24/12/10

Gota d’água no calcário
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Belezas e mistérios do importante complexo espeleológico do Parque Estadual Terra Ronca


Terra Ronca é um parque misterioso que protege desde peixes cegos ao mais temido predador das Américas, a onça. Para conhecê-lo é preciso não só percorrer as paisagens como também entrar literalmente dentro da Terra. São várias cavernas esculpidas por rios no calcário com formações moldadas durante milhares ou milhões de anos desde que a região era banhada pelo mar. O mar se afastou, o bioma cerrado prevaleceu e dentro da terra muitas vias são conhecidas por aqueles que se aventuram pelo subterrâneo. Nessa reportagem vamos ver os travertinos, as cortinas, as pocinhas do bagre cego, as pérolas que nascem em cima de côncavo estalagmite e as colunas formadas por gotinhas impregnadas por calcário que pingam por milhares ou milhões de anos. Um mundo encantador constantemente no escuro e só revelado para quem projeta nele luz.


Belos travertinos nas cavernas do Parque Estadual de Terra Ronca


ENTREVISTA/REGINA BEATRIZ SCHULZ

“Prefiro o verde a

mata fantasmagórica”


A supervisora do Parque Terra Ronca Regina Beatriz Schulz acompanhou desde 1998 várias pesquisas e observou de perto o comportamento de animais, aves e a recuperação natural da vegetação. Com mais verde voltaram os animais e a vida se multiplica. Terra Ronca é o nome da caverna mais visitada e mais próxima da estrada – Cerca de 300 metros. Dela veio o nome para o Parque Terra Ronca que protege hoje várias outras cavernas. Na região existia muita aroeira e um dos nomes inicialmente sugeridos foi Parque das Aroeiras. Leia abaixo entrevista em que Regina Schulz conta sua experiência de vida dentro de uma grande área hoje preservada, seu encontro com onça, lobos guará e como é o trabalho de educação ambiental que realiza com estudantes de povoados próximos.


Estalagtites formadas por gotinhas d'água que escorrem com calcário por milhares ou milhões de anos


Entrada da Caverna Terra Ronca vista da ponte


EAemGoiás - O que o turista pode ver no Parque Terra Ronca?

Regina Schulz - A maioria dos turistas querem ver cavernas por ser um parque famoso pelo tamanho e grandiosidade das cavernas, considerado o maior complexo espeleológico da América Latina. Tentamos mostrar também cachoeiras, trilhas e veredas porque geralmente são jovens que gostam de esporte de aventura. Vêm para fazer rapel, mas ficam sabendo que não é permitido. Queremos diversificar o turismo.


Aracnídeos com patas extendidas são encontrados dentro de cavernas. As patas maiores ajudam no seu deslocamento sempre no escuro


EAemGoiás - Quais são as cavernas que há dentro do parque?

Regina Schulz - São várias. Mas abertas para o turismo são Angélica, Terra Ronca e São Bernardo. Existem também São Vicente, Couro Danta, Passa Três e outras só abertas para pesquisa. São Mateus foi considerada a mais bonita do mundo em levantamento feito na Sociedade Brasileira de Espeleologia – SBE mas não está aberta ao turismo.


Entrada da Caverna Terra Ronca


EAemGoiás - Por que São Mateus foi considerada a mais bonita do mundo?
Regina Schulz - Por causa dos espeleotemas. Ela tem 21 quilômetros de extensão. Acredito que ninguém tenha ido ao total dela porque a um certo ponto afunila e é impossível passar. Tem um guia que diz que já passou, mas acredito que ele está enganado. Os espeleotemas são muito bonitos, muito raros e temos medo de prejudicá-los com turistas entrando. Já se cogitou colocar uma grade na boca da caverna, que é bem pequena, para evitar o turismo. Para se chegar ao local é preciso deixar o carro a mais de dois quilômetros. Ao entrar é preciso escorregar uma dolina de 200 metros. Literalmente entramos para dentro da terra.

Até cachoeira dentro de caverna no Parque Estadual de Terra Ronca

EAemGoiás - Tem um rio que corre dentro da caverna São Mateus?


