25/09/2010

CERRADO E QUEIMADAS
.
.. Biomassa em chamas
. Cor branca resultante da sobreposição de todas as cores, o sol nos meses mais quentes no cerrado seca folhas, cascas, sementes e proporciona as condições ideais para a propagação da vida com as sementes sendo banhadas pelas chuvas. Mas se o ciclo hidrológico atrasa por efeitos naturais ou antrópicos as consequências podem ser terríveis. Sol e água proporcionam vida a Terra desde que em quantidades adequadas. Todo excesso ou escassez afeta o mundo que necessita de constante equilíbrio.
.
O período de estiagem pode ser mais longo do que o esperado. Mudanças climáticas, a interferência do homem no meio ambiente transformando os biomas, desmatando, emitindo mais gases tóxicos na atmosfera... Por vários fatores as chuvas podem atrasar e a biomassa se acumula tão seca que a vida corre perigo.
.
As queimadas ocorrem. Pode ser por um raio. Mas essa alternativa é remota. Normalmente são criminosas mesmo ou por descuido de quem pretende realizar uma queimada controlada ou mesmo põe fogo para limpar o solo dando continuidade a práticas antigas e incorretas para renovação de pastagem.
.
As sementes são dispersadas das mais variadas formas: pelo vento, chuva, animais, aves ou pelo homem. Essas na foto vão com as folhas girando para cairem bem longe da árvore mãe. Para isso precisam estar bem secas, bem leves e a natureza proporciona todas as condições nos meses "secos" no cerrado. Ao chegar ao chão em poucos dias é preciso ter chuva. E se elas demoram as sementes podem não germinar.
.
Depois de vários anos sem queimar, o capim vai se acumulando. Com o período chuvoso novas folhas rebrotam mas o capim antigo continua lá. É como um barril de pólvora. Uma simples chama de um fósforo, de um cigarro aceso ou os raios fortes do sol escaldante batendo em um vidro e o fogo logo começa.
.

E o fogo se espalha para todos os lados e principalmente na direção do vento. Vai queimando tudo até só sobrar cinzas. Altas temperaturas que destroem micro e macroorganismos. Só aqueles que conseguem fugir a tempo sobrevivem.
.
Em agosto, setembro, outubro e até quando começar a chover novamente o solo fica coberto por folhas secas. Ajudam a evitar maior perda de água, mas são altamente combustíveis.
.
Combater o fogo é tarefa muito difícil. Nos meses mais secos a temperatura é muito alta e os brigadistas precisam cobrir quase todo o corpo para não se queimarem. Levam também muita água para hidratarem o corpo. O trabalho pode durar dias e noites. Equipes podem passar noites inteiras até terminarem uma missão. Em seguida normalmente já há outros focos para serem combatidos.
.
Pouca água para muito fogo. Esse tipo de equipamento é utilizado normalmente quando o fogo está em locais onde não se pode utilizar os abafadores como lugares altos, nos troncos das árvores, com pedras, galhos. Há horas do dia que o trabalho se torna insuportável como durante a tarde. O calor do sol e do fogo são grandes barreiras. Depois os brigadistas precisam também suportar a fumaça. Voltam de uma missão muitas vezes com fome, sede e com a roupa impregnada de muita fumaça e cinza. Mas no fundo a sensação de realização de um importante trabalho.
.
Preferi não postar fotos de animais mortos em queimadas. As imagens são chocantes. Onças, tamanduás, jacarés e muitos outros bichos queimados. Ninhos e filhotes destruídos. Em setembro de 2010 só em uma fazenda em Cocalinho, no Mato Grosso, 60 queixadas foram encontrados mortos. Grande parte de um bando morreu queimado por não conseguir fugir de uma queimada.
.
Outro lado: o fogo como elemento importante da biodiversidade. Slide de palestra do professor da PUC Goiás Roberto Malheiros. Mostra que o fogo no Cerrado quando rápido, não encontrando tanta biomassa acumulada por muitos anos tem sua importancia também e não é apenas um vilão.
.

