30/10/2011

II CONGRESSO NACIONAL DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL

“Produção compromete políticas ambientais”

"Inserir educação ambiental no currículo escolar exige formação profissional"

O II Congresso Nacional de Educação Ambiental realizado em João Pessoa, na Paraíba, de 12 a 15 de outubro, trouxe importantes reflexões. Uma delas se refere ao modo de produção - que começou durante a Revolução Industrial - e foi levantada pelo coordenador do evento Govanni Seabra. Giovanni Seabra diz que se continuarmos a produzir como produzimos todos os projetos de políticas ambientais do Brasil ficam comprometidos. Ele diz também que a Caatinga tem pouquíssimas unidades de conservação e a Paraíba passa problemas semelhantes ao restante do país. 850 trabalhos apresentados no congresso serão disponibilizados na internet com o livro “Caminhos para a conservação da biodiversidade” onde também será divulgada a “Carta de João Pessoa”, da Paraíba, registrando os resultados do encontro e sugerindo medidas de ação para implementação de programas de educação ambiental mais efetivos. Leia abaixo entrevista exclusiva a Educação Ambiental em Goiás


"Para se ter educação ambiental é necessário que se tenha uma formação básica educacional"

Wagner Oliveira - Qual avaliação o senhor faz do II Congresso Nacional de Educação Ambiental?
Giovanni Seabra -
Cumprimos e ultrapassamos nossa missão e nosso propósito uma vez que tivemos 1500 participantes diretos e todos, efetivamente dentro das atividades programadas, deram suas contribuições. São congressistas de todos os Estados e os debates nas atividades programadas como conferências, mesas redondas, palestras foram muito acalorados, suscitaram questionamentos sobre as questões que envolvem o meio ambiente social e ambiental.
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Wagner Oliveira - Cada congressista recebeu o livro verde “Educação Ambiental no Mundo Globalizado”.
Giovanni Seabra - O livro verde é um presente que ofertamos aos congressistas. Foram editados 2200 exemplares que estão à disposição do congressista contendo 18 artigos selecionados em um leque de 850 trabalhos. Esses artigos estão concatenados ou encadeados dentro do propósito geral do evento, da temática geral que é apontar caminhos para a conservação da sociobiodiversidade. Esses trabalhos estão ordenados em 18 capítulos que servem certamente para darem o suporte às políticas públicas, educacionais e ambientais do país.

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Wagner Oliveira - O livro não será disponibilizado digitalmente, mas será vendido?
Giovanni Seabra - Estamos pensando em uma nova edição porque esses livros são exclusivos dos congressistas e autores. Existe um lote desses livros que serão destinados as livrarias, bibliotecas nas universidades.
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Wagner Oliveira – A Paraíba realizou o I e agora o II Congresso Nacional de Educação Ambiental. O III poderá ser em outro Estado?
Giovanni Seabra - Não temos ainda uma proposta para a realização do III Congresso Nacional de Educação Ambiental e tão pouco do Encontro Nordestino de Biogeografia. Mas estamos abertos a propostas para sediar esse evento. Existe o indicativo de levar o evento para a Amazônia, em 2013, porque o evento é bianual. E já temos programado e projetado uma prévia desse ambiente que é o Fórum Nacional de Educação Ambiental que vai acontecer na Amazônia e muito provavelmente em Rio Branco, no Acre.


"Como nossa educação ambiental é libertadora nos sentimos reféns desse capital"

Wagner Oliveira - O presidente do Congresso Nacional de Educação Ambiental Miguel Bordas disse na abertura do evento que um dos textos citados fala que a educação ambiental está refém do capital. Qual é esse texto?
Giovanni Seabra - O primeiro capítulo: “Educação Ambiental: caminhos para conservação da sociobiodiversidade”. Esse recorte de um pensamento foi retirado desse capítulo de minha autoria. A educação ambiental é refém do capital porque é o capital que promove educação ambiental oficial, que não tem qualquer alcance social ou mesmo uma sustentação dos projetos de conservação da natureza ou da biodiversidade. O grande capital segue os princípios do poluidor-pagador. Então, se eles pagam grandes cifras econômicas para poluir eles tornam a educação ambiental sua própria refém. Como nossa educação ambiental é libertadora nos sentimos reféns desse capital porque somos incompatíveis, tanto que não temos nenhum investidor direto ou indireto que dê algum suporte ou sustentação para essa reunião de 1500 congressistas vindos de todo o país.
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Wagner Oliveira - Existe um distanciamento Sudeste, Sul de Nordeste e Norte em relação à divulgação da educação ambiental realizada, por exemplo, nas redes sociais sobre um congresso nacional de educação ambiental. Observei pouca divulgação na REBEA (Rede Brasileira de Educação Ambiental) e outras redes.
Giovanni Seabra -
Nós pertencemos às redes sociais. Nosso principal e maior meio de divulgação e comunicação são as redes sociais, a internet. Porque não temos recursos para divulgar o evento por outros meios. De maneira que todo o país ficou sabendo porque fizemos um ano de divulgação. E algumas redes de educação ambiental não somente participaram da construção desse projeto como estão presentes no evento. Agora não podemos trazer toda a população brasileira, somos quase 200 milhões de habitantes. A educação ambiental nacional, inclusive no seu conteúdo, no seu teor, nas suas ações mais transformadoras estão presentes nesse evento. Agora como você disse, alguns setores, alguns canais e sobretudo governamentais de fomento, de sustentação da educação ambiental, não estiveram presentes nesse evento.


