03/08/11

ENTREVISTA VALTER MACHADO DA FONSECA

Educação ambiental
sob um outro prisma


“Tentam jogar que a enchente, a inundação é culpa da população, do papel de bala”

Ser educador ambiental não é fácil. Requer muito mais do que ter informação e formação. O professor precisa ter uma formação continuada onde se aborde a política da sustentabilidade ambiental. É o que propõe o Mestre e Doutorando em Educação pelo Programa de Pós-graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Uberlândia, Valter Machado da Fonseca. Ele ministrou recentemente na 63° Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) o minicurso “Sustentabilidade e Educação Ambiental: fragilidades, conflitos e contradições”. Valter Machado é autor de quatro livros. Entre eles lançou em 2009 “A Educação Ambiental na Escola Pública: entrelaçando saberes, unificando conteúdos”, em 2010 publicou “Entre o Ambiente e as Ciências Humanas: artigos escolhidos, ideias compartilhadas” e “O Sujeito & o Objeto: educação e outros ensaios”. Natural de Lagoa Formosa, Minas Gerais, ele reside hoje em Uberaba, Minas Gerais, onde é professor dos cursos de Graduação em Geografia, Pedagogia e Engenharias de Produção, Civil e Ambiental da Universidade de Uberaba (UNIUBE). Abaixo entrevista exclusiva concedida ao blog Educação Ambiental em Goiás.
“A descoberta do petróleo foi a pior descoberta da humanidade”

Wagner Oliveira - O senhor propõe a desconstrução do conceito de educação ambiental. Como o senhor vê a educação ambiental atualmente e como propõe essa desconstrução?

Valter Machado da Fonseca -
O que vemos, hoje, é que as questões ambientais, de maneira geral, foram apropriadas pelo capitalismo. No sentido das grandes empresas, por exemplo, utilizam do discurso de coleta seletiva, reciclagem para “justificar” uma pseudoresponsabilidade ambiental. Na verdade, essa responsabilidade ambiental vem no sentido do lucro. Quer dizer, de agregar valores ecológicos ao produto da empresa. A partir daí, se constrói uma justificativa para se aumentar a produção. E o discurso da prática da reciclagem justificando a produção. Justifica-se, aliás, uma superprodução. Nas escolas a educação ambiental vem de cima para baixo. O próprio MEC coloca essa discussão como um tema transversal e acho que tem de ser transversal mesmo. Só que não existe uma discussão mais aprofundada. O que significa a educação ambiental nesse contexto da sociedade capitalista? Os alunos nada mais fazem do que reproduzir aquele discurso veiculado na mídia. Numa feira de ciências, por exemplo, vemos na maioria das escolas, o aproveitamento de garrafas pet, utilizadas para fazer brinquedos, adornos, enfeites. Vemos vários trabalhos feitos de materiais recicláveis e o aluno decora o discurso e todos que passam pelo estande escutam o mesmo discurso, as mesmas falas. Depois de 15 dias do evento o aluno não sabe mais nada do que falou. Assim que termina a feira de ciências pode procurar o material que vai estar no latão de lixo. Nem quem o produziu o aproveitou. É um discurso vazio. Diante disso, noto que há uma incompatibilidade política, econômica entre o lucro das empresas e a proposta de desenvolvimento sustentável. Porque para se fazer uma proposta de desenvolvimento sustentável ou educação ambiental que conscientize as pessoas, obrigatoriamente, se tem que diminuir o lucro. E isso é incompatível com o modelo econômico de produção. Esse minicurso, por exemplo, vem na tentativa de aprofundar essa desconstrução da proposta de sustentabilidade e a discussão do conceito de educação ambiental para, a partir daí, tentarmos reconstruí-la sob outro olhar, sob um outro prisma. Um olhar crítico, um olhar que avance para além dessa sociedade. “Para um professor trabalhar em sala de aula com a informatização e internet ele precisa saber selecionar muito bem os conteúdos se não vai criar uma faca de um gume só”

“Lancei para os alunos um título para eles produzirem um texto: o trabalho no lixo é um trabalho ou um subtrabalho?”


Wagner Oliveira - Qual seria o olhar ideal? Temos de conviver em um mundo que tem quase sete bilhões de pessoas e o discurso dos ruralistas é de que para alimentar essa quantidade toda de pessoas é preciso desenvolver e explorar o meio ambiente.

Valter Machado da Fonseca -
Não discordamos da afirmação de que é preciso desenvolver. Mas é preciso desenvolver sob outra lógica. Os Estados Unidos não assinaram até hoje o Protocolo de Kyoto e não vão assinar porque isto significa retroceder nos seus lucros. Vão ter de parar com a produção industrial que gera o impacto a partir da emissão de poluentes para a atmosfera. Os países mais desenvolvidos sabem que se um deles não assinar a proposta não vai adiante. O controle desse impacto atmosférico depende das massas de ar. Elas se deslocam tanto verticalmente quanto horizontalmente. Se um país continuar emitindo poluentes, essa poluição desloca-se, em sentido horizontal, não existem fronteiras para a poluição, não vai adiantar. O caso americano é um exemplo clássico disso. Eles não estão dispostos a abrir mão do lucro. Agora como podemos atuar? É uma questão de mudança de comportamento. Por exemplo, a geração mais antiga não está preparada, ainda, para essa discussão. Ela se acostumou com a situação. Não existia essa preocupação ambiental. Tudo começou a partir da década de 1960, com o Movimento Hippie, Woodstock, depois ganhou a década de 70 e passou a ser uma temática importante, as grandes conferências começaram a discutir a temática. Virou até certo ponto um modismo. Temos de atuar por meio da Educação Básica. É diferente você ver um adulto falar em educação ambiental e uma criança de cinco anos fechar uma torneira. A criança está em formação e será uma futura questionadora do sistema que está aí. Passa por uma mudança de concepção principalmente das gerações de agora. Não é um trabalho fácil, dizer que “vamos construir uma alternativa a essa proposta ambiental que está colocada pelo Estado”. Mas vamos conseguir pelo menos minimizar algo. Porque, caso contrário, largaríamos esse discurso. Continuamos insistindo porque vemos uma maneira de levar esse debate para as universidades, para as escolas, no sentido de que esse sujeito em formação mude seu comportamento. Não coloco fé que grandes empresas vão mudar de posição. Mas que o povo pode ajudar por meio da pressão, conscientização, fazer com que alguém mude.

