06/03/2009


A Mata Atlântica

que resiste em Goiás

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O Parque Estadual da Mata Atlântica em Goiás está a 247 quilômetros de Goiânia, no município de Água Limpa, próximo da divisa com Minas Gerais, banhado em grande trecho não pelo Oceano Atlântico, mas pelas águas azuis do lago de Corumbá. Ele foi criado pelo decreto 6.442 de 12 de abril de 2006, tem hoje 210 hectares. É gerido pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos - Semarh. A mata está ao longo do rio e acima do nível mais alto alcançado pelas águas durante o período de cheia. A distância entre a água e a mata na foto mostra período de estiagem que vai de abril a outubro.

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De um lado a Mata Atlântica de Goiás. No meio o lago de Corumbá e ao lado e ao fundo serras que moldam o caminho percorrido pelas águas. Uma área dentro de Goiás que não tem o pequi ou piqui nem sucupira que são típicas do cerrado. Mas tem peroba, jatobá, angico, ingá, mutamba, coite, tamboril, bingueiro, jequitibá, guapeva, jenipapo e palmito jussara. Muitas árvores de porte grande, muitas árvores de mata no meio do cerrado goiano.

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“Em 20 de agosto de 2004 foi dado o primeiro passo para salvar os últimos remanescentes da Floresta Estacional Semidecidual em Goiás com realização de audiência pública na cidade de Água Limpa. O objetivo foi o de ouvir a comunidade sobre a criação do Parque Estadual da Mata Atlântica.

Estudos mostraram que se tratava de um dos últimos resquícios de cobertura vegetal densa com características fisionômicas que, segundo o Mapa de Vegetação do Brasil (IBGE, 1998) está inserido nos Domínios da Mata Atlântica, do tipo Floresta Estacional Semidecidual.

A área proposta possui cobertura vegetal densa, com árvores retilíneas, altas e de copa robusta. Na lista preliminar de espécies consta a ocorrência de peroba rosa (com até 60 metros de altura), angico preto ou rajado, angico amarelo, jequitibá ou bingueiro, garapa, bálsamo, aroeira, guatambu, cedro, camisa fina, carne-de-vaca, maria-pobre ou sabugueiro, pau-sangue, palmito doce, espeteiro, arco-de-pipa, mamica-de-porca, pau jangada, gueroba, bacuri, carrapateira, marinheiro ou mango, folha-de-bolo ou pereiro, jaracatiá ou mamãozinho, jatobás, ipê amarelo, ipê roxo, jerivá, embaúba, corticeira, figueiras e outras espécies.

(Trecho extraído do Boletim Ambiental – Agência Goiana do Meio Ambiente – 2004 – 2005)”


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"A fauna é bastante rica em espécies raras e ameaçadas de extinção como onças, antas, lobos, catetos, macacos, tucanos, marrecos, curicacas, gaviões, carcarás, garças brancas, perdizes. Apesar da agressão que tem sofrido é possível encontrar mata primitiva e em intensa regeneração.

De acordo com dados da Fundação S.O.S Mata Atlântica e do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) existiam em Goiás originalmente mais de 1.151.268 (um milhão cento e cinqüenta e um mil e duzentos e sessenta e oito hectares) desta tipologia florestal.

A ação do homem causou uma intensa eliminação desta cobertura natural. Em 1995, restaram apenas 3.161 hectares, equivalentes a apenas 0,27% da cobertura original. Estes remanescentes encontram-se distribuídos isoladamente em alguns municípios na região do Rio Paranaíba, na divisa com Minas Gerais. Por se tratar de terras férteis a pressão antrópica sobre a vegetação primitiva é muito grande. Daí a importância de se criar Unidades de Conservação com o objetivo de preservar esta riqueza natural.

(Trecho extraído do Boletim Ambiental – Agência Goiana do Meio Ambiente – 2004 – 2005)”

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“Quando os navegadores europeus chegaram ao Brasil, em 1500, a Mata Atlântica cobria aproximadamente 1 milhão de quilômetros quadrados do território brasileiro, o que correspondia a 12% da área do país. Após 505 anos de ocupação, a mata que encantou os colonizadores serviu de cenário para os ciclos do pau-brasil, da cana-de-açúcar, do ouro e do café, forneceu matéria-prima para a construção de cidades e para o desenvolvimento da nova nação, foi reduzida quase pela metade. Hoje, ocupa cerca de 7% do território nacional e está restrita a corredores de vegetação concentrados, basicamente, no Sul e Sudeste do Brasil.