Regina Schulz - Quase todas têm rios internos. Cavernas Angélica, Terra Ronca, São Bernardo, São Vicente e São Mateus têm rios.


Bagre cego são peixes descobertos em cavernas. Foto do Sestas mostra bem um deles encontrado em caverna no Parque Estadual de Terra Ronca

EAemGoiás - Por estar dirigindo o parque você pesquisou sobre a origem, formação da região. O que descobriu?


Regina Schulz - Geólogos que trabalharam aqui desde o começo do parque dizem que toda essa área foi fundo de mar há cerca de 600 milhões de anos. Por isso foram formadas as cavernas, o Morro do Moleque que temos em São Domingos. É muito interessante porque até hoje encontramos na região grandes búzios, uma espécie de concha. Pesquisadores acreditam e seus estudos mostram que tudo aqui era mar e essa formação rochosa se deve ao mar que existiu.


Terra ronca é uma caverna bem grande que continua sendo esculpida. Há centenas ou milhares de anos atrás o nível do chão da caverna era mais em cima.

EAemGoiás - Como é a freqüência de pesquisadores no Parque de Terra Ronca?


Regina Schulz - Há pesquisadores que frequentam o parque há mais de 10 anos. Fizeram curso superior, mestrado, doutorado e agora estão formando seus alunos dentro do parque. Temos muitos alunos da Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), de Curitiba, de Brasília que estudam a ave pirrura, que só tem aqui (endêmica), de Flores até Arraias. Ela ficou sem ser vista por cerca de 70 anos e depois foi observada dentro do Parque de Terra Ronca. Temos um professor que faz doutorado nos Estados Unidos que estuda ela e todo ano fica 15, 20 dias fazendo acompanhamento da pirrura. Já tivemos pesquisadores italianos, alemães. As pesquisadoras da Universidade de São Paulo – USP, Eleonora Trajano e Maria Elina, estudam a vida dos bagres cegos das cavernas. Um pesquisador faz estudo de como surgiram esses peixinhos, de onde vieram e como estão vivendo nas cavernas.

Várias cavernas têm quilômetros de extensão e dezenas de metros de altura. e Normalmente no seu interior correm rios


Área húmida, em Goiás, e ao fundo a Serra Geral, na Bahia

EAemGoiás – Elas encontraram bagres cegos em quais cavernas?


Regina Schulz - Na Angélica, e na São Bernardo encontraram uma galeria nova com mais de um quilômetro de extensão. Em cima da galeria há muitos desses peixes. Estudam também nas cavernas Passa Três e São Vicente.


Vista de quem está por cima da entrada da Caverna Terra Ronca ou cerca de 100 metros de altura

EAemGoiás - Com tantas pesquisas realizadas dentro do Parque de Terra Ronca qual mais surpreendeu a senhora?


Regina Schulz - Várias. Uma delas sobre aranhas caranguejeiras. Eu tinha muito medo e depois que fizemos um seminário e conversamos com pesquisador não deixo mais matá-las. Elas comem insetos, são super higiênicas, não fazem mal a ninguém como acreditávamos. Várias pesquisas me surpreendem.


Há muitos detalhes para serem observados dentro de uma caverna. Há quem chama essas formações de "couve-flor"


EAemGoiás - Qual tipo de pesquisa também poderia ser feita e seria muito importante para o parque de Terra Ronca?


Regina Schulz - A maioria dos pesquisadores são biólogos. Seria muito importante termos pesquisadores geólogos estudando a formação calcária para termos mais informações sobre as cavernas, rochas, solos. Todos os chuveiros das casas dentro do parque dão choque em quem toma banho. Há mais de dez anos tentamos resolver esse problema e não conseguimos. Acredita-se que é por causa do calcário no solo. Gostaria de saber realmente como esse parque foi formado, como surgiram tantas cavernas, como surgiram as rochas do Parque de Terra Ronca. Temos de formar nova geração de guias e queremos passar esse conhecimento para os guias repassarem aos turistas.