“O professor fica tão dependente do livro didático que se tomar o livro dele ele não dá conta de dar aula”

Wagner Oliveira - O educador ambiental pode fazer seu trabalho desvinculado do entendimento político?

Valter Machado da Fonseca -
É impossível. A partir do momento que ele não tem compreensão política de como é a engrenagem e como funciona esse sistema, se ele for fazer algum trabalho ambiental vai reproduzir o discurso capitalista. Ele acaba pegando o modelo pronto de reciclagem ou de coleta seletiva e vai aplicar em sua sala de aula ou em seu projeto ambiental. Mas, está desprovido de qualquer crítica. Assim, qualquer empresa, mesmo a que mais polui, vai bancar isso. Ela não vai ver ali aquela crítica política que geralmente necessita. Entendimento político é fundamental para trabalhar qualquer proposta ou projeto sério de educação ambiental.


“Biocombustíveis é discurso sorrateiramente estratégico do governo Lula. Já participei do PT há algum tempo”


Wagner Oliveira - Como deve ser a formação do educador ambiental diante desse contexto?

Valter Machado da Fonseca –
Acho que além da discussão simplesmente ambiental é preciso construir um sistema de formação continuada de professores que prime pela abordagem política da sustentabilidade ambiental. Isto deve se dar desde as formações básicas até os processos de formação continuada, para que o professor tenha embasamento para aplicar isso em sala de aula. A culpa não é do professor. Muitas vezes, a gente vê o professor em sala de aula com a maior das boas intenções e ele está convicto de que está dando um passo muito grande para solucionar os problemas ambientais. Só que no fundo as grandes empresas e o próprio capital estão se apropriando daquela prática. Eles criam a tal da responsabilidade socioambiental, colaboram com a escola, injetam recursos na escola, em atividades socioambientais visando o selinho verde que permite que ela produza mais e degrade muito mais.


“É preciso fazer um sistema de formação continuada de professores onde se coloca a abordagem política da sustentabilidade ambiental”

Wagner Oliveira - Comente a frase que o senhor disse no minicurso de educação ambiental: “o sistema está em crise. Como vai abrir mão de lucro para atender reivindicações ambientais?”

Valter Machado da Fonseca -
Eu parto da concepção do (István) Mészáros que é um pensador húngaro e do qual compartilho a ideia. Ele fala que o capital passa por uma crise estrutural. Isso vem sendo gestado desde a quebra da bolsa de Nova Yorque de 1929. Vimos a grande crise que assolou, no ano passado, a Grécia. O parlamento grego está despencando, estão tendo problemas sérios. O Euro... caindo. Isso demonstra que o capital está em crise. Fala-se em crise estrutural. A dívida interna dos americanos é coisa faraônica, não dá para anotar em papel por causa da quantidade de zeros. Eles manipulam esses números porque, hoje, quem dá a orientação política do capitalismo são os Estados Unidos. Essa crise está dentro do próprio seio do capitalismo. Então eles têm de se desenvolver a qualquer custo, aumentar o lucro para sanar os déficits faraônicos, e para isso precisam explorar mais a natureza. Para os Estados Unidos as questões ambientais e dentro delas a educação ambiental, são apêndices. Usam esse processo todo simplesmente para justificar a sua exploração. Isso, em uma escala maior, é o que as empresas estão fazendo no Brasil. É o tal do selinho verde, crédito de carbono que acabam justificando a exploração dos recursos naturais e, com isso justificar a exploração, aumentando a produção. O capital precisa se expandir para sanar os déficits. O sistema vive do lucro e eles não podem frear o lucro. Imagine: se o capital está em crise e frearem os lucros a crise aumenta. Não existe nenhuma orientação e interesse político por traz disso? Wagner Oliveira - Em 2009 o senhor escreveu o livro “A Educação Ambiental na Escola Pública: entrelaçando saberes, unificando conteúdos”. Deve ser diferente a educação ambiental na escola pública? Valter Machado da Fonseca - A proposta é de um mesmo patamar, tanto para pública como para particular. Escolhi para abordar nesse livro a escola pública porque na escola pública os problemas são mais evidentes. Abordo as periferias pobres da cidade onde os problemas são mais gritantes, mais evidentes como, por exemplo, esgoto a céu aberto, falta de saneamento, doenças, lixo exposto, terrenos baldios, uma série de problemas que realmente não estão tão visíveis na escola particular que é lugar onde o poder público cuida melhor. Vi como a escola agia nesses locais e fiquei até certo ponto decepcionado ao ver que as escolas não agiam. O discurso é o mesmo e não sai da escola. Você não vê nenhuma proposta da escola para o bairro, nada disso. É o discurso genérico que você encontra no livro didático. É como uma “receita de bolo”.


“O dia que a juventude for capaz de ler o mundo, ver o que aconteceu no mundo e saber quais são as raízes desses problemas vai entender por que têm de agir localmente”

Wagner Oliveira - Estamos no Cerrado, mas fora do Brasil se conhece mais a Amazônia. Como deve ser o foco do educador ambiental dentro do Cerrado?
Valter Machado da Fonseca -
É uma questão interessante. O Cerrado hoje é um bioma relegado ao segundo plano. De grande riqueza tanto florística, faunística e de altíssimo potencial genético. Mas, hoje, o discurso que tem mais repercussão no exterior é o da Amazônia. Em função disso deixam o Cerrado de lado. Hoje, existem apenas 17% de Cerrado original. O Cerrado é fundamental e quantas espécies endêmicas estão sendo extintas? Pequenos coletores que viviam de agricultura de subsistência, do extrativismo de plantas do Cerrado estão desaparecendo. A cultura dos povos do Cerrado está sendo dizimada. Estão entrando grandes grupos econômicos, principalmente grupos agropecuários, e devastando tudo. A proposta de educação ambiental dentro do Cerrado tem como ser feita. Pode se trabalhar reposição de espécies do Cerrado tanto vegetal como animal, reposição de mata ciliar e arborização urbana com espécies do Cerrado. Dá para inserir a escola dentro disso e mostrar a importância do bioma.

