06/07/2011

ESPECIAL
"O Cerrado existe há
70 milhões de anos"


Pequi, cagaita e baru são frutos do Cerrado que já existem há pelo menos 65 milhões de anos. Na foto pequi na Serra de Caldas Novas

Os solos do Cerrado podem ter sido formados há cerca de 70 milhões de anos e há pelo menos 65 milhões de anos já existiam espécies vegetais que existem até hoje. Até pouco tempo acreditava-se que o Cerrado existia há 35 milhões de anos. Cientistas estão preparando trabalhos para divulgação com novas datas depois da descoberta, há pouco mais de um mês, de fósseis em Goiás. A exploração em Catalão (cidade a cerca de 250 quilômetros de Goiânia) de fosfato (utilizado em fertilizantes) e principalmente de nióbio (utilizado no mundo até em superligas na fabricação de motores de jatos ou partes de foguetes de alta resistência a combustão) é que possibilitou encontrar os fósseis que decifram um pouco mais do passado do Cerrado.

Localização do município de Catalão em Goiás - Brasil

Na exploração mineral, em Catalão, geólogos acreditaram inicialmente que chegaram a uma camada formada por fundo de lago e, posteriormente, sugeriram que seria uma camada formada por lava vulcânica. Nela estavam folhas e frutos do Cerrado como pequi, baru e cagaita ‘cristalizados’ possivelmente durante uma erupção vulcânica. Cientistas calculam que há 65 milhões de anos ocorreu a extinção dos dinossauros e teoria mais aceita diz que foi por impacto de asteroide, marcando o fim do período Cretáceo e início do Terceário. Muitas espécies foram extintas, mas pelo menos espécies do Cerrado como pequi, cagaita e baru continuaram existindo.

Ilustração representa frutos do cerrado de 65 milhões de anos fossilizados

As descobertas elevam mais ainda a importância do Cerrado e de suas espécies que resistiram há milhões de anos com transformações no clima, no relevo e talvez a impactos de asteroides e vulcanismo, mas correm o risco de serem extintas no presente e, talvez em poucas décadas, se o Cerrado não for preservado e utilizado de forma sustentável.

Onde hoje temos o Cerrado no passado geológico já existiu mar, geleira e deserto. As evidências estão em rochas, em conchas e em vários locais que merecem ser mais estudados

Datações com processo Carbono 14 (técnica de datação que mostra a diminuição de tecidos orgânicos com o passar do tempo) foram realizadas nas amostras recolhidas em Catalão e estão, hoje, sendo analisadas no Instituto do Trópico do Subúmido da PUCGoiás pelo arqueólogo Altair Sales Barbosa. “No laboratório, quando parti as amostras, achei frutos carbonizados, ‘cristalizados’. A coisa mais linda do mundo. Pequi, baru, cagaita cristalizados. São frutos do cerrado. Inclusive o caroço de pequi com a folha fossilizada ao lado”, afirma.

Cagaita do cerrado é uma das espécies encontradas em fósseis

Altair Sales diz que outra evidência para a datação dos frutos do cerrado em 65 milhões de anos é de que existe uma planta ainda nem identificada que ocorre em ambientes de cerrado com veredas, na Bahia e em Goiás, chamada de Jericó, utilizada para enfeitar presépios, datada em mais de 60 milhões de anos. “Sempre fiquei impressionado com a plantinha. Ao levá-la ao microscópio vi que é toda mineral, é sílica pura. A ciência vai evoluindo e provavelmente daqui a alguns anos vai apresentar outras datas.”

Baru do cerrado de Jaraguá também encontrado em fósseis

A ocupação do cerrado nas últimas décadas teve um custo alto para o meio ambiente. Novas técnicas que causam menos impacto ambiental foram desenvolvidas com pesquisas realizadas, por exemplo, pela Embrapa Cerrados. Mas não foi sempre assim. Muitos desmataram o Cerrado de forma indiscriminada e para ter área para plantio cortavam árvores (de espécies desenvolvidas e adaptadas ao Cerrado há milhões de anos) que produziam pequi, baru ou cagaita e tudo era levado ao forno para produção de carvão para siderúrgicas de Minas Gerais.