Pela foto da para ter noção do tamanho da entrada da Caverna Angélica


A ousadia dos inúmeros estalactites

EAemGoiás - Acordei cinco horas da manhã e fui fazer trilha dentro do Parque de Terra Ronca. Vi a alvorada, o canto de dezenas de espécies de aves. Mas em certo momento ouvi o que acredito serem esturros de onças. Há muitas onças no parque?


Regina Schulz - Existiam muitas. A quantidade está aumentando novamente. Com o desmatamento em cima da Serra Geral, que já é Bahia, as onças estão procurando refúgio dentro da área do parque porque a mata voltou a crescer. Temos relatos de muitas onças no passado que podem ter sido mortas por criadores de gado em propriedades particulares. Há vários relatos de onças e, inclusive, uma delas parida próximo da sede do parque.


Entrada da Caverna Angélica

EAemGoiás - Estamos a cerca de 50 metros de onde ela teve suas crias.


Regina Schulz - Um vaqueiro da fazenda ao lado viu que uma onça estava com dois filhotes. Ela encontrou no parque refúgio, água e comida por causa da quantidade de animais como caititus. Ao fazer caminhada vejo de perto caititus, veados, tamanduás e outros animais.


Há vários locais abertos ao turista fora do Parque de Terra Ronca com hotéis e áreas de camping bem próximos de rios e de cavernas

EAemGoiás - No momento desta entrevista estamos ouvindo o canto de seriemas.


Regina Schulz - Há muitas seriemas, raposas, pássaros-preto. A população de gaviões cresceu muito e estão cada vez mais se aproximando da sede. Há muitos pica-paus da cabeça vermelha e cabeça amarela. Mas tive o privilégio de observar pica-pau da cabeça branca que é menor e nunca tínhamos visto.

Há horas do dia para se fazer a melhor foto do local. Cada caverna tem seu horário


Algumas cavernas tem entradas fáceis. Outras não são tão fáceis assim e é preciso até descer com cordas de dezenas de metros e passar por locais muito estreitos

EAemGoiás - Há estudo de ornitólogos realizados no Parque de Terra Ronca?


Regina Schulz - Só de um que veio para fazer o plano de manejo há 10 anos. Tenho certeza de que já cresceu muito, já diversificou a população de aves. Não sobrevoavam o parque araras, tucanos e agora tenho notado essas revoadas. Antes da criação do parque o caseiro plantava roça e matava muitas aves, não tinha a quantidade de hoje. Aqui há gameleira e dois pés de manga que as aves adoram. Só sobram o talinho e o caroço. Tem a pitomba que é uma frutinha que as aves gostam muito. Estão vindo para cá porque estão encontrando comida, refúgio e também porque a mata está alta. Quando pesquisadores do zoológico começaram a estudar a pirrura elas só existiam na boca das cavernas. Agora já voam por todo o parque.


Uma boa luz revela interior de cavernas do Parque Estadual de Terra Ronca

EAemGoiás - Além de supervisora do parque você também desenvolve trabalho de educação ambiental para populações da região. Como é esse trabalho?


Regina Schulz - Foco muito nas crianças. Acredito que cada vez mais a população está consciente da questão do meio ambiente. Quando jovem eu brincava que ia ser fiscal da natureza. Acabei sendo fiscal da natureza. Não é para punir ninguém, não é para multar, é para realmente educar e conscientizar as crianças de que se não mudarem, não ajudarem os pais mudarem o conceito que têm hoje, quando chegar a vez deles não vão ter mais nada. E está surgindo efeito. Um senhor falou que estava com raiva de mim porque fui à escola do filho dele e dei aula de educação ambiental. Ele diz que agora tudo que vai fazer, como pegar areia dentro do rio ou cortar uma madeira, o filho diz que ele não pode fazer porque quando chegar a vez do filho não haverá mata, o rio estará seco... “Estou com raiva da senhora porque estou com vergonha do meu filho”, disse o senhor. Falei que ele poderia ter raiva de mim, mas o filho dele está chamando à atenção para um problema que está evidente porque se não tomarmos uma providência não vai resolver. É isso que tento passar para as crianças, para elas terem amor a natureza, cuidado para termos essa natureza no futuro. Explico para elas de uma forma bem simples o problema do aquecimento global, das queimadas, do lixo. É tão bonito quando eles devolvem os cartazes, fazem os quadros. Faço até concurso. Vejo o amor e o tanto que eles prestam à atenção. Agora estou atingindo nas escolas os adolescentes.