"Há regiões no Brasil que fazem latões de Ki-suco adicionando energéticos para trabalhadores trabalharem o dia todo sem sentir fome”


Wagner Oliveira - Há ferramentas que podem auxiliar o trabalho do educador ambiental no mundo atual como informática, educomunicação. Quais ferramentas são úteis para o trabalho de educação ambiental?

Valter Machado da Fonseca -
A informação é fundamental. Só que infelizmente o sistema de informação é muito dirigido no Brasil. Os grandes grupos de telecomunicações estão nas mãos de pessoas que não têm interesse ambiental e isso acaba atrapalhando. Pode ser feito pela imprensa alternativa, comunidades de bairro, algumas ONGs, porque grande parte delas está comprometida com o grande capital. Para se ter uma ideia, na Amazônia há mais de 800 ONGs registradas, mas se olharmos quem trabalha de fato são poucas. O restante arrecada dinheiro do governo e justifica alguma coisa. Existem algumas ONGs preocupadas e a própria escola. Vejo a escola com potencial, principalmente na educação básica, para investir nisso. E a imprensa alternativa, associação de bairros, de moradores, algumas organizações da sociedade civil organizada têm ligação direta. Fora desses não vejo grandes expectativas.


“Os EUA utilizam o petróleo de outros países e deixam o seu intacto. Eles terão mais 30 ou 40 anos para trabalhar”

Wagner Oliveira - Quais são as principais conquistas e desafios da Educação Ambiental?

Valter Machado da Fonseca -
Desafios são muitos. Conquistas são poucas. Na verdade o que temos hoje - se existe alguma coisa de coleta seletiva, reciclagem - não deixa de ser conquista do movimento ambientalista que acabou desencadeando uma prática de educação ambiental. Se bem que essas práticas já foram apropriadas pelo próprio capital no sentido de justificar a superprodução. Mas não temos como desconstruir toda essa prática porque ela acaba, de certa forma, minimizando os impactos. Não quer dizer que não servem para nada. Existe até certa mudança de comportamento e isso é o ganho mais importante. Principalmente na faixa etária das crianças. Vemos, hoje, as atitudes das crianças de questionarem algumas coisas. Questionarem tarefas como jogar papel na rua, fechar uma torneira. Isso em uma pessoa de uma faixa etária mais avançada não significa muita coisa. Mas na faixa etária de criança significa que ela internalizou alguma mudança de comportamento. Se formos observar isso dentro do processo cognitivo da criança, dentro da formação social desses futuros cidadãos pode se ter uma esperança de que virão tempos melhores.


“O que adianta 500 hectares para colocar 200 cabeças de gado? Estão desperdiçando terra, perdendo potencial genético e de fertilidade”


Wagner Oliveira - Há movimentos estudantis de jovens discutindo o meio ambiente. Como o senhor vê esses movimentos com temática jovem e meio ambiente no cerrado?

Valter Machado da Fonseca -
Faz parte de uma política mais global. Na minha época de movimento estudantil discutíamos problemas de democracia, do Estado Democrático, a conquista de um Estado Democrático. Vivíamos em um sistema ditatorial. Esse eixo de discussão foi deslocado. Hoje, se vê que a democracia brasileira é incipiente, jovem, nos moldes da democracia burguesa. Mas criamos um espaço onde podemos nos manifestar. Hoje, um dos males da sociedade de consumo é a questão ambiental, com toda certeza. E uma das formas que a juventude vê de manifestar sua insatisfação com esse modelo econômico é exatamente nos movimentos ecológicos e ambientais. Isso já é um avanço. Todos os eventos nos quais a juventude está inserida isso é um ponto que está colocado em pauta. O que falta no processo é uma politização dessa discussão. Comecei a fazer uma pesquisa sobre os materiais que a juventude utiliza para discutir a questão ambiental. Geralmente são materiais de reprodução midiática ou de reprodução de órgãos oficiais do governo ou de reprodução de órgãos da mídia. Falta uma elaboração própria deles com uma crítica contundente das raízes dessa problemática. Hoje, por exemplo, jogar papel de bala na rua - tenta-se jogar nos ombros da população um problema que é do Estado e das grandes empresas. Vemos grandes empresas despejarem toneladas de mercúrio nos rios, mineradoras... Sou técnico em mineração, ajudei a degradar muito. Vemos mercúrio nos rios, metais pesados e isso não é nada. Para eles papel de bala é que degrada. Tentam esconder os grandes problemas por detrás dos pequenos. E tentam jogar que a enchente, a inundação é culpa da população, do papel de bala. De uma maneira indireta, um discurso meio camuflado, mas passa como se fosse isso. O que falta nessas práticas para a juventude é politização, uma leitura crítica das raízes dos problemas ambientais.


“O que falta nas práticas para a juventude é politização, uma leitura crítica das raízes dos problemas ambientais”

Wagner Oliveira - O melhor fiscal é o que já pescou o peixe fora da medida, já degradou o meio ambiente no passado. O melhor educador ambiental também é aquele que já degradou o meio ambiente e se “converteu” em ambientalista?

Valter Machado da Fonseca -
Acho interessante. Tenho visto algumas matérias até na grande mídia, como o caçador no Pantanal que caçava jacaré, vendia carne de tartaruga, etc.. Hoje, se transformou e é um agente de defesa do meio ambiente. Essa pessoa tem muito mais propriedade para falar porque ele veio do outro lado, ele sentiu o que estava fazendo. Nesse sentido é um salto de qualidade. Cito o meu caso. Trabalhei em grandes mineradoras que hoje não trabalho por nenhum dinheiro. São grades mineradoras e vi coisas aberrantes, mas na época eu não tinha essa percepção ambiental. Achava que era normal e não via nenhum mal naquilo. Hoje, com a leitura que tenho penso: “Nossa o que eu fazia naquela época?”