Se continuasse o mesmo ritmo de desmatamento que ocorreu nos primeiros anos da ocupação do bioma pela agricultura, nada se teria hoje da vegetação do Cerrado que levou cerca de 70 milhões de anos para se formar, resistindo a cada tempo geológico. Muito ainda deve ser descoberto pela ciência que vai contando com novos especialistas e utiliza novas ferramentas ou métodos para datação ou ter conclusões mais aproximadas. Mas o melhor que gerações do presente e do futuro podem fazer é preservar e explorar de forma sustentável o ainda pouco conhecido, rico, enigmático, segundo maior e mais antigo bioma brasileiro.

Arqueólogo Altair Sales Barbosa está analisando fosséis

Geografia:

Em Catalão há rochas do Complexo Araxá de 650 milhões a 1 bilhão de anos

"O município de Catalão encontra-se a sudeste do Estado de Goiás, numa área com duas feições de relevo distintas: os planaltos ondulados, do tipo mares de morro do oeste e uma área de chapada, mais plana e mais alta, a nordeste. As altitudes variam entre 650 e 1.200 metros. O relevo é bastante compartimentado, com depressões nos vales dos rios São Marcos e Paranaíbas, uma chapada a nordeste e mares de morro no restante do município. A despeito de pequenas áreas onde há remanescentes de mata atlântica, o domínio morfoclimático típico é o dos Cerrados. O embasamento rochoso é do Complexo Araxá, com rochas entre 650 milhões e um bilhão de anos, com farto predomínio de rochas cristalinas, em especial metamórficas, como xistos e gnaisses, além de quartzos os mais diversos. Há dois complexos ultramáficos no município: Catalão I e Catalão II. Neles há importantes jazidas de nióbio, fosfato (exploradas), titânio, vermiculita e terras raras." (Fonte: Wikipédia)


Mineração de Catalão

Complexo mínero-químico da Fosfértil em Catalão

"Já em 1892, Catalão foi reconhecida pela Expedição Cruls como um município repleto dos mais variados tipos de minérios, sendo que o diamante em particular é explorado no município desde o início do século XIX. O município possui ainda algumas das maiores jazidas minerais do Estado de Goiás, com depósitos de Argila, Argila Refratária (Caulim), Brita (Basalto), Fosfato, Nióbio, Titânio, Turfa, Vermiculita, Urânio, Tório, Estrôncio e terras raras (Lantânio, Cério, Praseodímio, Neodímio, Samário, Európio, Gadolínio, Érbio, Ítrio, Itérbio, Lutécio e Térbio).Todavia, apenas alguns desses minérios são explorados, como é o caso do nióbio (explorado pela Anglo American - Mineração Catalão), do fosfato (explorado e industrializado pela Fosfértil e Anglo American - Copebrás) e das argilas, exploradas por várias companhias ceramistas instaladas no município. Os demais minérios identificados já estão com seus depósitos registrados para as mais diversas companhias, como é o caso do titânio, registrado pela Companhia Vale do Rio Doce."

Fosfato - 96.717.737 toneladas medidas 112.349.098 toneladas indicadas

Nióbio - 1.317.560 toneladas medidas 5.123.368 toneladas indicadas

Titânio - 4.889.981 toneladas medidas 5.483.860 toneladas indicadas"

(Fonte: Wikipédia)

Na Internet é possível encontrar trabalhos publicados sobre fósseis anteriormente encontrados em Catalão. Veja abaixo o que foi publicado na Revista Brasileira de Paleontologia em 2006


Cardoso & Iannuzzi - Pteridófita fóssil do Complexo Carbonatítico Catalão I.