Estalactite descendo do teto da caverna. Talvez mais alguns milhões de anos para chegar ao chão

EAemGoiás – Foi difícil estruturar o parque? Como foi o início?


Regina Schulz - Terra Ronca foi criado para proteger as cavernas. Tanto que inicialmente só tinha 14 mil hectares porque estavam focando só proteger as bocas das cavernas. Depois chegaram à conclusão de que não adiantava só proteger as bocas das cavernas. Tinha de proteger um espaço maior para nada de ruim chegar. Então passou de 14 para 40 mil hectares. Depois com outros problemas técnicos e também visando proteger o pé da serra, onde há a maioria das nascentes, Terra Ronca passou a ter 57 mil hectares. Em 1989, o governador Henrique Santillo fez a criação do parque, mas não estabeleceu limites. Em 1996, ele foi delimitado durante o governo de Maguito Vilela. A partir daí começamos o trabalho no parque e foi um trabalho muito difícil porque as pessoas não nos aceitavam. Corri muitos riscos, várias vezes fui ameaçada. Mas aos poucos fomos conquistando as pessoas e a confiança delas. Hoje, não sei te dizer o número de afilhados que tenho, de casamentos que fui madrinha.


Foto com maior tempo de exposição revela interior de caverna

EAemGoiás - Queimadas ameaçam muito o parque Terra Ronca?


Regina Schulz - O problema da queimada é muito grande. Em 2008, até não queimou muito porque em 2007 queimou bastante. Foram 18 homens contratados para não deixar a sede ser queimada pelo fogo que Chegou até a cerca. Fiquei uma noite toda de domingo colocando contra-fogo. Ficamos um ano sem uma grande queimada, mas depois elas ocorrem porque vai juntando material de fácil combustão como capim.


Para conhecer as cavernas é preciso entrar literalmente dentro da Terra e enfrentar o escuro

EAemGoiás - Por que educação ambiental dentro de um parque de preservação?


Regina Schulz - Educação ambiental é importante em qualquer lugar. Mas aqui é muito importante por causa da população que há na região. Educação ambiental é importante em qualquer lugar com os turistas, mas tem de ser constante. Já melhoraram bastante. Já viraram ‘meus fiscais’ em potencial que nada que acontece dentro do parque fica sem avisarem. Educação ambiental é fundamental dentro do parque, nas proximidades e na Área de Proteção Ambiental - APA. O parque de Terra Ronca tem 57 mil hectares, mas a APA de Serra Geral tem 60 mil hectares. E o que divide o parque da APA é só uma estrada de 30 metros. Há também o município de Guarani onde faço educação ambiental e que é muito importante por ter várias nascentes de rios.


EAemGoiás - A senhora pode fazer um paralelo das conquistas de educação ambiental com crianças e adultos da região?


Regina Schulz - Com os mais antigos foi difícil porque foram criados e sempre viveram jogando lixo em qualquer lugar, pondo fogo. Era normal chegar a uma casa e observar que o quintal estava cheio de lata de óleo, garrafa, chinelo, botina. Hoje, melhorou oitenta por cento a limpeza dos quintais. O lixo nas estradas melhorou sessenta por cento. Em trilha a gente não vê lixo há muito tempo. Na entrada das cavernas de visitação já melhorou 90 por cento. É raro ver lixo grande na boca das cavernas. Agora o que mais surpreende, o que mais melhorou é o lixo da Festa da Lapa, que acontece na primeira semana de agosto, a partir do dia seis, quando se comemora o dia do Bom Jesus da Lapa. É uma festa tradicional de mais de século que as pessoas vêm para rezar. O lixo reduziu consideravelmente. Não se vê latinha jogada, elas são disputadas. No primeiro ano da festa de Terra Ronca que participei, em 1996, foram recolhidos três caminhões cheios de lixo. Hoje, um caminhão é suficiente. Atualmente recolhem-se apenas espetos, copos, tampinhas de garrafa. Lata não é mais lixo. Antes da formação do parque a festa ocorria na boca da caverna. Montavam as barracas, faziam as festas e no final todos iam embora e ficava quantidade enorme de lixo com restos de comida que atraia urubus. Depois as palhas utilizadas nas barracas secavam e alguém acabava pondo fogo. Hoje, a festa é mais distante da boca da caverna, tem apoio da prefeitura que disponibiliza coletadores de lixo. A festa termina no dia 6 e no dia 8 ou 9 não há mais resquícios.