“Minha concepção é de que nem valeria a pena extrair no Pré-Sal. O Brasil está querendo mostrar o poder geopolítico da produção de petróleo porque quem fabrica petróleo tem poder”


Wagner Oliveira - Qual foi o momento que o senhor despertou e estudou para ser um educador ambiental?
Valter Machado da Fonseca -
Quando fiz o curso técnico de mineração em Ouro Preto saí para trabalhar na CPRM - Companhia de Pesquisa e Recursos Minerais - que faz pesquisa e prospecção de minérios. Depois trabalhei na Vale do Rio Doce, em Itabira, com minério de ferro. É catastrófico, crateras e mais crateras para extrair hematita. Depois trabalhei na Petrobras, Petroquisa no Rio de Janeiro, na Bacia de Campos, e vi muita agressão ao meio ambiente como despejarem reagente que vazava para o oceano. Na Companhia de Pesquisa e Recursos Minerais íamos para tapar o buraco de algumas companhias que estavam despejando metais pesados nos corpos d’água, mercúrio, nióbio. Em Araxá tem a CBMM (Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração) que aparenta ser uma empresa com uma responsabilidade socioambiental fantástica, você olha e vê um ambiente limpíssimo e quando entra vê crateras, desvios de corpos d’água, exploração de nióbio que já é metal pesado. Isso não transparece para a população. Falo assim porque vivenciei essa experiência, não tenho muito o que esconder.


“A geopolítica do petróleo é que está colocada em pauta. Futuramente vai ser a política da água”

Wagner Oliveira - O senhor diz: desenvolvimento sustentável é uma panacéia. É uma criação para justificar o capital.
Valter Machado da Fonseca -
Hoje adotei uma matriz teórica mais forte, mais crítica, baseada no pensador húngaro Ístvan Mészáros. Ele discute inclusive na obra dele “Para Além do Capital” ou na última obra “A crise estrutural do capital” onde ele se embasa nas próprias fontes de informação oficiais dos Estados mostrando a profundidade dessa crise. A leitura crítica que ele faz mostra um capitalismo em crise nas últimas décadas. Grande crise do ano passado, ano retrasado quando o Brasil teve de injetar dinheiro para sustentar o mercado interno. Crise em Nova York, nos Estados Unidos quando as pessoas perderam a casa e foram para a mendicância. Agora a Grécia, Mercosul balançado. Tudo são sintomas de que o capital está em crise. Só que antigamente a crise do capital era uma crise cíclica, que ia e voltava em determinados períodos. Hoje, essa crise cíclica está se agudizando. Cada ciclo está mais próximo do outro, o que indica o grande pico de uma crise definitiva. Os rombos da crise interna Norte Americana são incalculáveis em número de zeros. Não tem nem como justificar mais. Vivem de especulação financeira, as bolsas girando mundo, algo totalmente complicado. A crise está instalada. Se o capital está em crise ele não vai criar uma cobra para picá-lo. O desenvolvimento sustentável requer uma parada nos lucros. Se ele pretende sair da crise tem de aumentar o lucro, tem de expandir ainda mais. Esse discurso ele utiliza como maneira de justificar sua própria produção. Ao mesmo tempo em que desvia a atenção política da crise financeira, da desigualdade social, volta grande parte da militância política para a questão ambiental e esquece a grande crise do capital e a crise da desigualdade social. Por um lado camufla a crise, por outro ganha com ela justificando sua produção.

“O tema ambiente atravessa todos os conteúdos. Não dá para você ter uma disciplina simplesmente falando sobre educação ambiental”


Wagner Oliveira - O ser humano cria e precisa seguir as leis. O senhor mostra que algumas partes das leis ambientais e conceitos sobre meio ambiente têm uma visão antropocênica. Como ter leis ideais e mais justas? Isso é possível?
Valter Machado da Fonseca -
É um desafio. Acho que o homem tem de perceber que é uma espécie dentre tantas. Ele faz parte da cadeia da vida e está no topo dela por causa da capacidade de raciocínio. Ele tem de perceber que depende tanto dos elementos vivos como dos elementos não vivos. O corpo humano é um laboratório. Ele precisa dos elementos químicos, dos sais minerais, dos minerais. Para sua própria produção de mercadorias ele precisa das outras espécies e dos recursos da natureza. Se ele quebra esse equilíbrio não vai terminar com a Terra nem com a teia da vida. Vai terminar com ele mesmo. A Terra vai continuar com ou sem o homem. Se deixarmos uma área onde se faz agricultura há 20 anos descansando durante 20 anos quando voltarmos tudo estará recomposto. Mostra que a natureza não depende do homem para se recompor. O homem é bastante jovem, nem meio milhão de ano está na Terra. É um bebê diante da idade da Terra que tem entre 4,5 e 5 bilhões de anos. Na verdade estamos aqui recentemente. Estamos cavando nossa própria sepultura, acabando com nossa própria espécie. A Terra vai continuar independentemente do homem.


“A indústria do livro didático ganha fortunas. Igual a indústria dos vestibulares. Pró-Une, Enem visam acabar com a indústria dos cursinhos”

Wagner Oliveira - Vivemos em uma sociedade altamente informatizada, mas que, na verdade, desinforma.
Valter Machado da Fonseca -
Isso é um termo dialético. Uma criança de cinco ou seis anos domina o computador. Chega a uma lan house e abre jogos, mexe nos programas. Em um instante ela aprende. A tecnologia é autodidata. A informação chega muito rápido para o ser humano. Mas precisamos saber que tipo de informação? Qual informação é jogada na internet? 95 por cento é consumista para manter o fluxo de capitais. Para um professor trabalhar em sala de aula com a informatização e internet ele precisa saber selecionar muito bem os conteúdos se não vai criar uma faca de um gume só. Só vai levar no sentido de o aluno, o educando só pegar aquilo que está sendo reproduzido pelo sistema. Ao mesmo tempo em que joga uma série de informações, essas informações são controladas pelos meios de comunicação. Informações por um lado para a reprodução do capital e por outro lado porque não chega informação correta para a população.

“Não estou dizendo que a educação ambiental vai resolver os problemas. Ela vai ajudar é esclarecer muita coisa”


Wagner Oliveira - Coleta seletiva parece como uma luz no fim do túnel. Como o senhor vê iniciativas como a da coleta seletiva para a reciclagem diante dos problemas ambientais. São iniciativas tímidas diante do capital?
Valter Machado da Fonseca -
São iniciativas muito tímidas. Extremamente tímidas. O Brasil, hoje, é um dos países que mais recicla, principalmente latas de alumínio e é irrisório diante do que produzimos. É até uma discussão de cunho filosófico. Há pouco tempo lancei para os alunos um título para eles produzirem um texto: o trabalho no lixo é um trabalho ou um subtrabalho? Tentam passar uma ideia de que a pessoa viver do lixo é um trabalho digno. Eu discordo disso. A partir do momento que você vai viver dos restos daquilo que as pessoas mais abastadas produzem isso é degradante. Na minha concepção de trabalho isso é trabalho totalmente alienado, degradante. A pessoa está ganhando para sobrevivência porque se pudesse escolher fatalmente não ficaria naquilo. A ele falta oportunidade de educação e vários itens. A reciclagem, hoje, é utilizada para amortecer a desigualdade social nesse ponto e por outro ponto para justificar a produção. Se a reciclagem fosse tão importante estariam investindo muito dinheiro nela, o que não vemos acontecer. Tem quem ganha muito dinheiro com ela, mas quem trabalha de fato são as pessoas que estão excluídas da sociedade.