Abaixo trecho estraído da publicação

“Geologia

O material provém de afloramento situado na mina a céu aberto do Complexo Catalão I da Mineradora Fosfértil, a cerca de 20 km a nordeste do município de Catalão, sudeste do Estado de Goiás, e 300 km a sudoeste da capital Brasília, no Distrito Federal. O complexo ocupa cerca de 27 km2 e é composto por rochas metassedimentares do Proterozóico tardio, do Grupo Araxá, pertencentes ao Cinturão Móvel de Brasília (Ribeiro et al., 2005). Os espécimes analisados foram coletados na rocha diatomítica que compõe a porção basal do depósito do “Paleolago Cemitério”. Os depósitos deste paleolago estão localizados no interior do Domo Carbonatítico de Catalão I, do Cretáceo Superior, sobre o qual se apresentam discordantemente acamados (ver Ribeiro et al., 2001). Para a gênese da “Paleolagoa Seca”, depósito similar ao do Paleolago Cemitério, situado no interior do Domo Carbonatítico, Ribeiro et al. (2001) sugeriram algumas hipóteses. Uma delas seria a formação dos depósitos lacustres a partir da lixiviação de carbonatitos e foscoritos subjacentes, processo que poderia resultar na formação de grandes cavernas ou produzir dolinas, o que implicaria na redução de até cinco vezes o tamanho da rocha. Uma segunda hipótese envolve um colapso localizado e de pequena escala, relacionado ao resfriamento e solidificação dos depósitos carbonatíticos centrais do domo, o que poderia resultar numa redução de volume na rocha, suficiente para causar um rebaixamento da parte central do complexo. Em ambos os casos, forma-se, inicialmente, uma depressão que teria dado origem aos paleolagos. Os depósitos do “Paleolago Cemitério” foram preliminarmente datados como tendo sido formados durante o Quaternário, a partir de estudos preliminares sobre esponjas e diatomáceas presentes (Volkmer-Ribeiro, com. pess.). No entanto, enquanto dados mais confiáveis não forem produzidos não se pode descartar até mesmo uma idade um pouco mais antiga para esses depósitos, tal como Neógeno tardio (i.e., Plioceno).” (Publicado na Revista Brasileira de Paleontologia. PTERIDIUM CATALENSIS SP. NOV., UMA NOVA PTERIDÓFITA FÓSSIL DO COMPLEXO CARBONATÍTICO CATALÃO I, GOIÁS. NELSA CARDOSO e ROBERTO IANNUZZI).

Leia parte da conclusão do trabalho de Nelsa Cardoso e Roberto Iannuzzi:

Tecido epidermico carbonizado
Revista Brasileira de Paleontologia - 2006


"Conclusão:

Fato paleoecologicamente significativo é a confirmação da ocorrência de carbonização do material fóssil antes de sua incorporação ao sedimento, feita pela constatação da presença de fusenita impregnada à matéria orgânica presente nos espécimes. Essa evidência sugere que Pteridium catalensis sp. nov. pode ter vivido em um paleoambiente sujeito a incêndios, talvez regulares, muito similar às condições ambientais atuais sob as quais seu parente vivente, P. aquilinum var. arachnoideum, habita. Isto pode indicar, indiretamente, que havia uma adaptação pretérita do gênero ao fogo, mas principalmente, que os incêndios naturais podem ter exercido um papel fundamental nos antigos ecossistemas da região, assim como o fazem nos ambientes do Cerrado moderno. Futuramente, uma análise mais acurada deste tipo de evidência poderá auxiliar no entendimento sobre a origem e/ou evolução do “Bioma Cerrado” no Brasil central" (Publicado na Revista Brasileira de Paleontologia. PTERIDIUM CATALENSIS SP. NOV., UMA NOVA PTERIDÓFITA FÓSSIL DO COMPLEXO CARBONATÍTICO CATALÃO I, GOIÁS. NELSA CARDOSO e ROBERTO IANNUZZI).

Leia texto completo da Revista Brasileira de Paleontologia:
http://www.sbpbrasil.org/revista/edicoes/9_3/303A310_CARDOSO.pdf


Leia entrevista anterior de Altair Sales na Revista Cerrado
Parte 1

Parte 2
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