Guia Alziro Vieira apresentando detalhes das cavernas do Parque de Terra Ronca

EAemGoiás - Qual a melhor época para visitar Terra Ronca?


Regina Schulz - Maio e junho porque ainda está verdinho e não há perigo de chuva. Há pesquisadores, botânicos, que dizem ser agosto e setembro, quando está bem seco, a chamada mata fantasmagórica, não há perigo de chuvas e os rios estão baixos. Acho mais bonito o verde de maio e junho.

Parece um bolo mas é uma formação dentro da Caverna São Bernardo

EAemGoiás - No período chuvoso a água do Terra Ronca sobe muito.


Regina Schulz - Sobe muito. Se chover na serra é muito perigoso. Cavernas Angélica, São Bernardo e Terra Ronca ficam perigosas. Angélica é mais perigosa ainda do que Terra Ronca.


Amanhecendo dentro do Parque Estadual de Terra Ronca. Acordei bem cedo para captar essas imagens da neblina

EAemGoiás - É arriscado estar dentro da caverna, a chuva cair e o nível do rio subir.


Regina Schulz - É muito arriscado. Os guias têm consciência disso porque já tivemos problemas com guias e espeleólogos que tiveram de subir para salões bem altos até a água abaixar. Pessoas já ficaram presas na caverna São Mateus por causa de chuva. Há lugar com opção, outros não.


Essa formação é chamada de Louro José, lembrando o papagaio do programa de TV da apresentadora Ana Maria Braga

EAemGoiás - Qual o melhor horário para entrar em caverna?


Regina Schulz - Época que chove à tarde é melhor entrar na parte da manhã. Na parte da tarde já se torna perigoso. Às vezes chove só na boca da caverna e não há tanto perigo. Mas, se chover na cabeceira do rio, o perigo pode ser fatal porque a água sobe numa rapidez impressionante.



EAemGoiás - Há botânicos fazendo pesquisa em Terra Ronca?


Regina Schulz - Já tivemos.


Detalhes da estalagmite esculpida no escuro da Caverna São Bernardo

EAemGoiás - Botânicos da Universidade Federal de Goiás?


Regina Schulz - Fico muito triste. Pesquisadores de Goiás não vêm. Há pesquisadores da Alemanha - por meio de intercâmbio com a Universidade de São Paulo, Romênia, África, Índia e de vários outros países. Mas de Goiás não tenho. Tive um professor geógrafo da Universidade Católica de Goiás que está estudando a bacia do Rio São Vicente e diz que ele não deixa nada a desejar em relação ao Gran Cânion dos Estados Unidos. Goiás tem riquezas naturais e não tem pesquisadores.


Essa formação só foi possível porque pode ocorrer durante milhares ou milhões de anos sem a interferência antrópica. O que deve continuar com os novos visitantes do local. Se o turista retirar algo da caverna ou não tiver cuidado ao fazer uma visita ao local pode causar impacto ambiental, destruir uma coluna milenar dessas. Para visitar uma caverna então é preciso primeiro ter consciência do que faz.

EAemGoiás - É possível ver esse cânion?


Regina Schulz - Tem de ir pela Bahia, entrar por uma fazenda. É local de nascentes.


Quando os estalactites se encontram com os estalagmites formam colunas

EAemGoiás - Qual o tamanho dele?