Mas o Centro-Oeste também guarda uma porção da Mata-Atlântica. Essa “ilha” verde, que abriga espécies da fauna e da flora do que já foi uma das mais importantes florestas do continente, localiza-se no município goiano de Água Limpa e foi transformada em Parque Estadual da Mata Atlântica em Goiás.

(Boletim Ambiental – Abril a junho de 2005 – Agência Goiana do Meio Ambiente – Secretaria do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos).”


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Sede do Parque Estadual da Mata Atlântica em Goiás.

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Sede do Parque Estadual da Mata Atlântica em Goiás, veículos utilizados na manutenção e fiscalização da área e uma das entradas do lago de Corumbá IV que se formou em toda a extensão do rio com a formação de barragens para geração de energia elétrica.

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"A criação do parque, proposta pela Agência Ambiental de Goiás (Hoje Semarh), foi aprovada por unanimidade na 42ª reunião do Conselho Estadual do Meio Ambiente (Cemam).

Estudos revelaram que parte da porção goiana da Mata Atlântica já sofreu os efeitos da devastação, um processo de degradação agravado principalmente nos últimos 20 anos, depois que a região passou a ser ocupada de forma mais rápida. Porém, a natureza conseguiu driblar algumas agressões sofridas e a vegetação se regenerou.

(Boletim Ambiental – Abril a junho de 2005 – Agência Goiana do Meio Ambiente – Secretaria do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos).”


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Área em regeneração. Depois de ser ocupada por muitos anos por fazendas, hoje áreas que foram incorporadas ou já fazem parte do Parque Estadual da Mata Atlântica estão em regeneração. Daqui a alguns anos a mata será bem maior, voltando às suas características originais dentro da área. Sempre há perda de gens, como diz o doutor em botânica Heleno Dias (entrevista abaixo). Mas a natureza se recupera quando o homem deixa de agredi-la.

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Para abraçar esta peroba de centenas de anos é preciso dois homens. Para chegar a esse local percorre-se trecho do Lago de Corumbá de lancha ou canoa e entra em trilha dentro da mata. Mas as trilhas não estão bem definidas porque o parque estadual não está ainda aberto à visitação pública. Recebe apenas pesquisadores ou é percorrido pelos funcionários da Semarh que fazem trabalho de fiscalização e cuidam da área preservada.

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Horizonte azul nas águas do Lago de Corumbá do Parque Estadual da Mata Atlântica em Goiás. Lago também com muitos peixes, cardumes que são vistos movimentando as águas.

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Educadora ambiental da Semarh Odália Machado e o piloteiro e servidor também do órgão Gentil em trecho do lago Corumbá que dá acesso a trilhas na Mata Atlântica com perobas centenárias e refúgios de animais silvestres.

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Capivaras e seus filhotes buscam refúgio na Mata Atlântica em Goiás. Com a preservação da área os animais encontraram local para se refugiarem e procriarem. A cada dia está mais fácil ver a multiplicação da fauna que há alguns anos estava muito dispersa com a ocupação humana.

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Turista normalmente quer ver bicho. Não adianta ter só árvores. Fauna, flora, água, peixes são essenciais para o equilíbrio dos ecossistemas e colírio para olhos de quem admira a natureza. Os parques, reservas, áreas de acesso restrito a humanos tem importância muito grande na continuidade da vida silvestre, no equilíbrio do clima, na formação das chuvas, no ciclo das águas. Principalmente diante da grande transformação do meio ambiente com o impacto humano. Essas áreas são essenciais e merecem ser ampliadas em cada parte do mundo.

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Durante perído de chuvas e cheia a partir de janeiro e fevereiro essa parte toda fica submersa. A água chega até às árvores.

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A grande pedra no caminho fica numa das trilhas que dá acesso a trechos da Mata Atlãntica com grandes ávores. Local também onde vivem maiores predadores como a onça e seus predados como capivara, queixada e outros animais. Pelas trilhas observa-se pegadas de onças, porcos do mato, ou fezes de animais silvestres.