"Proteção total e absoluta contra o fogo no Cerrado é uma utopia, é extremamente difícil. O acúmulo anual de biomassa seca, de palha, acaba criando condições tão favoráveis à queima que qualquer descuido com o uso do fogo, ou a queda de raios no início da estação chuvosa, acabam por produzir incêndios tremendamente desastrosos para o ecossistema como um todo, impossíveis de serem controlados pelo homem. Neste caso é preferível prevenir tais incêndios, realizando queimadas programadas, em áreas limitadas e sucessivas, cujos efeitos poderão ser até mesmo benéficos. Tudo depende de sabermos manejar o fogo adequadamente, levando em conta uma série de fatores, como os objetivos do manejo, a direção do vento, as condições de umidade e temperatura do ar, a umidade da palha combustível e do solo, a época do ano, a frequência das queimadas etc. É assim que se faz em outros biomas savânicos, semelhantes aos nossos Cerrados, de países como África do Sul, Austrália, onde a cultura ecológica é mais científica e menos emocional do que a nossa." (Leopoldo M. Coutinho - USP).
.

A árvore que não queima imediatamente pode morrer em poucos dias.
.
Três ou mais metros de altura com um capim rasteiro seco. Até as partes mais altas das árvores recebem por cerca de 5 minutos o impacto do fogo. Quando encontra biomassa acumulada sem queimar por muitos anos pode ir bem alto, e durar mais tempo, atingir ninhos de aves, secar todas folhas que não forem incineradas, queimar os troncos e matar toda a vida.
.
Estradas funcionam como bons aceiros evitando normalmente a propagação do fogo. Mas nem as estradas podem conter o fogo se ocorrerem ventos fortes e mudanças de direção na corrente de ar. O fogo pode ser jogado a 100 ou 300 metros a frente e todo o trabalho dos combatentes das queimadas ser perdido. Nesses momentos equipes têm até de fugir do fogo para não sofrerem também queimaduras. Com um trator novo aceiro precisa ser feito para utilizar por exemplo a técnica do contra-fogo: fogo que encontra com o fogo pondo fim a uma queimada.
.
Brigadistas muitas vezes chegam a uma fazenda e não encontram nenhum aceiro. Há fazendas que mesmo com muitos tratores os fazendeiros não fizeram nenhum aceiro e o fogo não encontra limites. Até mesmo há fazendeiros que colocam ou mandam colocar fogo esperando que após a queimada o capim verdinho rebrote para alimentar o gado. Brigadistas chegam a essa conclusão ao observarem que normalmente a queimada ocorre em vegetação nativa do cerrado e não no capim plantado pelo fazendeiro.
.
Foto ao lado da BR-060 que liga Goiânia a Brasília, município de Alexânia, em setembro de 2010. O fogo rápido consumiu todo o capim em cerca de 5 minutos com chamas altas limpando todas as folhas secas das árvores.
.
A cerca também de madeira corre o risco de incendiar-se. Quando isso ocorre o fogo pode durar horas ou dias causando prejuízos aos fazendeiros. Se não for controlado o fogo pode destruir até casas e outros bens móveis e imóveis na zona rural ou cidades.
.
Depois de cinco minutos o aspecto da queimada. O chão quente, os troncos das ávores queimados mas como espécies do cerrado normalmente se adaptaram ao fogo ao longo de milhares ou milhões de anos, muitas vão resistir e continuar conduzindo seiva para toda a árvore.
.
Mas espécies menores típicas de campo sujo ou mesmo ainda jovens normalmente não resistem e são queimadas junto com o capim. Se as raízes não forem atingidas poderão rebrotar.
.
Queimada na mata ciliar do Rio Araguaia no lado do Mato Grosso. A educadora ambiental Yuara Crescêncio observa a fumaça. Durante vários dias brigadistas do Ibama tentaram conter o fogo. Conseguiram obter sucesso em várias frentes mas neste local não foi possível até aquele momento.
.
Dicas de segurança do Corpo de Bombeiros:

* Incêndios nas margens das rodovias causam graves acidentes. Não jogue cigarros acesos ou outros objetos pelas janelas dos veículos;
* A queimada empobrece o solo e diminui a produtividade. Faça bons aceiros e proteja a sua propriedade e de seus vizinhos;

* A fumaça e a fuligem proveniente de queimadas, associadas a altas temperaturas e ao clima seco, provocam problemas respiratórios, intoxicações e doenças pulmonares;
* Preserve a fauna e a flora silvestre! Os incêndios florestais desequilibram a natureza! Vamos deixar um mundo melhor para todos!
* Mantenha sempre limpos e manutecidos os aceiros de sua propriedade;

* Antes de iniciar uma queimada controlada, consulte o órgão ambiental de sua região;
* Mantenha os lotes limpos, sem usar fogo para isso;
* Não solte fogos de artifícios próximo à vegetação seca;
* Em caso de incêndio acione o Corpo de Bombeiros Militar.
Provocar queimadas é crime! Lei 9.605/98, com pena prevista de reclusão de 2 a 4 anos e multa."

.
Detalhe da queimada na mata ciliar do Rio Araguaia no Mato Grosso, próximo a cidade de Luiz Alves (Goiás). A mata ciliar protege o rio evitando erosões, assoreamentos e é protegida por lei. Além de abrigar inúmeras espécies de aves e animais que também são dispersores de sementes. A destruição pode ser grande.
.
Logo que o fogo passa no capim vai ficando atrás somente as cinzas.
.
Em várias partes da mata ciliar do Rio Araguaia era possível ver queimadas. A temperatura na cidade de Luiz Alves chegou a 42 graus em setembro deste ano, uma sensação insuportável de calor piorada com as queimadas. Com tanta fumaça no ar ao respirar sentia-se o ar quente entrando pelo nariz, nos pulmões. À noite a fumaça que sobe para a atmosfera durante o dia se espalhava para todos os lados.
.

Detalhe da camioneta do Prevfogo do Ibama. O tamanduá é uma das vítimas das queimadas por ser lento e ter o corpo coberto por pelos que queimam fácil ao passar no meio do fogo.
.
Dezenas de brigadistas chegavam e saiam do Ibama de Luiz Alves para combater queimadas. Em emergências fizeram vários vôos de helicóptero que deixavam os trabalhadores próximos de áreas mais críticas. O trabalho segue regras e estratégias traçadas dando prioridades para áreas de preservação permanente, Parques Nacionais, Parques Estaduais, matas ciliares ou matas de galerias.
.
Equipamentos utilizados pelos brigadistas do Prevfogo. Tudo pronto para mais uma missão. Na mochila tudo que precisam para combater o fogo e se protegerem.
.
Brigadista mostra nas costas símbolo do Prevfogo. Cor amarela para serem bem vistos durante combate a queimada pelos companheiros.
.
Próximo a cidade de Alexânia o morador apaga o fogo com uma mangueira e reclama: passei todo o dia apagando esse fogo. Mas uma simples chama que restou fez o fogo se alastrar novamente no capim.
.
E o morador contou com a ajuda de toda a família.
.
O fogo rápido certamente não causará grandes problemas para o cupinzeiro que é extremamente resistente: construído com barro de saliva de cupins. Cupins que normamente são considerados vilões mas são alimentos prediletos dos tamanduás. Com a diminuição no número de tamanduás (predador) no cerrado os cupins vão ocupando mais espaço, ocorre o desequilíbrio ecológico.
.
Muita água para conter o fogo que persiste.
.
Em Luiz Alves até os cocos foram queimados a mais de 3 metros de altura.
.
As folhas a mais de 5 metros de altura não foram queimadas mas secaram de um dia para o outro.
.
Brigadistas do Ibama mostra equipamentos utilizados para ter segurança no combate ao fogo.
.
Óculos e lanterna para combate noturno.
.
Equipamento para combate ao fogo em locais altos e difícil acesso.
.
Na demonstração só faltou as luvas. Para não queimar os pés eles utilizam também coturnos resistentes.
.
Abafador utilizado pelos brigadistas.
.
Feito de borracha grossa e resistente. Não é muito pesado mas imaginae o dia todo e até durante a noite batendo-o no capim em chamas...
.
Essa é uma espécie do cerrado. Mas as adaptações de milhares de anos não foram suficientes para resistir ao fogo. O tronco também se incendiou e a árvore já está morta.
.
A queimada em Luiz Alves (Goiás) chegou bem próxima da escola. Riscos de destruição e prejuízos maiores.
.
Depois da queimada e até mesmo antes das primeiras chuvas a vida volta ao cerrado. Muitas plantas rebrotam apenas com o sereno da noite.