Regina Schulz - É enorme. Ele atravessa a caverna de São Vicente que é totalmente fechada. Nela só podem entrar espeleólogos experimentadíssimos porque há cachoeira de até 30 metros no seu interior. É preciso ter 500 metros de corda. O cânion sai da beira da serra, entra na caverna, sai da caverna, passa em um povoado, depois vai até o Rio São Domingos. Tem grande extensão.


Cada caverna tem seus habitantes e os morcegos se adaptam bem a esses locais

EAemGoiás - O que se pode ver na caverna Angélica?

Regina Schulz - Em relação à questão espeleológica, de espeleotemas, a gente tem as estalactites, estalagmites que quando se encontram formam as colunas. Temos os travertinos, que são como cânions pequeninos onde correm água, e temos as cortinas, que são formações rochosas onduladas que quando batemos ouvimos eco, parece de órgão, como se fosse de piano. Cada toque emite um som diferente. Isso em matéria de espeleotema. Temos dentro das cavernas aracnídeos diferenciados, com patas longas justamente por casa das formações geológicas, bagres cegos e, eventualmente, descobre-se um jacarezinho, normalmente levado pela correnteza. Já encontraram esqueletos de cobras dentro da caverna, mas acreditamos que foram também carregados pela correnteza e, sem alimento, na escuridão, não conseguiram sair e morreram.

Formação lembra uma couve-flor

EAemGoiás - O jacaré não era cego?


Regina Schulz - Não. Agora todos os bagres que foram localizados dentro de caverna até hoje são cegos e albinos. Mas eles têm uma sensibilidade muito grande porque quando você chega perto da lagoinha onde estão, em formações dentro da Caverna São Mateus, aquelas poças d’água, eles vêm nos encontrar. Já formações de estalactite, estalagmite, coluna e cortina há em todas as cavernas.

Regina Schulz: “Quando jovem eu brincava que ia ser fiscal da natureza. Acabei sendo fiscal da natureza.”

EAemGoiás - E onde temos as formações chamadas de pérolas?


Regina Schulz - Temos no Salão de Pérolas da caverna São Bernardo. Foi formado um estalagmite que, depois, tomou a forma de côncavo e forma bolinhas super branquinhas, tão perfeitas que parecem feitas a mão. O local é chamado de ninho de pérolas.


A importância de uma área preservada para as aves e todos os outros animais

EAemGoiás - O que se destaca na caverna Terra Ronca?


Regina Schulz - O Salão dos Namorados. Antes, há no teto da caverna a forma de um relógio. E existe o Oco da Arara, a Clarabóia, que são saídas de Terra Ronca para quem não quer continuar dentro da caverna. Porque a caverna Terra Ronca tem oito quilômetros de extensão. Mas há várias outras opções de saída como o Pesqueiro 1 ou pesqueiro 2. O Oco das Araras é um lugar fantástico, um buraco onde vivem muitas araras. Acho mais bonito do que a boca da caverna.

Sede do Parque Estadual de Terra Ronca

EAemGoiás - Qual a distância até o salão dos Namorados?


Regina Schulz - Da boca da caverna até o Salão dos Namorados é mais ou menos um quilômetro. E há a opção de chegar ao Oco das Araras sem entrar na boca da caverna por meio de uma trilha. Só que para descer é muito difícil.


Boa extensão de cerrado foi preservada com a criação do Parque Estadual de Terra Ronca

EAemGoiás - Podemos comparar Terra Ronca com outras no mundo?


Regina Schulz - Boca de caverna maior do que a da Terra Ronca só mesmo no Parque Estadual Petar, em São Paulo. Ela tem 96 metros de boca e mais 4 metros de teto que formam mais ou menos 100 metros de caverna.



Altar de Bom Jesus da Lapa de Terra Ronca na entrada da caverna

EAemGoiás - Quais estudiosos se destacam na pesquisa de espeleotemas no Parque de Terra Ronca?