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Parte do ano com gramíneas e parte do ano área submersa.

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Neste local um predador se alimentou de uma ave. Ficaram somente as penas. Bem próximo sinais de pegadas de onças e fezes de outros animais como catitu. Pelas trilhas é possível ver ainda macacos-prego, seriemas e emas. Em um local com muitas pedras avistamos seriemas. Elas são vistas nesses locais em busca de comida. E seriema come cobra que vive em locais com pedras.

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Na natureza os alimentos existem na quantidade certa para manter a viodiversidade. Enquanto uns estão maduros outros estão a caminho. Mas a fauna também está adaptada para buscar seu alimento. Uma arara canindé por exemplo recolhe um coco sem nem mesmo pousar. Voando ela retira o coco e busca um local para abri-lo. O bico é muito forte. Se o macaco não tem bico tem habilidade e a capacidade de utilizar uma pedra para quebrá-lo. Assim, na mata tem frutos o ano todo e aves e animais se alimentam enquanto dispersam sementes.

ENTREVISTA:


GREIDE RIBEIRO


"Tinha trator preparado

para desmatar a área"


O superintendente de fiscalização da Semarh participou da criação de vários parques no Estado de Goiás contribuindo na escolha de áreas mais relevantes. Ele conta que ao chegar ao local encontrou um trator já preparado para desmatar toda a área.


Como foi a criação do Parque Estadual da Mata Atlântica?

Greide Ribeiro - Termo de compensação de multa feito para a Usina de Cachoeira Dourada por falta de licenciamento. Recursos foram destinados para criar uma unidade naquela região que não tinha. De uma fitofisionomia única no Estado naquela região. Foi criado um grupo de estudos para avaliar áreas dentro da área de domínio de Mata Atlântica que pudesse ser criada essa unidade. De sete áreas aquela foi a escolhida em função de ter maior quantidade de remanescentes.

Pegada de onça na areia. O animal sai da mata para tomar água em minas d'água e deixa pegadas na areia.


Muitos desconhecem que há Mata Atlântica em Goiás.

Greide Ribeiro - O estudo foi feito pelo IBGE, mapa de vegetação de 1977. Região dentro do Estado de Goiás que é considerada por decreto de domínio de Mata Atlântica desde 1994 e regulamentada em 1996.

Capivara e filhotes na Fazenda San Francisco no Pantanal do Mato Grosso. Cena que também pode ser vista na Mata Atlântica em Goiás.


Qual o potencial desse parque?

Greide Ribeiro - São dos últimos remanescentes de Mata Atlântica em Goiás. Existe menos de 3% desses remanescentes e o local é um achado muito grande. Quando cheguei ao local para visitar a área já existia o trator para desmatamento. Foi impedido o desmatamento e criada a Unidade de Conservação.

O parque ainda não está aberto à visitação.

Greide Ribeiro - Hoje ele ainda não está implantado na realidade. Existe um decreto de criação e a necessidade de desapropriação de mais propriedades. O pagamento só não foi feito porque existe a falta de documentação por parte dos proprietários. Assim que for definido vamos estar quitando para que faça na região um completo parque.

A onça pintada foi fotografada na Fazenda San Francisco, no Pantanal do Mato Grosso. Mas várias vezes animal semelhante também foi visto no Parque da Mata Atlântica de Goiás. Mateiros contam que se encontrar uma onça em seu caminho não vire as costas para ela. Pare, não faça movimentos bruscos, não ameace o animal. Afaste do animal de frente para ele. O servidor da Semarh no Parque da Mata Atlântica Gentil diz que ficou por vários minutos observando um animal desses até que pode se afastar com segurança. Gentil tem de percorrer longos trechos diariamente conferindo como está o parque. A onça não o atacou.


O parque tem uma rica fauna. Vimos capivaras e filhotes, seriemas, fezes de outros animais e pegadas de onças.

Greide Ribeiro - A fauna há dois anos estava muito dispersa e fugindo. Com o isolamento da área os animais se sentiram abrigados e refugiados e a cada dia está mais fácil visualizar esses animais.

A visitação do Parque Estadual da Mata Atlântica será aberta ao público?

