11/11/2010

ESPECIAL:
HOMEM PRÉ-HISTÓRICO DE GOIÁS – PARTE I


Traço rupestre
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de Serranópolis
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"O cerrado tem quantidade e variedade de pinturas rupestres que estão entre as mais exuberantes do mundo"

O arqueólogo Dr. André Isnardis afirma que o cerrado tem quantidade e variedade de pinturas rupestres que estão entre as mais exuberantes do mundo. Mas é preciso mudar a relação das pessoas com o patrimônio para que essa riqueza seja preservada e decifrada. Pouco até hoje se sabe e muito pode ser estudado. Há vários anos já se observa perdas importantes desse patrimônio por efeitos naturais como chuvas ou antrópicos por meio da expansão da agricultura nos cerrados. Dr. André Isnardis, da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, realiza palestras sobre Estudos Contemporâneos de Arte Rupestre no Brasil: um breve exame de perspectivas e abordagens. Ele veio a Goiânia para participar da II Jornada de Arqueologia no Cerrado – Múltiplas abordagens e Interdisciplinaridade, na PUCGoiás, e concedeu entrevista a Educação Ambiental em Goiás. André Isnardis frisa que é preciso conhecer as pinturas rupestres de Goiás para que essa riqueza seja preservada. Em seguida, fazer levantamentos mais sistemáticos porque existem várias e ricas áreas no Estado.


Em palestra André Isnardis mostrou slides para mostrar que muitos desenhos pré-históricos, em vários locais do país, foram sobrepostos. Abordagens para conhecer nosso passado.


“Expressões gráficas. As abordagens atravessam os grafismos para falar de algo que está fora deles. Está supostamente numa realidade por eles retratada. Acho mais interessante assumir as formas de grafismo como uma expressão gráfica e investigar como expressão gráfica. Então vai ter uma seleção de repertório, arranjo entre figuras, forma de compor as figuras, forma de estabelecer relações entre as figuras, forma de construir uma paisagem por meio das figuras. Assumir o trato das pinturas como significantes, encarar a análise dos significantes muito mais do que dos significados parece ser mais frutífero”

EAemGoiás - O senhor fez uma convocação, um convite para que pesquisadores estudem mais as pinturas rupestres de Serranópolis, de Goiás. O que poderia ser feito?

Isnardis - Pode ser feito tudo. Temos publicações que descrevem as pinturas de Serranópolis. Há descrição sistemática de alguns sítios, análises superficiais, mas dá para abordar sob outras perspectivas. Mais imediato é discutir Serranópolis com outras áreas do Brasil Central. Pensar de a possibilidade ou não de Serranópolis ser relacionado com conjuntos classificatórios que já foram propostos, que na bibliografia de Serranópolis não tem. Daria para fazer belíssimos estudos da arqueologia da paisagem com as pinturas de Serranópolis. Daria para investir em organização espacial e de relação entre as figuras porque os sítios são muito ricos. São sítios com quantidade significativa de grafismo. Dá para trabalhar com regularidades, identificar recorrências. É uma região tão rica. A arqueologia de Serranópolis sempre teve um papel central nas discussões arqueológicas para o Brasil Central e pode ter também para pinturas rupestres.

EAemGoiás - Já podemos entender, já foi decifrado o que significam as pinturas de Serranópolis como as araras, emas, macacos, figuras de vários animais do cerrado?

Isnardis - Não tem uma decifração. Não sabemos o que aquelas pinturas significam. Elas podem significar coisas muito variadas. E a dificuldade em saber o que elas significam é porque não sabemos quando foram feitas, não temos outros elementos das culturas que as produziram ou há poucos. É muito difícil interpretá-las, mas dá para observar coisas que são típicas, regulares, recorrentes. Agora não sabemos o que as figuras que parecem araras querem dizer. Poderia dizer as coisas mais variadas para quem as fez. Pode ser a arara, mas a arara pode ser uma representação de identidade coletiva, pode haver com uma narrativa tradicional. Pode haver com algum grupo social. Pode ter muitos significados.

“Como uma forma de expressão, os conjuntos gráficos rupestres vão ter uma lógica que os organize. Há uma gramática ou algumas gramáticas dessa forma de expressão"


EAemGoiás - Podemos fazer uma comparação de pinturas rupestres de Raimundo Nonato, no Piauí, com pinturas rupestres de Serranópolis, em Goiás?