Regina Schulz - Tivemos vários grupos. Tem o grupo Morcego, de Goiânia; grupo Gregeo, de Brasília e o grupo Bambuí, de Belo Horizonte, que é um dos maiores grupos de espeleologia do Brasil. São formados não só por pessoas de Minas Gerais, mas com vários espeleólogos no Brasil todo.

Cavaleiros na entrada da caverna Terra Ronca

EAemGoiás - Importante trabalho de pesquisa traz conhecimento do local?


Regina Schulz - Na caverna de São Vicente eles tinham a topografia pronta, de repente descobriram uma passagem que liga a caverna do Passa Três a São Vicente. Há três opções para entrar na caverna São Bernardo e descobriu-se, recentemente, outra galeria onde também vivem bagres cegos.

Festa do Bom Jesus da Lapa de Terra Ronca e ao fundo a boca da caverna

EAemGoiás - Existem horários que os pesquisadores mais gostam. Quais são esses horários?


Regina Schulz - Botânicos estudam durante o dia, fazem coleta, prensam plantas. Ornitólogos estudam mais durante a parte da manhã. Quando o sol vai nascer é que eles estão no ponto para observar as aves. Pesquisadores de pequenos mamíferos preferem à noite, saem por volta de 23 horas. Rodam à noite para ver mamíferos, veados, tamanduás-bandeira, tamanduás-mirim. Já pesquisadores de sapos observam no começo da noite e até 22 ou 23 horas. Cada animal tem seu horário. Para vermos anfíbios é melhor no período de chuvas quando formam pequenas poças nas estradas e os sapinhos ficam nelas. Na época da chuva são desde os pequenos até os grandes cururus que ficam nessas poças.

As belezas das cavernas reveladas com muita luz


Entrada da Caverna São Bernardo começa com uma descida no escuro

EAemGoiás - O que mais te marcou nesses 12 anos vivendo dentro do Parque de Terra Ronca?


Regina Schulz - O encontro com dois lobos guará que nunca imaginei encontrar. Faço caminhadas no começo e no final do dia. Nesse dia eu estava caminhando e meus cachorros desapareceram, virei para procurar e voltei a caminhar quando vi na minha frente dois lobos guará. Acredito que estava na época de reprodução porque lobo guará anda sozinho. Não sei se quem assustou mais foi eu ou foram eles. Parei e esperei para ver o que ia acontecer. Pararam e ficaram olhando e depois saíram. Nunca mais os vi.

Wagner, Regina, Arnold e Odália Machado

EAemGoiás - A senhora viu também onças?


Regina Schulz - Só uma vez quando fazia minha caminhada matutina e estava a cerca de quinhentos metros da sede do parque. Vi as ancas de uma grande e preta. Era macho e deveria estar observando-me quando entrou no mato naquele momento.

Rio bem próximo do Parque Estadual de Terra Ronca

EAemGoiás - Outras pessoas já viram onça no Terra Ronca?


Regina Schulz - Temos conhecimento de várias pessoas que já viram cara a cara. Um senhor viu, fechou os vidros do carro e desligou o motor com medo de ataque. Há vários relatos.

Dentro das cavernas a água está sempre esculpindo

EAemGoiás - Quando se está na fazenda conhecemos o cheiro do gado. O cheiro de animais silvestres no zoológico é outro e bem marcante. O ar no parque é muito puro e eu estava caminhando por trilhas antes mesmo de nascer o sol quando senti o cheiro forte de animais silvestres.


Regina Schulz - Há muitas raposas, tamanduás-mirim, caititu em manada. Acredito até que as onças estão aqui porque há muito caititu. Já vi durante minhas caminhadas veados machos ou fêmeas com filhotes. Temos uma cadeia alimentar que garante a permanência de onças dentro do Parque Terra Ronca. Além de cheiro já escutamos onça esturrar bem perto. Ela esturra e os cachorros ficam loucos. Na parte baixa da sede há uma barragem difícil de ficar seca. Quando ocorre estiagem por período longo todas as barragens secam, mas essa dificilmente fica sem água. Então no final da tarde escutamos onças esturrarem. E cada vez mais é comum ouvir esses barulhos. Acredito que pelo desmatamento na Serra Geral, na Bahia, elas não têm mais onde se esconderem, sentem-se seguras e estão permanecendo dentro do parque. Observamos que o número de animais tem aumentado muito.