Greide Ribeiro - O plano de manejo é que vai definir isso. Depois do parque todo indenizado será criado o plano de manejo e serão definidas quais áreas de visitação e quanto tempo poderá ficar sem visitar. Mas logicamente o parque será aberto à visitação depois do plano de manejo.

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Servidores da Semarh que trabalham no Parque da Mata Atlântica e os educadores ambientais Odália Machado e Wagner Oliveira.

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De uma área de preservação nada se deve levar. Nem pedra, nem fruto, nem planta nem peixe. Pior ainda se os peixes são pescados com material proibido por lei. Em Goiás é proibida a pesca com rede, tarrafa, pinda, espinhel. A pesca é permitida com licença obtida na Semarh de Goiás fora do período da piracema e somente com vara, desde que o pescado esteja dentro dos tamanhos mínimos permitidos. Na foto o material apreendido com pescadores ilegais no lago Corumbá. Surpreendido pela fiscalização o pescador ilegal pode ter material predatório apreendido, pagar multa e até responder processo. Redes que custaram centenas ou muito mais do que mil reais são destruídas posteriormente.

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Servidores da Semarh cuidam e fiscalizam o Parque Estadual da Mata Atlântica. Percorrem diariamente trechos observando se não há ameaças como caçadores, pescadores ou invasores.

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Detalhe nas cores que atraem as aves, que servem de alimento, que ajudam na dispersão de sementes. Adaptações da natureza que sempre chamam a atenção.

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Ao visitar várias reservas, parques estaduais ou parques nacionais tive de dormir em lugares com muitos insetos, cobras, aves e até predadores maiores. Ao acordar no Parque Nacional das Emas fiquei encantado com a diversidade de aves cantando na alvorada. No Parque Estadual de Caldas Novas acordei todos os dias com o canto de seriemas. Várias e em vários pontos do parque. Mas na Mata Atlântica em Goiás foi possível observar a quantidade de insetos. Besouros que eu nunca tinha visto, insetos de formas e cores diferentes e muito interessantes. O exemplo da diversidade biológica possível com a preservação da mata. Presas e predadores em equilíbrio. O que não seria possível com a transformação do meio ambiente em apenas lavouras.

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Do outro lado do Lago de Corumbá estão fazendas e o impacto ambiental é grande. Muitas transformaram a mata em lavouras, pastagens ou apenas áreas nuas. As árvores ficam esparsas no horizonte, os animais não encontram refúgio, o solo desprotegido fica vulnerável à erosões, não retêm a mesma quantidade de água, é lavado e levado para dentro do lago. O impacto ambiental em áreas fora do parque é muito grande. Com desmatamento nas fazendas a fauna não resiste e migra para outras regiões em busca de comida. Muitos, ao atravessarem as estradas, são atropelados. Espécies rumo a extinção e interferência no equilíbrio ecológico. As consequências não poderão ser boas mesmo.

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Abaixo, reprodução de Parte da Introdução do Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica 2000 – 2005 publicado por SOS Mata Atlântica e INPE.

1. INTRODUÇÃO

A Mata Atlântica é um complexo e exuberante conjunto de ecossistemas de grande importância por abrigar uma parcela significativa da diversidade biológica do Brasil, reconhecida nacional e internacionalmente no meio científico. Lamentavelmente, é também um dos biomas mais ameaçados do mundo devido às constantes agressões ou ameaças de destruição dos habitats nas suas variadas tipologias e ecossistemas associados.


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Distribuída ao longo da costa atlântica do país, atingindo áreas da Argentina e do Paraguai na região sudeste, a Mata Atlântica abrangia originalmente mais de 1.300.000 km² no território brasileiro. Seus limites originais contemplavam áreas em 17 Estados, (PI, CE, RN, PE, PB, SE, AL, BA, ES, MG, GO, RJ, MS, SP, PR, SC e RS), o que correspondia a aproximadamente 15% do Brasil, segundo os limites da Mata Atlântica gerados de acordo com o Decreto Federal 750/93 sobre o Mapa de Vegetação do Brasil (IBGE, 1993) e Lei 11428/06, que dispõe sobre a utilização e proteção da vegetação nativa do Bioma Mata Atlântica.


