



Administração do Parque de Pireneus

"Precisamos preservar justamente para que seja feito trabalho de educação ambiental, de pesquisa de universidades, órgãos governamentais e não governamentais"

Festa religiosa anual no Pico de Pireneus. Em cima do pico uma capela dedicada à Santíssima Trindade


Educadora ambiental Rossana Gehler mostra um pequeno pé de mangaba: renovação do cerrado


Wagner Oliveira - O Parque de Pireneus abriga hoje uma riqueza de informações da história do cerrado e até da própria formação da Terra.

Nenon - Exatamente.

Odália Machado, José Francisco, Nenon Folha, Wagner Oliveira, Rossana e Fernando Madueño na sede do Parque de Pireneus


"Apesar de lutarmos para que o cerrado não seja queimado ele está adaptado para esses tipos de interferências"


Combate a queimada em 2007


Wagner Oliveira - Há rochas enormes de dezenas, centenas de toneladas ou muito mais que são grandes atrativos para turistas e o que podemos perceber é que em algum momento da história geológica elas se movimentaram. Há cientistas pesquisando essas rochas? Já se sabe como elas se movimentaram, partiram-se?

Nenon - Na minha opinião pode ser uma movimentação de solo, terremoto, divisão de continentes que ocorreu tudo isso. São fatos que precisam ser pesquisados com mais profundidade para darmos informação mais precisa. Precisamos preservar justamente para que seja feito trabalho de educação ambiental, de pesquisa de universidades, órgãos governamentais e não governamentais.


Equipe de bombeiros, servidores da Semarh e voluntários no combate a queimadas


Fenômeno interessante: depois de uma queimada em 2007 o cerrado ressurgindo das cinzas


Wagner Oliveira - Corriola é hoje uma fruta rara encontrada no Parque de Pireneus. Mas vi também a gabiroba, mangaba e muito mais de potencial frutífero dentro do parque.

Nenon - Com certeza. E essa grande quantidade de frutas tem a ver com o trabalho que desenvolvemos no sentido de coibir a coleta dessas frutas até porque é proibida a coleta de frutas dentro de unidade de conservação. Temos feito um trabalho muito sério no sentido de proibir que as pessoas levem qualquer tipo de produtos ou espécies para casa ou que retire do lugar onde está.


Muro construído por escravos. As fazendas foram desapropriadas para a construção do parque e ficaram a história. Mais um ponto turístico poderá surgir


Wagner Oliveira - Existe no Parque de Pireneus até o guaranazinho do Cerrado?

Nenon - Com certeza. É uma espécie típica do cerrado, só ocorre no cerrado. Pouca conhecida por pessoas que visitam o parque.


Para conhecer mirantes é preciso passar por pequenas cavernas entre rochas. Mas compensa ao vermos uma vista de altura semelhante a de um prédio de 14 andares

Wagner Oliveira - Já tive o prazer de experimentar a uvinha do cerrado em Reserva Particular do Patrimônio Natural – RPPN, em Serranópolis. Uma delícia. Aqui temos também o angelim?

Nenon - Não consumido por humanos, mas os animais se alimentam do angelim. Roedores endêmicos do cerrado se alimentam do angelim, gabiroba, bacupari, pequi, tucum, outros tipos de cocos servem de alimentação para a fauna.


Nascentes dentro do Parque de Pireneus: águas cristalinas que correm para várias bacias hidrográficas


Normas para visitação do

Parque Estadual dos Pireneus:

1 – Número máximo de 20 pessoas por trilha.

2 – Proibida a entrada e consumo de bebidas alcoólicas sob pena de multa e apreensão do veículo e condutor.

3 – Proibido o uso de quaisquer tipo de arma dentro da área do parque.

4 – Veículos serão revistados na entrada e saída do parque.

5 – Condutor de quaisquer espécie da fauna ou flora silvestre será advertido por crime ambiental.

6 – Não é permitido o uso de fogo dentro e fora do parque.

7 – Proibida a extração ou coleta de quaisquer espécies de plantas ou animais silvestres sem autorização do órgão gestor.

8 – O recolhimento do lixo é de inteira responsabilidade daquele que o originou, devendo o mesmo deixá-lo nos pontos de coletas ou na guarita de entrada do parque.

9 – A supervisão do parque não será responsável por quaisquer objetos esquecidos, perdidos ou danificados no interior do parque, inclusive veículos.

10 – Não será permitida a permanência de pessoas no período noturno; exceto com justificativa ou autorização do órgão gestor.

11 – Proibido o uso de som de quaisquer natureza.

12 – Não será permitida a visitação pública nas áreas intangíveis ou de refúgio de vida silvestre.

13 – Não será permitida a entrada de animais domésticos


Comentários para: computador31@yahoo.com.br

Comentário 1:

Prezado companheiro Wagner. Conhecemo-nos no Congea e no SABC, quando solicitei de você alguns exemplares da cartilha de meio ambiente (pintura). Lembra disto?

Acho seu trabalho muito importante. Mas este do Parque dos Pireneus é formidável, que belo parque.

Pois bem, não conheço este parque. Como seria possível visitar o parque e percorrer estes locais que você mostra nos slides? Será que em um dia daria para ver tudo isto? Caso não seja possível, qual é o procedimento? Pois tenho artigo que relata sobre a importância dos parques (todos de Goiás) na conservação e preservação do Cerrado goiano.


É possível pernoitar no parque sobre autorização? Desejaria muito conhecer este parque, pois ouço falar muito do mesmo. Como manter contato com o gestor do parque, Sr. Nenon Folha?


Fico no aguardo de resposta e estou a seu dispor.

Obrigado.

Professor Ms. Agostinho C. Campos

Universidade Católica de Goiás - UCG


Resposta: enviada ao remetente


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Comentário 2:


Wagner,


Adicionei seu Blog aqui, na minha lista de Blogs, porque o assunto é muito interessante. Visitei seu Blog e fiquei feliz em saber que a Revista Cerrado está com uma versão on-line. É uma Revista muito boa.

Eu tenho um exemplar há alguns anos e, de certa forma, foi a leitura da Revista que me incentivou a pesquisar mais sobre o assunto e criar o Blog.

Então, só tenho a agradecer a você e ao Sidney pelo importante trabalho realizado para a publicação da Revista Cerrado.

Grata,

Iliana

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