“Aquífero Guarani já está sendo poluído. 100% do abastecimento de água de Ribeirão Preto vem do Aquífero Guarani e lá só de poços abandonados há 300”

Wagner Oliveira – Aí entra aquela citação de que 20 por cento dos habitantes do planeta consomem cerca de 80 por cento de matéria-prima e energia. Precisamos então de cinco planetas para atender a todos. A realidade do consumismo.

Valter Machado da Fonseca -
É uma citação de Genebaldo Freire Dias e de Carlos Walter Porto Gonçalves. Para se ter uma ideia Genebaldo Freire Dias trabalha para uma grande construtora, é consultor. Tanto que nas palestras a visão dele não é a mesma da construtora. Os slides mostram que sua posição não é a da construtora. Ele separa a ideia dele da ideia da construtora. Sabemos muito bem que a construtora degrada. Esse trabalho foi feito no entorno de Brasília e depois o Carlos Walter Porto aproveitou esse trabalho do Genebaldo Freire que tem dados científicos comprovando porque em uma residência de uma família de classe alta o consumo de energia é muito maior. Conceito de desenvolvimento sustentável para eliminação da pobreza vai até que ponto? Só para a pessoa ganhar salário mínimo acho que o conceito até vale. Mas se for para ter uma condição digna de vida vai ter de aumentar o salário, as condições de vida. Consequentemente para contrabalancear essa queda e esse consumo de energia vai ter de abaixar as condições de vida de alguém, os 20%. Na verdade, se for fazer esse gasto de energia com o trabalho que eles fizeram no Entorno de Brasília, fazer uma referência com as grandes regiões metropolitanas do mundo, regiões urbanizadas gastariam em torno de cinco planetas de produção de energia para aumentar as condições de vida ao nível de sobrevivência com dignidade.

“A degradação total do Cerrado pode causar um desequilíbrio total dos outros biomas porque ele é o bioma mais antigo do Brasil”


Wagner Oliveira - Grandes problemas da humanidade são destinação correta de lixo e produção de energia. No presente utilizamos o petróleo e dependemos dele. Por que o senhor considera a descoberta do petróleo a pior descoberta da humanidade?

Valter Machado da Fonseca -
Essa é uma afirmação até certo ponto aventureira. Porque não tem como conseguir questionar a história. A história aconteceu, o petróleo foi descoberto e utilizado. É fácil falar depois que seria muito melhor se não tivesse descoberto. Talvez se não tivesse descoberto não teríamos como falar disso. A história é dinâmica e é incontestável. Mas ela serviu para mostrar que aquilo que a natureza selecionou e depositou a grandes profundidades, gases venenosos que estão embutidos no petróleo, nos subprodutos do petróleo, o homem joga para cima de novo como o motor a explosão. Fez a lógica inversa do que a natureza fez. Por isso falo que a ciência poderia estar utilizando a energia solar há muito mais tempo e talvez tivesse evitado grande parte dos problemas ambientais da atualidade em função do petróleo e de seus subprodutos. Vemos a poluição das grandes empresas, muitas indústrias utilizam petróleo, diesel. Apesar de que ainda existe empresa que queima carvão vegetal, destrói o cerrado para abastecer altos fornos de siderurgias. Na região de Ipatinga, Minas Gerais, estão plantando eucalipto. É a silvicultura com árvore exótica. Eucalipto é árvore australiana, cresce rápido para manter os alto-fornos, não é nem brasileiro. Eles acabaram com o que havia de cerrado. Há pouco tempo soltaram matéria no jornal dizendo que a Usiminas estava plantando florestas. Li a matéria e vi que tinham retirado milhares de hectares de cerrado nativo e plantaram cinco mil hectares de eucalipto. Então não plantou nada, arrebentou com o solo. A questão de como utilizar a matéria-prima, os recursos naturais fica presa nas contradições.


“Entendimento político é fundamental para trabalhar proposta séria ou projeto sério de educação ambiental”

Wagner Oliveira - Há uma grande preocupação das pessoas com a emissão de gás carbônico, efeito estufa, mas efeitos naturais como um vulcão que explode emitem muito mais gás carbônico do que a humanidade emitiu em dezenas ou centenas de anos. Como o senhor vê essa preocupação com algo que impacta menos do que fenômenos naturais?

Valter Machado da Fonseca -
A história da Terra demonstra desde o surgimento do planeta há 4,5 bilhões de anos que a atividade vulcânica é intensa. E esses lançamentos de gás carbônico na atmosfera já são provenientes desde os vulcões com enxofre, chuva ácida. Isso é previsível porque temos as regiões de instabilidade geotectônica. Sabemos que o circulo do fogo em volta da Terra é região de instabilidade vulcânica. Regiões de encontro de placas tectônicas como no Japão, são cinco placas diferenciadas que se encontram. Há um anel de instabilidade geotectônica em torno do planeta. Isso já é previsível. Temos de trabalhar sabendo que essa emissão de poluentes de tempos em tempos vai acontecer, é natural, não tem como o homem brecar e interferir. Mas a nossa parte seria minimizar onde está instabilizado. A Terra não está estabilizada geologicamente. Temos várias regiões do Brasil que já foram vulcões que estão extintos há milhares de anos, mas que nada nos garante que não possam voltar à ativa. Porque o núcleo da Terra é como se fosse um grande sopão que está em ebulição e o magma procura a região de menor resistência. Falamos que no Brasil temos estabilidade vulcânica porque estamos no meio da placa. Mas também essa placa pode rachar a qualquer hora. De vez em quando se sentem tremores de terras no norte de Minas e vários outros lugares do Brasil. As regiões estão mais ou menos instáveis e temos que ter o bom senso de pelo menos equilibrar. É a maneira de pelo menos garantirmos o mínimo de qualidade de vida no planeta. A causa natural de emissão de gases não tem como controlar. Mas o problema maior e que está causando o superaquecimento do planeta são as ações antrópicas sobre os recursos do planeta.