Ninho de pérolas são atrações dentro das cavernas

EAemGoiás - Há muitas barragens dentro do parque que foram construídas pelos fazendeiros. O que deve ser feito em relação a essas barragens?


Regina Schulz - Destruir todas para que não possam ser utilizadas por caçadores. Animais como veados, caititus, pacas e vários outros procuram esses locais para matar a sede e, assim, ficam vulneráveis a caçadores. Acreditamos que destruindo essas barragens os animais não vão beber água em locais definidos e não haverá facilidades para caçadores. Se deixar só o rio para os animais beberem água o caçador não vai saber onde o animal vai beber água, os animais não correm tanto risco como na barragem. Temos muitos ipês na época da floração e os veados adoram comer as flores. Depois bebem água e podem morrer se caçadores os encontrarem.


EAemGoiás - Como estão as nascentes que alimentam rios do Parque Terra Ronca?


Regina Schulz - Temos a nascente do São Vicente. Um fazendeiro da Bahia comprou a terra para fazer área contínua de reserva. Ele desmatou tudo na Bahia e fez a reserva dele em Goiás. Melhorou muito a nascente do São Vicente, que é um dos maiores rios da região, com mais água, mais influência, corta uma caverna importante que é a São Vicente, banha um povoado grande. Só que há outros problemas em outras nascentes. Temos um problema na nascente do São Bernardo que está fora do Parque Terra Ronca, uma área de preservação ambiental que banha uma caverna dentro do parque. Já tivemos problemas com agrotóxicos. Nascentes de São Vicente, Angélica, São Bernardo, São Mateus e Terra Ronca estão todas em Goiás.

Enquanto eu fazia trilha raposinha atravessou na minha frente estrada dentro do Parque de Terra Ronca

EAemGoiás - Mas nem todas estão dentro do parque?


Regina Schulz - Dentro do parque estão Angélica e São Vicente e Bezerra. Outras estão dentro da Área de Proteção Ambiental – APA.

Uma parada para o almoço na casa dos pais de Arnold

Fora do Parque de Terra Ronca o turista pode desfrutar dos rios

Para chegar a algumas cavernas é preciso fazer trilhas dentro da mata

Cachoeiras e rios próximos do Parque de Terra Ronca com acesso aos turistas


EAemGoiás - Há cachoeiras dentro do Parque de Terra Ronca?


Regina Schulz - Aqui dentro do parque só temos a cachoeira do Correia Grande que não é muito visitada, não é muito divulgada até mesmo porque estava em propriedade particular até um tempo atrás. Agora é um lugar que para o turista frequentar tem de ter infra-estrutura. Próximo do parque há belas cachoeiras frequentadas.

Mirante dentro do Parque de Terra Ronca. Há vários deles que possibilitam ver grande parte do parque

Entrada de mais uma caverna no Parque Estadual de Terra Ronca

Estactite a partir do teto da caverna encontrou com a estalagmite que foi formada de baixo para cima

Pinturas rupestres em rochas dentro do Parque Estadual de Terra Ronca


Agradecimentos ao secretário de Meio Ambiente José Marcos que gentilmente cedeu parte das fotos doadas a Prefeitura de São Domingos, em Goiás, para divulgação em Educação Ambiental em Goiás. Viagem realizada no ano de 2009.
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Um comentário:

  1. Boa noite!
    Sou uma grande defensora do meio ambiente e olhando o parque terra ronca encontrei essa matéria. Gostaria de parabenizá-lo pelas infomações, porém é do meu conhecimento que será instalado uma empresa para exploração decalcário e brita a 800 metros da entrada do parque terra ronca. Infelizmente este empresário conseguiu licenças junto ao DNPM e Semarh de Goiânia. Isto é de seu conhecimento? Precisamos de pessoas ativas como você e Dra. Regina Beatriz Schulz para continuar com esse belíssimo trabalho no parque terra ronca.

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