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Nessa extensa área, vive atualmente mais de 67% da população brasileira, ou seja, com base no Censo Populacional 2007 do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, são mais de 120 milhões de habitantes em mais de 3.400 municípios, que correspondem a 61% dos existentes no Brasil. Destes, 2.528 municípios possuem a totalidade dos seus territórios no bioma, conforme dados extraídos da malha municipal do IBGE (2005).

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O alto grau de interferência na Mata Atlântica é conhecido. Desde o início da colonização européia, com a ocupação dos primeiros espaços territoriais próximos à região costeira e a exploração do pau-brasil - árvore da qual era extraída uma tintura muito utilizada pela indústria têxtil na época - muita matéria-prima passou a ser explorada. Os impactos dos diferentes ciclos de exploração vieram, como o do ouro, o da cana-de-açúcar e, posteriormente, o do café. Novos ciclos econômicos, de desenvolvimento e de integração nacional surgiram e instalou-se de vez um processo de industrialização e, conseqüentemente, de urbanização, com as principais cidades e metrópoles brasileiras assentadas hoje na área originalmente ocupada pela Mata Atlântica, que fizeram com que sua vegetação natural fosse reduzida drasticamente.

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A dinâmica da destruição foi mais acentuada nas últimas três décadas, resultando em alterações severas para os ecossistemas pela alta fragmentação do habitat e perda de sua biodiversidade. O resultado atual é a perda quase total das florestas originais intactas e a contínua devastação dos remanescentes florestais existentes, que coloca a Mata Atlântica em péssima posição de destaque no mundo: como um dos conjuntos de ecossistemas mais ameaçados de extinção.


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Apesar disso, a riqueza em biodiversidade pontual é tão significativa que o recorde mundial de diversidade botânica para plantas lenhosas foi registrado na Mata Atlântica, com 454 espécies em um único hectare do sul da Bahia, sem contar as cerca de 20 mil espécies de plantas vasculares, das quais aproximadamente 6 mil restritas ao bioma.

As estimativas da fauna da Mata Atlântica também surpreendem quando indicam 250 espécies de mamíferos (55 deles endêmicos, ou seja, que só ocorrem nessa região), 340 de anfíbios (90 endêmicos), 1.023 de aves (188 endêmicas), 350 de peixes (133 endêmicas) e 197 de répteis (60 endêmicos) (MMA/SBF, 2002). Por outro lado, das 633 espécies de animais ameaçadas de extinção no Brasil, 383 ocorrem nesse bioma.

Para destacar sua importância no cenário nacional e internacional, trechos significativos deste conjunto de ecossistemas foram reconhecidos como Patrimônio Mundial pela ONU e indicados como Sítios Naturais do Patrimônio Mundial e Reserva da Biosfera da Mata Atlântica pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). Além disso, é considerada Patrimônio Nacional na Constituição Federal de 1988.


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Inúmeros são os benefícios, diretos e indiretos, que a Mata Atlântica proporciona aos habitantes que vivem em seus domínios. Para citar alguns, protege e regula o fluxo de mananciais hídricos, que abastecem as principais metrópoles e cidades brasileiras, e controla o clima. Além disso, é garantia de qualidade de vida e bem estar, abriga rica e enorme biodiversidade e preserva um inestimável patrimônio histórico e várias comunidades indígenas, caiçaras, ribeirinhas e quilombolas, que constituem a genuína identidade cultural do Brasil.


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ENTREVISTA BOTÂNICO

Dr. HELENO DIAS FERREIRA

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Dr. Heleno Dias com o pau-brasil no Campus II da Universidade Federal de Goiás

"Reservas mantem


biodiversidade


intocável"


Heleno Dias Ferreira é mestre em biologia vegetal, doutor em biologia molecular e chefe do Departamento de Botânica da Universidade Federal de Goiás - UFG. Dedicado pesquisador do cerrado, fala nesta entrevista também sobre a Mata Atlântica em Goiás.

Qual a importância do Parque Estadual da Mata Atlântica?

Heleno Dias - É uma unidade de conservação que está preservada, bonita. É exuberante. Há espécies vegetais que ocorrem nas formações de Mata Atlântica. Fizemos a visita com um professor do Rio de Janeiro que conhece bem a Mata Atlântica. Já pensei em fazer um levantamento lá de estudo comparativo. A Mata Atlântica era vasta, entrou por Goiás e agora é que só estão as manchas no leste e sudeste de Goiás. Provavelmente matas do mato grosso goiano também devem ser extensão da Mata Atlântica.