"Mas, o fogo não deve ser considerado sempre um desastre para a fauna. Ele também pode proporcionar-lhe certos benefícios. Após uma queimada, os insetos polinívoros e nectarívoros beneficiam-se da resposta floral das plantas, nas quais encontram grande disponibilidade de pólen e néctar. Algum tempo depois, essas flores produzirão frutos e sementes, que alimentarão outros animais. O próprio rebrotamento vegetativo é de grande importância para aqueles que se alimentam de folhas e brotos tenros, como o veado-campeiro, a ema, etc. Por isto, a densidade destes animais torna-se maior nas áreas queimadas, que funcionam para eles como um oásis em plena estação seca." (Leopoldo M. Coutinho - USP)
.

O perigo nas estradas com a fumaça que dificulta a visão de motoristas. Risco de acidentes aumenta.
.
O chichá precisa do calor do sol no mês de setembro para se abrir e projetar suas sementes o mais longe possível da árvore mãe.
.
Assim o sol quente é muito importante para que as sementes fiquem prontas para dar continuidade a vida. Muitas sementes do cerrado precisam perder a dormência para germinar. Se não passarem pela temperatura ideal para secarem, abrirem, não vão ter a mínima condição de se tornarem novas árvores.
.
Chichá aberto e suas sementes. A importância do sol quente para a vida no cerrado. E até queimadas breves têm seu valor. Mas tudo dentro do equilíbrio exigido pela natureza.
.
Queimada no Parque Nacional das Emas em 1995. Com a criação dessas áreas evitou-se ao máximo queimadas. Mas sem queimar a biomassa aumenta e quando ocorrem as queimadas depois de anos elas são mais destruidoras ainda, com maior temperatura, mais tempo de fogo. Hoje, órgãos ambientais já admitem queimadas controladas e acompanhadas, com preparação de aceiros buscando assim menor destruição de áreas protegidas em caso de incêndio. Em 2010 novamente o Parque Nacional das Emas teve cerca de 80% de sua área consumida pelo fogo. Mas acredita-se que o impacto foi menor do que em queimadas anteriores justamente pelas novas práticas empregadas.
.
Mas se a queimada ocorre o cerrado também sabe resistir. Foto do botânico Heleno Dias na Revista Cerrado mostra a beleza da flor poucos dias depois de uma queimada e antes mesmo de o capim rebrotar. E quando o capim rebrota voltam animais, aves e insetos que conseguiram fugir do fogo dando continuidade a vida no planalto central do Brasil.

Veja também:
Estudo do Instituto de Pesquisas Espaciais - Inpe sobre queimadas

Vídeos:

Animais na queimada:



Parque das Emas sofre queimada:



slides sobre queimada:




Queimadas no Mato Grosso:


. . .

Nenhum comentário:

Postar um comentário