Isnardis - Há afinidades sim. Em Serranópolis, há conjuntos que fazem lembrar alguns conjuntos do sudeste do Piauí; há semelhanças. Conjuntos do sudeste do Piauí que vemos na imprensa, que o pessoal de lá soube dar visibilidade a aquele patrimônio maravilhoso. Pinturas semelhantes acontecem em várias regiões do Brasil. Há pinturas parecidas com aquelas em muitas outras áreas. Esse é um problema que precisamos enfrentar. Por que são semelhantes em distâncias tão grandes? O que aconteceu? Esses grupos eram aparentados? Eles compartilhavam algumas ideias ou alguns repertórios culturais?

EAemGoiás - Pesquisadores sugerem que pinturas rupestres de Serranópolis tenham até 11 mil anos. Em outras partes do Brasil como Minas Gerais ou no Piauí pode haver pinturas rupestres mais antigas?

Isnardis - Não há pintura rupestre com datação segura que seja mais antiga do que isso. Há algumas datações mais antigas no Piauí, mas elas têm problemas técnicos na elaboração. Métodos têm problemas e não estamos ainda confiando muito nesses métodos. Há outras datações pelo Brasil, mas nenhuma que tenha datação segura excede a casa de 10 mil anos. A maior parte das datações está no período que chamamos de Holoceno Médio ou Holoceno Recente, ou seja, até 5 mil anos.

Pinturas rupestres em São Raimundo Nonato, no Piauí

“A bibliografia brasileira sempre insiste em destacar a necessidade de se conectar os grafismos rupestres com outros elementos do registro arqueológico. Mas fazer essa conexão tem sido muito difícil. São poucos os casos que essa conexão pode ser feita com alguma segurança. Essa conexão normalmente é cronológica”

EAemGoiás - Como o senhor vê o maltrato às pinturas rupestres com pichações. Atrapalha o estudo?

Isnardis - Essas pichações mais recentes nos painéis com pinturas ou gravuras antigas em si são legítimas. São uma forma de expressão como as outras. Porém, acabam prejudicando termos acesso a essas formas de expressão gráficas mais antigas. Elas estragam efetivamente alguns conjuntos. O que precisa acontecer para que as pessoas não escrevam em cima, para que possamos continuar tendo acesso às figuras mais antigas, é que elas façam sentido para as pessoas. É preciso que as pessoas percebam aquilo como patrimônio, como algo interessante, e ajudem a conservar. Se não, não faz sentido. Falar que não pode escrever? Não pode por quê? O outro desenhou, por que eu não posso desenhar também? Desenhar é igualmente legítimo, mas talvez seja melhor escolher outro suporte para mantermos os desenhos antigos também. Se a pessoa valorizar vai ter uma atitude diferente.

EAemGoiás - Sobre o retoque nas pinturas rupestres de Serranópolis feito por um carpinteiro que trabalhava próximo. Como o senhor viu isso?

Isnardis - É um caso interessante porque podemos ver que as pintura podem ser lidas, valorizadas e apropriadas por parte da população. É claro que nenhum de nós gostaria que ele tivesse retocado as pinturas pré-históricas. Mas isso pode provocar para nós uma série de questões para reflexões. Inclusive a nossa relação de arqueólogos com as comunidades tradicionais locais. Em algumas áreas vemos que as pessoas mantêm um vínculo afetivo, inclusive preservacionista com as pinturas pré-históricas. Elas não se conectam historicamente a elas, não falam que são de descendentes, mas prezam as pinturas rupestres. Diamantina tem um caso desses. Várias áreas são muito ocupadas por garimpeiros de cristal, coletores de flores e o pessoal não intervêm nas pinturas. Já vimos um caso em que extraíram minérios em volta e deixaram o painel pintado inteiro. Sem que nenhum órgão ou arqueólogo tivesse intervindo nessa história. Agora para fazer as pinturas ficarem legíveis novamente para que elas possam ser apreciadas, interpretadas pela população contemporânea, podemos utilizar outros recursos que não sejam intervenções diretas nas pinturas. Pode ser feita reprodução sistemática e mostrar as questões dessa reprodução. Chamar a atenção na reprodução para aquelas questões que são difíceis de ver na parede. Mas conserva-se a parede da maneira que ela se apresenta. Se for pensar em intervenções para painéis de pintura um elemento que deve ser levado em conta é a reversibilidade dessa intervenção. Fazer intervenções que sejam discretas e reversíveis. Porque normalmente a conservação dos painéis envolve uma gama muita alta de variáveis que a gente nem sempre controla. Às vezes você faz uma intervenção e o resultado é exatamente oposto ao que pretendia. Como exemplo, em um painel foi feita uma canaleta em torno das pinturas para escorrer a água que vinha descendo pela parede e que estava degradando. O suporte ressecou e a parede caiu com todas as pinturas. Se a intervenção fosse reversível com o diagnóstico do problema poderíamos ter tentado voltar.