O Senhor sobrevoou a mata atlântica em Goiás com outros pesquisadores. O que foi possível observar, qual a impressão?

Heleno Dias - A preservação, a exuberância e o porte das árvores. São de grande porte e bonitas. Foi também importante a caminhada com o professor (em 2004, diretor técnico do Jardim Botânico do Rio de Janeiro) Aroldo Lima. Identificamos as plantas que são características de Mata Atlântica.


Temos várias matas dentro de Goiânia, no zoológico, jardim Botânico, Mutirama. Por que não se pode considerar também remanescentes de Mata Atlântica?

Heleno Dias - O importante é fazer estudo comparativo. Comparar espécies da Mata Atlântica e espécies do cerrado para ver se estatisticamente pode se definir que são também Mata Atlântica, que penetraram aqui.

Há ipês na Mata Atlântica e aqui nessas pequenas matas de Goiás.

Heleno Dias - Encontramos várias espécies como o bingueiro, cedro. É preciso fazer um estudo comparativo porque aqui seria uma periferia da Mata Atlântica.

Hoje apenas cerca de 3% de Mata Atlântica preservada em Goiás. O que significa isso?

Heleno Dias - É uma perda genética muito grande. Gens que perdemos e não vamos recuperar nunca mais. Perda para o país, para o mundo. Um banco genético destruído. Há também a questão dos produtos metabólicos secundários: os alcalóides, trepenóides, flavonóides e outros. Podem ter alguns princípios úteis para combater determinados tipos de doenças, vírus, bactérias ou fungos. E ainda a importância ecológica, ambiental e climática com a ocorrência de desmatamentos exagerados.


Guapeva da Mata Atlântica em Goiás


No Parque Estadual da Mata Atlântica pode ter espécie vegetal endêmica?

Heleno Dias - É possível. Mas é preciso fazer estudo para se comprovar. É preciso fazer um levantamento florístico. O que precisa ser feito também com o Jardim Botânico. A UFG faz o levantamento da flora de Goiás e do Estado do Tocantins. Uma parte do Departamento de Botânica é formada por taxonomistas.

O Senhor fez algum trabalho de coleta na Mata Atlântica?

Heleno Dias - Não. Só uma visita.


Pode ser feito um trabalho lá de coleta?

Heleno Dias - Tem de ser feito um levantamento lá. Desenvolver um projeto, conseguir apoio do Estado já que é uma reserva estadual. Descobrir quais professores estão interessados em fazer esse levantamento. Estamos fazendo o levantamento da flora de Goiás e do Tocantins. O Parque Estadual da Mata Atlântica é mais uma razão por ser uma extensão de uma das formações da Mata Atlântica. Precisamos dirigir estudos intensificados naquela direção.


A vegetação está ficando restrita a parques e reservas ambientais e nem sempre os animais ficam restritos a esses locais. Qual é o impacto para a vegetação?

Heleno Dias - Os animais são dispersores de sementes para futuras plantas. A vegetação também não vai poder expandir, fica ilhada. Outro problema é que por ser rodeada por fazendas em que os fazendeiros usam agrotóxicos que podem ser encaminhados para as reservas, o que pode afetar os polinizadores, comprometer a frutificação. Conseqüentemente não tendo frutos pode comprometer a fauna, principalmente que se alimentam de frutos. Pode afetar aves, morcegos frutíferos. Ecólogos precisam estudar essas reservas, ilhas, fazer estudos para conhecer o impacto desse tipo de ambiente.


Mesmo com essas observações, é importante a criação desses parques, de reservas?

Heleno Dias - As reservas são importantes e é preciso criar mais reservas. E onde se mantém a biodiversidade intocável. Proteger para que sigam seu destino. Elas são muito importantes.