"Cumprimos e ultrapassamos nossa missão e nosso propósito uma vez que tivemos 1500 participantes diretos e todos deram suas contribuições"

Wagner Oliveira - O II Congresso Nacional de Educação Ambiental vai apresentar um documento final? De que forma poderá causar transformação, trazer resultados?
Giovanni Seabra - A transformação começa pela distribuição nacional, pelo retorno às suas residências, Estados, cidades desses 1500 participantes. Este é o princípio da transformação. Sobretudo porque eles levam o pensamento do II Congresso de Educação Ambiental que está documentado não somente no livro impresso “Educação Ambiental no Mundo Globalizado” como também no livro virtual que vamos lançar até dia 30 de novembro com 850 trabalhos que registram o pensamento do II Congresso Nacional de Educação Ambiental. E este é o princípio da transformação. Vamos transformar a educação ambiental oficial, que por sinal deixa muito a desejar nos seus objetivos. Iniciamos a transformação a partir dessas ações diretas dos congressistas junto às suas cidades e seus Estados. A educação ambiental do nosso congresso não termina aqui. Esse movimento permanece em evidência, permanece mobilizado com o uso das redes sociais.
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Wagner Oliveira - O que será disponibilizado no site do congresso?
Giovanni Seabra - Será disponibilizado o livro “Caminhos para a conservação da biodiversidade”, com 850 trabalhos. Também vamos cunhar a “Carta de João Pessoa”, da Paraíba, registrando os resultados desse encontro a partir das mesas redondas, dos debates e dos grupos de trabalho com cerca de 1200 congressistas sugerindo medidas de ação que sejam mais efetivas para podermos implementar programas de educação ambiental mais efetivos.


"Temos uma pressão fortíssima do capital que quase torna nossas conscientizações ineficazes"

Wagner Oliveira - Quais são os principais problemas da Paraíba que precisam ser focados pela educação ambiental?
Giovanni Seabra - A Paraíba é um estado pequeno mas que serve de case para ilustrar o caos ambiental nacional. Vivemos no caos ambiental. Todos os problemas nacionais semelhantes ou iguais acontecem também na Paraíba. A má conservação dos biomas, o desrespeito às leis federais, estaduais e municipais. E o risco permanente que todos corremos e a biodiversidade em função deste descaso com o meio ambiente, em função da ineficácia dos gestores ambientais. São ineficazes e, por essa ineficácia, vivemos permanentemente em risco. Temos ameaças das correntes litorâneas, que afetam monumentos naturais como a Falésia do Cabo Branco. Temos uma mata urbana grandiosa que é a Mata do Buraquinho, com 500 hectares, mas que sofre todas as pressões urbanas. Ela é atravessada pelo principal rio de João Pessoa que é o Rio Jaguaribe. Mas esse rio já no seu nascedouro recebe resíduos sólidos e efluentes poluentes que comprometem a qualidade da água. Além do mais, a Mata do Buraquinho, que é uma área de preservação permanente, sofre invasões e toda a pressão de um conglomerado urbano do porte de João Pessoa. Se você adentra o interior observa que a Caatinga tem pouquíssimas unidades de conservação. Não temos nenhum parque nacional no Estado da Paraíba e os parques estaduais que existem deixam muito a desejar quanto a sua administração porque é evidente o estado de abandono.
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Wagner Oliveira - Qual orientação o senhor deixa para o educador ambiental? Qual deve ser a formação do educador ambiental?
Giovanni Seabra - Ele deve buscar suas fontes nas publicações mais recentes. Fruto do debate existente entre os vários setores da sociedade, não somente a universidade. O nosso evento reuniu representantes de secretarias de governo, professores do ensino fundamental, professores universitários, acadêmicos, pós-graduandos nos diferentes níveis, setores organizados da sociedade. São essas documentações, são esses registros que darão o suporte para que o educador ambiental tenha um patamar de sustentação para suas ações. Não somente o educador ambiental, professor, pesquisador, mas também os gestores públicos têm nesses resultados o suporte para ações e implementações de políticas públicas.