"Aquífero na Amazônia é dependente da floresta, da bacia hidrográfica. Se ocorrer um rebaixamento do lençol freático vai afetar o aquífero”


Wagner Oliveira - O senhor frisa que a única matriz energética limpa é a do sol. Como vê as alternativas dos biocombustíveis?

Valter Machado da Fonseca –
Os biocombustíveis fazem parte de um discurso, sorrateiramente estratégico elaborado pelo governo Lula. Já participei do PT há algum tempo, mas temos de colocar essa discussão. O governo brasileiro nesse período teve a grande sacada de ver que uma das crises da humanidade no século XXI é a energética, ao lado da superprodução do lixo. O Brasil como é um país continental, grandes quantidades de terras férteis. Tivemos na história remota, a partir da exploração do Brasil, uma experiência até certo ponto positiva no sentido do capital com a cana-de-açúcar. Por que não repetir? Foi essa a lógica que puxou o etanol. Essa questão de adicionar 20 por cento de etanol à gasolina ocorreu na época dos militares, na década de 70, com a crise do petróleo. Isso para sair daquela crise. Saíram da crise e até há pouco tempo carro a álcool brasileiro era motivo de chacota. Depois com a crise da energia começou a ser a grande vedete. Com isso o governo brasileiro viu a oportunidade de ganhar muito e investiu nos biocombustíveis como os de mamona e outros tipos de vegetais que podem produzir energia. Só que os estudos falam que se investirmos pesado nos biocombustíveis vamos ter de abrir mão das nossas áreas agrícolas de produção de alimentos. Vão também querer substituir o petróleo e isso é impossível porque a molécula do petróleo é muito mais explosiva. Teríamos por exemplo de plantar dois planetas e meio de cana-de-açúcar. Na verdade os biocombustíveis entram na história como maneira de dar um respiro temporário, tempo excedente para sanar a crise do petróleo. Uma geopolítica do petróleo. E quem ganha com os biocombustíveis: o governo, as grandes montadoras de automóveis, os usineiros, os banqueiros e mais ninguém. Os trabalhadores da cana-de-açúcar estão morrendo. Tenho um artigo que fala que na época da escravidão no Brasil um escravo cativo tinha 17 anos de vida útil. Hoje, o trabalhador da cana-de-açúcar tem 13. Esses números são de uma pesquisa do professor da UNESP de (Presidente) Prudente Antônio Tomaz Júnior. Ele fez pós-doutorado nessa área. Ele calculou até quantas vezes o trabalhador se abaixa para pegar o feixe de cana, vai, volta, quanto gasta de energia, quantos golpes dá na cana para cortá-la. E fala também que há regiões no Brasil que fazem latões de Ki-suco (abacaxi, groselha) adicionando energéticos para os trabalhadores trabalharem o dia todo sem sentir fome. Para se ver aonde chegamos.


“Para os EUA a educação ambiental é um apêndice. Usam esse processo todo simplesmente para justificar a sua exploração”

Wagner Oliveira - No contexto da educação ambiental como o senhor avalia aquela frase: “pensar globalmente e agir localmente”?
Valter Machado da Fonseca -
É aí que falo que temos de ter a compreensão política. Antes de falar vamos fazer coleta seletiva no meu bairro temos de perguntar por que vamos fazer? O dia que a juventude for capaz de ler o mundo, ver o que aconteceu no mundo e saber quais são as raízes desses problemas eles vão entender por que têm de agir localmente. Vão entender que aquela ação local dele pode desencadear uma série de outras ações que vão interferir em uma mudança maior. Uma visão mais crítica do problema ambiental.


Wagner Oliveira - Mas como agir localmente no Cerrado?

Valter Machado da Fonseca -
No Cerrado é uma questão interessante. O Cerrado é um bioma que tenho um carinho muito especial por ele. Foi muito desprezado, devido ao grande problema de acidez do solo, muito alumínio. A partir do momento que descobriram como corrigir a acidez, fazer a calefação do solo com o fosfato e o calcário que está dentro do próprio Cerrado. O Cerrado tem a acidez, mas tem as jazidas de calcário dentro dele. Cerrado é de fácil mecanização, solos bem drenados e de grande profundidade, mais ou menos planos, que possibilitam fazer a mecanização de culturas. A partir desse momento abriu toda uma frente para exploração do Cerrado. Uma terra que era quase a preço de banana passou a ser supervalorizada. Aí o capital entrou de vez no campo. Quem mais produz no Cerrado são os grandes grupos econômicos, multinacionais. Plantam soja, exploram o solo até não ter mais limites. Com isso estamos perdendo espécies endêmicas fundamentais, agronômicas, farmacêuticas que não sabemos nem ainda o princípio ativo. As comunidades que viviam de coleta de subsistência, coletores, desapareceram. Observo que havia a guariroba - um tipo de palmito que gosto muito – em grande quantidade no Cerrado e hoje está sendo feito plantio de guariroba porque está acabando a guariroba nativa. Araçá, pequi que aqui há bastante, na nossa região (Minas Gerais) acabou. A frutinha gabiroba, vários outros frutos do cerrado e o ipê estão sendo devastados, mandados para o exterior como planta ornamental, biopirataria. O Cerrado passou a sofrer uma ação avassaladora. As escolas das regiões que estão dentro do Cerrado deveriam valorizar mais a educação ambiental no sentido de trabalhar mais essas plantas, fazer trabalho de campo com alunos no Cerrado, mostrar a importância desse bioma. Trabalhar por exemplo viveiro de mudas para reprodução de espécies do Cerrado para plantio ornamental, para recomposição de mata ciliar, arborização de praças e jardins. Fico feliz em ver que a UFG (Universidade Federal de Goiás) está dentro do Cerrado ainda, se bem qu

e um pouco degradado. Vemos macacos e isso é prova de que o bioma não está tão degradado porque se estivesse não existiriam mais macacos. Vemos que temos um potencial muito grande e que a escola precisa saber como trabalhar isso. Se conseguirmos mostrar essa importância talvez conseguíssemos frear um pouco a exploração desordenada.