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Heleno Dias Ferreira foca seu trabalho no cerrado que abraça a Mata Atlântica em Goiás: "É preciso fazer pesquisas para conhecer o cerrado e a Mata Atlântica. Para isso é preciso parceria com o Estado"

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O parque da Mata


Atlântica é realidade


Por Osmar Pires *


O Parque da Mata Atlântica é hoje uma realidade em Goiás. Quando estive na presidência da Agência Ambiental, no período de janeiro de 2003 a maio de 2006, fiz da implantação do parque uma bandeira, por saber que a preservação dos remanescentes dos domínios da Mata Atlântica no Cerrado goiano são um passo decisivo para a manutenção de um dos mais importantes e ameaçados biomas brasileiros. No Cerrado goiano existe um resquício de mata com as características da que outrora ocupou não só a costa brasileira, mas também boa parte do continente interno do País. A Mata Atlântica cobria uma área aproximada de 1,4 milhão de km2 apenas no Brasil, ao longo da costa brasileira do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul. O bioma possui diversos ecossistemas, sendo que mais de 75% de sua área era formada por florestas ombrófilas densas ou mistas na faixa costeira e florestas estacionais decíduas e semidecíduas de interior, a oeste das florestas ombrófilas.

A Mata Atlântica possui ecossistemas associados com enclaves de campos rupestres, caatingas, matas secas xeromórficas, cerrados, mangues e restingas. É uma das unidades biogeográficas mais singulares da América do Sul, separada da Floresta Amazônica, pela caatinga e pelo Cerrado, bem como das Florestas Andinas, pelo Chaco. Esse isolamento resultou na evolução de uma biota única e diversificada, com numerosas espécies endêmicas, considerada um dos hotspots mundiais, que abriga 1 a 8% da biodiversidade global. Hoje, os domínios da Mata Atlântica estão restritos a 7-8% das formações originais. As florestas de interior são constituídas pelas florestas estacionais decíduas ou matas sulinas de araucárias ou pinheiros-do-Paraná e pelas florestas estacionais semidecíduas, de ocorrência no Planalto Central, como no sul do Estado de Goiás, na bacia do Paranaíba. Hoje as Florestas de Interior cobrem apenas 3% e, em Goiás, somente 0,27% da área original.

A destruição da Mata Atlântica expressa e sintetiza todo o processo de desenvolvimento econômico predatório do País, desde a colonização com a exploração desordenada da madeira, passando pelo desmatamento para o plantio da cana-de-açúcar, a atividade mineradora em São Paulo, Minas Gerais e Goiás, a expansão da fronteira agrícola e dos núcleos urbanos e a superexploração da indústria madeireira. Basta lembrar que o bioma ainda respondia, na década de 70, por metade da produção de madeira em toras no Brasil; que a monocultura com plantações homogêneas de pinheiros exóticos e eucaliptos para a produção de celulose e papel continua pressionando a formação nativa; e que, mais recentemente, o cultivo de soja segue o mesmo caminho de conversão do bioma.

A Mata Atlântica em Goiás pode ainda causar surpresa a algumas pessoas, pois a mídia tem falado muito apenas do Cerrado, mas está cientificamente comprovado que os quase mil hectares de extensão do parque que foi inaugurado em definitivo na sexta-feira passada, no município de Água Limpa, na região sudeste do Estado, tem mesmo tudo a ver com a Mata Atlântica. E nós goianos demos um importante passo para que este bioma continue a existir para as futuras gerações. E me incluo de corpo e alma dentro desta luta, afinal, para criar este parque tive que, primeiro, convencer alguns técnicos da possibilidade daquela reserva ser comprovadamente um remanescente da Mata Atlântica original.

Para tanto, em 2004, o diretor técnico do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, dr. Haroldo Lima, atestou in loco a tese levantada por mim. Através de uma consultoria que teve também a participação de técnicos da Agência Ambiental e dos botânicos José Ângelo Rizzo e Heleno Dias Ferreira, da UFG, veio o diagnóstico: a mata em questão, situada entre o Rio Corumbá e o Rio Piracanjuba, na foz do Rio Paranaíba, é mesmo o que sobrou dos domínios de um bioma muito rico que também já existiu por aqui. Portanto, esta jóia natural, de rara beleza, é um presente que guarda em seu seio o que há de mais precioso: jatobás, perobas-rosa e cedros, espécies da flora nativa ameaçada de extinção. A fauna local exibe animais raros e ameaçados, como onça-pintada, veado-mateiro e urubu-rei, além de um riquíssimo manancial hídrico formado por lagos, rios e riachos.

Gueiroba na competição por luz entre várias outras espécies típicas da Mata Atlântica. O palmito também é uma espécie encontrada na Mata Atlântica em Goiás.