"Vamos transformar a educação ambiental oficial"

"É incompatível a indústria automobilística com qualquer política de educação ambiental"

Wagner Oliveira - Para uma transformação é importante termos políticas públicas. Como o senhor vê atualmente políticas públicas e educação ambiental?
Giovanni Seabra - As políticas públicas existem e vamos dizer que elas têm resultados positivos diante de algumas ações e outros resultados que são extremamente negativos por falta de qualificação profissional e por falta de educação básica da sociedade. Para se ter educação ambiental, para se ter a consciência ambiental é necessário, sobretudo, que se tenha uma formação básica educacional e isto falta ao Brasil, falta ao brasileiro. Nosso sistema educacional é muito falho em todos os sentidos. E você inserir educação ambiental no currículo escolar exige formação profissional. E por isso oferecemos neste evento diversos cursos e diversas oficinas trazendo conceitos, trazendo experiências, trazendo cases de projetos exitosos para os educadores ambientais. Tivemos 600 participantes nas oficinas e o resultado desse trabalho tem sido extraordinário porque ele é documentado. As aulas e as discussões são registradas em produtos para a internet e que servem para fortalecer o trabalho dos professores e educadores e também das políticas públicas. Mas vale salientar que, em alguns setores, alguns Estados, alguns municípios, existem algum êxito no tocante à educação ambiental e a melhoria do meio ambiente. Entretanto, temos por outro lado uma pressão fortíssima do capital e que quase torna essas nossas ações, nossas mobilizações, nossas conscientizações ineficazes porque vivemos em um mundo globalizado, que é o tema do nosso evento. E no mundo globalizado e extremamente consumista somos induzidos a consumir, a produzir resíduos e as empresas que produzem esses artigos, esses produtos, esses materiais, não são comprometidas ou não são devidamente obrigadas a recolher o lixo que produzem. Somos incentivados a consumir e a descartar os poluentes no meio ambiente.
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Wagner Oliveira - Desde a Reforma Industrial vemos uma grande transformação no mundo, muita poluição. Tivemos Cubatão da década de 80 e outros exemplos. Se tivéssemos continuado no mesmo ritmo de poluição não suportaríamos atualmente. O senhor considera que há avanços que são resultados da educação ambiental? Podemos atribuir conquistas à educação ambiental?
Giovanni Seabra - Não há conquista alguma porque vivemos na era dos programas de aceleração do crescimento. Do crescimento industrial, da abertura de novas vias de circulação com base na pavimentação. Se tivéssemos uma política de controle da produção industrial, por exemplo do automóvel... Não podemos continuar produzindo neste país 2 ou 3 milhões de automóveis ao ano. Se continuarmos a produzir como continuamos a produzir todos os projetos de políticas ambientais do país ficam comprometidos ou estão comprometidas. É incompatível, é a própria contradição falar em políticas públicas para educação ambiental nesse país automobilístico em que vivemos. A superprodução de automóveis com suporte da mídia que incentiva o cidadão adquirir não somente um novo automóvel como também mais de um. Estamos perdendo espaço. O transeunte, o ser humano não pode circular a vontade na sua cidade, no seu bairro porque os espaços são destinados aos automóveis. É incompatível a indústria automobilística, que tem sido muitíssimo incentivada, com qualquer política de educação ambiental.


"A Paraíba é um estado pequeno mas que serve de case para ilustrar o caos ambiental nacional"

Wagner Oliveira - Comenta-se sempre que as leis ambientais do Brasil são boas principalmente se comparadas as de outros países. Com a reforma do Código Florestal ambientalistas frisam que vamos ter perdas como a diminuição da largura da mata ciliar. Como o senhor vê educação ambiental e reforma do Código Florestal?
Giovanni Seabra - O novíssimo Código Florestal é fruto do agronegócio. Foi uma fortíssima pressão da bancada ruralista do Congresso Nacional que cunhou o novo Código Florestal e aprovou esse Código Florestal. Se o agronegócio aprova o Código de preservação da natureza já sabemos por antecedência que a legislação ambiental do Brasil não funciona. Assim mesmo como foi cunhado o SNUC, Sistema Nacional de Unidades de Conservação, que não se aplica quando se refere à conservação, preservação da natureza.

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