Wagner Oliveira - O filósofo belga Luc Vankrunkelsven percorre anualmente o Brasil fazendo palestras sobre a produção de soja que o país exporta e a Europa importa, as consequências. Ele defende que cada país produza seu alimento. O Cerrado deve ser o celeiro do mundo ou cada país precisa produzir seu próprio alimento?
Valter Machado da Fonseca -
Você me pegou de surpresa com essa colocação. Preciso pensar mais, mas a primeira vista achei muito interessante. A própria tradição cultural culinária de cada país é diferente. Não podemos impor a soja ao mundo inteiro. As plantations, monoculturas, tendem fazer a homogeneização da culinária, que tudo seja à base de soja. Aí se destrói a cultura de cada região. O Cerrado dá condições de criarmos vários tipos de pratos. Às vezes se consegue até viver independente de outro bioma. Agora imagine de país para país. Não sobrecarregaria, acabaria esse problema desse comércio totalmente desagregador das grandes monoculturas e seria também uma maneira de estar minimizando os impactos sobre os biomas dos diversos países. Wagner Oliveira - Agricultura ou pecuária orgânica são boas alternativas? Valter Machado da Fonseca - Acho que sim. Apesar de que o povo não dá muito valor. É mais difícil, o vegetal ou o animal fica mais feio, mais mirradinho, mas o valor nutritivo é outra coisa. Você fica livre dos pesticidas ou agrotóxicos. O que importa não é a aparência. Hoje, o vegetal é tão melhorado geneticamente no sentido de que até a estética dele é mais bonita. Vemos um pé de alface enorme, bonito e estamos comendo ali no mínimo dois ml de agrotóxico. A agricultura orgânica deveria ser mais incentivada, mais trabalhada nas escolas inclusive como educação ambiental porque está ligada também à educação de saúde. Saúde também é uma dimensão do ambiente.


“No Brasil é o tal do selinho verde, crédito de carbono que acabam justificando para explorarem mais, produzirem mais”

Wagner Oliveira - Alguns ruralistas dizem que se somos cerca de 7 bilhões de pessoas no mundo indo para 9 bilhões por volta de 2050 seria difícil alimentar tantas pessoas com a alternativa da agricultura orgânica, de forma sustentável. Valter Machado da Fonseca -
Esse discurso dos ruralistas é o discurso mais estranho que já vi. Esse discurso nasceu na Revolução Verde, década de 70, época dos pacotes tecnológicos. Teoria do (Thomas) Malthus de que a população do mundo ia aumentar exponencialmente e não teríamos alimentos para todos. Criaram os pacotes tecnológicos, insumos agrícolas, pesticidas, Revolução Verde. O problema do Brasil principalmente é nossa política fundiária. Existe estrangeiro que é dono de um quinto da Amazônia. Não produz absolutamente nada. Existe por exemplo fazendeiro que tem 200 hectares de terra e não consegue produzir nos 200 hectares e quer mais 500 hectares. Então o problema do Brasil é a política fundiária. Vamos pegar a Europa e os Estados Unidos. Não existe grande propriedade. São todas pequenas propriedades. No Brasil, um dos fatores que atrapalham o desenvolvimento é a questão da política fundiária. Não há como se desenvolver um país com latifúndio como está sendo colocado. Não estamos entrando em discussão de MST, nem ocupação de terras. Estou dizendo é que a política fundiária brasileira é equivocada. Vários governantes que passaram por esse país falaram que iam fazer a reforma agrária. Nunca foi feita porque esbarram em interesses de grandes latifundiários que estão com aquela terra para especulação, não é para produzir. O que acontece com as pequenas propriedades nos Estados Unidos e na Europa? A produção é vertical. Não precisa de muita terra para produzir. E produz muito em pequenas partes por causa da tecnologia. O que adianta 500 hectares para colocar 200 cabeças de gado? Estão desperdiçando terra, perdendo potencial genético e de fertilidade. O dia que se resolver o problema fundiário consequentemente esse discurso cai no vazio.

Wagner Oliveira – Os Estados Unidos usam de geoestratégia e economizam seu petróleo enquanto importam de reservas de outras partes do mundo. E já há previsões de que o petróleo possa acabar no mundo em cerca de 70 anos.
Valter Machado da Fonseca -
É uma visão estratégica. Não existe nenhum estudo no mundo que derrube essa tese de que o prazo máximo para exploração das jazidas de petróleo é entre 70 e 80 anos. E petróleo é um recurso natural que podemos dizer “não renovável”. Ele demora milhões de anos para se refazer. Desenvolveu-se toda uma matriz energética em cima do petróleo, ele tem um prazo de validade de 70 anos e os Estados Unidos atuam sabiamente – pode observar que o país sempre está metido em guerra no Oriente Médio, Afeganistão, Iraque, Golfo Pérsico. Entram onde há petróleo e começam a controlar a região, utilizam o petróleo e deixam as suas reservas intactas. Vamos supor que amanhã não se encontre outra forma de energia para ser utilizada. Ou encontre, mas esteja em processo de produção. Nesse momento os Estados Unidos terão mais 30 ou 40 anos para trabalhar antes de se desenvolver a tecnologia dele.


“O discurso é o mesmo e não sai da escola. Não vê nenhuma proposta da escola para o bairro. É o discurso genérico que você encontra no livro didático”

Wagner Oliveira - Como o senhor avalia o Pré-Sal diante desse contexto. O Brasil está fazendo a melhor utilização, tem geoestratégia também já que até a exportação desse petróleo está prevista.

Valter Machado da Fonseca - O Pré-sal até no próprio discurso do governo fica claro. A presidenta Dilma Roussef e o ministro das Minas e Energia [Edison Lobão] já deixaram claro que o Pré-Sal não veio no sentido de baixar preço da gasolina na bomba. O preço será o mesmo. Para o consumidor não vai significar nada. A única coisa que vai fazer é com que o Brasil seja autossuficiente em petróleo. Mas isso o Brasil já é sem o Pré-Sal. Tecnologia altamente cara. Imagina trabalhar em águas profundas. O Pré-Sal está a 5 mil metros da camada de sal. Imagina a sondagem para fazer um furo nessa camada de sal para atingir o bolsão petrolífero, a pressão e quantos equipamentos são gastos nessa exploração. Minha concepção é de que nem valeria a pena extrair. O Brasil está querendo mostrar o poder geopolítico da produção de petróleo porque quem fabrica petróleo tem poder, quer um assento no Conselho de Segurança da ONU e para isso tem de utilizar todas as artimanhas. Quem tem poder diante do mundo, dentro da ONU, é quem tem petróleo. E será um petróleo muito caro e que não vai resolver, não vai acrescentar em nada se for olhar o montante do petróleo mundial.