Vários desenhos dentro de um mesmo desenho

“A partir de um exame sistemático dessas sobreposições começamos a observar que o que parecia ser uma sobreposição caótica na verdade trazia em si um jogo muito sofisticado de encaixe de figuras. Em Diamantina, dentro das figuras que poderiam ser colocadas dentro dessa categoria de classificação da tradição Planalto, você tem uma continuidade de temas e uma diversidade de estilos. O jeito de fazer as figuras muda, as dimensões, o interesse por detalhes. Mas apesar da mudança há uma continuidade muito grande na composição dos painéis. As figuras interagem diretamente com as figuras precedentes.”


EAemGoiás - Qual comparação o senhor faz das pinturas de Serranópolis e de outras partes do mundo como da Europa?

Isnardis - O cerrado tem uma quantidade e uma variedade de pinturas rupestres que está entre as mais exuberantes do mundo. Essas áreas têm um potencial tão grande ou maior do que outras áreas muito pintadas também. É um potencial muito grande, muito vasto. E que de fato precisa ser valorizado. O sertões goiano, mineiro e baiano têm um acervo que encantam qualquer pesquisador de qualquer região do mundo. São de uma preciosidade muito especial.


Desenhos sobrepostos


“Algumas pesquisas estão sendo construídas no sentido de rever os conjuntos, discutir o alcance dos conjuntos e a possibilidade de falar de territórios ou afinidades, divergências entre comunidades humanas pretéritas. Mas agregando às análises de expressão gráfica dimensões que envolvam padrões de escolha culturalmente orientadas e comportamentos no momento de realizar os grafismos”


EAemGoiás - O acervo de Serranópolis precisa ser mais bem estudado?

Isnardis - Serranópolis tem um acervo muito importante. Importante inclusive na história da arqueologia do Brasil Central, em todos os aspectos, e sobre as pinturas rupestres também. Um dos motivos que me fez apreciar o convite para vir a Goiás foi saber que há patrimônio grande e poucas pessoas trabalhando. Eu gostaria que fosse conseqüência desse encontro e de outros vários é que as pinturas rupestres de Goiás voltassem a ser objeto de pesquisa sistemática. E Serranópolis está entre elas. Há trabalhos feitos sobre Serranópolis, mas há muito tempo ninguém publica mais nada. E Serranópolis não está esgotado. Absolutamente, não! Os trabalhos feitos dão várias possibilidades, é possível tratar de jeito diferente. Serranópolis, Serra Geral, outros lugares que sabemos que possuem pintura precisam ser estudados. Uma das coisas que eu queria vindo aqui é convidar os jovens estudantes de arqueologia e pesquisadores goianos para tomar esse patrimônio que é sensacional como objeto de pesquisa.


Foto em Serranópolis, Pousada das Araras. A única foto desta entrevista que mostra desenhos pré-históricos em Goiás. Outras fotos são de sítios arqueológicos em outras partes do Brasil como Piauí e Minas Gerais. Mas as sobreposições também acontecem em Serranópolis e estudos de outras partes do Brasil e do mundo podem contribuir na decifração de pinturas de Serranópolis. Para isso é preciso novos estudos já que o patrimônio de Goiás é grande e importante. Várias fotos de pinturas pré-históricas de Serranópolis e outros locais de Goiás serão publicadas nas próximas partes de O HOMEM PRÉ-HISTÓRICO DE GOIÁS.
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Um comentário:

  1. Obrigado tenho 10 anos e me ajudou muito com meu trabalho de artes no serrado...

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