O segundo desafio foi a implementação do projeto na região de terras mais caras do Estado. O mecanismo adotado foi a da conversão de multas em projetos de proteção, recuperação e melhoria da qualidade ambiental, previsto no artigo 72 da Lei nº 9.605/98. A Usina de Cachoeira Dourada funcionava sem a devida licença ambiental desde a década de 50. Mesmo com a privatização da empresa, em 1995, para a Endesa que atua em mais de 40 países, a pendência ambiental permanecia. A situação só começou a ser de fato resolvida quando determinei a interdição da usina de geração hidrelétrica em 2003, com base na Lei nº 6.938/81e na Lei nº 8.544/78. A notícia deste fato repercutiu na Europa, levantando a contradição: como pode uma corporação que na Europa possui Certificado de Qualidade Ambiental, mas, no Brasil, atua sem a licença ambiental? Para resolver o problema, o presidente do conglomerado, Francisco Bugalho, veio pessoalmente a Goiás, coisa que não o fez nem quando a Cachoeira Dourada foi adquirida.

Naquele momento, tive a oportunidade de propor ao presidente da empresa a solução do problema: a obtenção definitiva da licença ambiental e a quitação do passivo ambiental para com o meio ambiente do Estado e do País. Propus à Endesa a implantação do Parque da Mata Atlântica, através do Programa de Apoio a Ações Ambientais (P3A), criado pela Agência Goiana do Meio Ambiente em 2003. Hoje, a usina está licenciada, depois de meio século de funcionamento, e o Parque está implantado, estruturado, com sede própria, totalmente cercado e com sua situação fundiária resolvida. Todos os fazendeiros receberam em dinheiro e à vista a indenização das suas terras, pelo preço justo de mercado, a partir de avaliador oficial e juramentado.

A região onde está inserido este parque ganhou não somente um presente, mas, sobretudo, um impulso em seu desenvolvimento. Basta saber usá-lo de maneira sustentável, preservando a beleza natural e extraindo dela um fator de geração de renda para a comunidade, através de projetos eco-turísticos que aproveitem todo o seu potencial econômico e proporcionem melhor qualidade de vida para todos.


* Osmar Pires Martins Júnior é biólogo, engenheiro agrônomo, mestre em Ecologia, doutorando em Ciências Ambientais, membro-fundador da cadeira 21 da Academia Goianiense de Letras e professor de cursos de graduação da UNIP e de pós-graduação da UCG/CEEN. Na época da publicação deste texto, em 2006, era presidente da Agência Ambiental de Goiás.

Artigo publicado em 18-07-2006 no site:
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COMENTÁRIOS:

Oi Wagner,

Tentei acessar sua página, por algum motivo ela abre e fecha de imediato, meu computador alega incompatibilidade de programas. Bom, vamos iniciar nossa programação de resgate de reservas legais e APPs ao longo do Rio Paranaiba. De início vamos trabalhar ao longo das Usinas Hidrelétricas de Cachoeira Dourada e Itumbiara. Faz parte do Prolegal. Em breve estaremos consolidando nossas estratégias com foco na Mata Atlântica goiana.

Ary Soares
Superintendente do IBAMA em Goiás
Em 8 de março de 2009

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RESPOSTA AO COMENTÁRIO:

Oi Ary,
Parece que o Internet Explorer está dando problema de vez enquando. Tentei entrar pelo mesmo link que te enviei e também deu problema. Mas se copiar e colar o link na barra do Internet Explorer pode dar certo nesses momentos.
Link:
ou então visualizar pelo Google Crhome que é outro navegar semelhante ao Internet Explorer. Uso esse navegador:
A página requer também o Flash para ver os vídeos. Caso não tenha este programa instalado, a última versão no Superdownload para baixar grátis está neste link:
Abraço.
Wagner.

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Um comentário:

  1. E a Região Central de Goiás (mato grosso goiano)?
    Nerópolis / Ouro Verde / Petrolina de Goiás / São Francisco de Goiás / São Luiz dos Montes Belos / Anicuns... uma região bem grande...
    Vegetação: Cedro, Tucum, Palmito, Bacuri, Jatobá etc... nada de cerrado, acho que falta muito estudo ainda sobre a vegetação de Goiás.

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