Wagner Oliveira - Uma discussão polêmica que voltou a tona novamente. Educação ambiental na escola tem de estar no currículo ou de forma interdisciplinar?
Valter Machado da Fonseca -
Quando surgiu essa discussão tinha-se uma proposta de fazer uma disciplina específica chamada educação ambiental. Fui contra essa proposta de disciplina específica. Porque todas as disciplinas estão inseridas no ambiente. Tudo que fazemos estamos dentro do ambiente. Tanto que na minha tese de mestrado falo da dimensão ambiental da educação. Paula Brügger fala que se a educação antes não era ambiental era o que? Formal então? Tradicional? Parte-se do pressuposto que a educação tinha de ter uma dimensão ambiental. Só que essa discussão aflorou por causa da crise ambiental e aí queriam colocar de qualquer maneira isso na escola. Ainda bem que existe o setor que defende essa proposta na perspectiva interdisciplinar, transdiciplinar e multidisciplinar. Porque o tema ambiente atravessa todos os conteúdos. Não dá para você ter uma disciplina simplesmente falando sobre educação ambiental. Na química tem de se falar em ambiente, física, matemática, geografia, história, português, biologia. É um conteúdo comum a toda a grade curricular.


“A proposta de educação ambiental dentro do Cerrado pode trabalhar reposição de espécies do Cerrado. Dá para inserir a escola e mostrar a importância do bioma”

Wagner Oliveira - Educadores ambientais usam dinâmicas e músicas no trabalho de educação ambiental. Contribui?

Valter Machado da Fonseca - É importante porque toda metodologia de ensino que vem para inovar é importante. Estão acostumados com livro didático e não é bom. Considera-se que todas as regiões do Brasil são iguais. Problemas do Nordeste são iguais aos do Norte, do Sul. Todos recebem o mesmo livro didático e é diferente o contexto de Goiás, do Sul. E o professor fica tão dependente do livro didático que se tomar o livro dele ele não dá conta de dar aula. E não é culpa dele. Foi uma política que fez com que ele ficasse dependente desse livro didático. Atrás disso tem a indústria do livro didático ganhando fortunas. Igual a indústria dos vestibulares que estão querendo acabar com ela devagarzinho mas já tem muita gente reclamando. Pró-Une, Enem que visam acabar com a indústria dos cursinhos. Na verdade essa questão que veio para inovar, questão holística, da musicalidade e do teatro, desenvolve o potencial criativo dos alunos. Mesmo que não consiga passar algo mais do que isso só a questão do desenvolvimento do processo criativo dos alunos já vale a pena.

Wagner Oliveira - Já há previsão de que a próxima grande extinção será dos minerais. Um exemplo é o lítio utilizado em baterias de carros ou de câmeras fotográficas que há em quantidade e em locais restritos no mundo como na Bolívia. Com tantas pessoas utilizando os minerais muitos não vão existir por muito tempo. É uma boa discussão para o educador ambiental?
Valter Machado da Fonseca -
Os minerais de uma forma geral, situando o petróleo que já está com os dias contados, são finitos. Hoje, estamos muito presos na discussão de energia. Acho que na sala de aula esse ponto que você está falando deveria ser mais enfatizado. Temos minerais raros como o lítio, o nióbio que para ser extraído dois gramas precisa-se desmontar, por exemplo, dez toneladas de rocha. Imagine o tamanho do buraco que se faz para extrair uma quantidade tão pequena. Outros minerais raros são ouro, prata, platina. São minerais importantes e que precisam ser preservados. Precisamos estudar alternativas. Imagina a cratera que fica com a exploração do próprio ferro, que é um mineral abundante no Brasil. Regiões como Carajás ficam monstruosas. Hoje, a mineração tem de saber como equalizar os recursos naturais porque todos eles são finitos. Acho que essa discussão tem de ser levada para a sala de aula de uma forma mais séria, inclusive com um demonstrativo de trabalho de campo. Inclusive a escola peca muito em deixar o aluno só dentro da sala de aula. Uma coisa é mostrar gravura e outra é ir com o aluno para o campo mostrar o que é. Não estou dizendo que a educação ambiental vai resolver os problemas. Ela vai ajudar é esclarecer muita coisa. Por isso que continuo defendendo, apesar de fazer toda essa crítica.


“Dentro do processo cognitivo da criança, dentro da formação social desses futuros cidadãos pode dar uma esperança que virão tempos melhores”

Wagner Oliveira - No livro “Entre o ambiente e as ciências humanas” o senhor cita que a ocupação do Cerrado ocorreu há 10 mil anos. Estima-se que o homem ocupa a Terra há cerca de 2 milhões de anos mais ou menos. Minas Gerais e Goiás têm cerrado e recentemente foram descobertos fósseis de pequi, cagaita e baru em Catalão, Goiás, datados pelo processo Carbono 14 em 65 milhões de anos. Como o senhor vê essas descobertas que mostram que a vegetação foi preservada durante tanto tempo e transformada em poucas décadas?
Valter Machado da Fonseca -
Acho interessante. Primeiro é preciso contextualizar o Cerrado. O Cerrado é de extrema importância, é o bioma mais estável que temos. Se estudarmos o Cerrado pré-histórico dá para ver toda a organização socioespacial do homem na América Latina. O Cerrado pré-histórico mostra como as pessoas se reuniam, como os grupos se deslocavam em função dos frutos, da alimentação. Tudo isso está registrado em reservas arqueológicas encontradas no Cerrado. A Amazônia, por exemplo, é um bioma recente, de solo extremamente pobre, arenoso. A floresta vive dela mesma, recicla, ela mesma produz o húmus que a mantém em pé. Tanto é que o desmatamento lá mostra que a desertificação vem rápida porque é silicato, areia, vira deserto. O Cerrado é muito mais antigo do que a Amazônia, possui a grande caixa d’água da América do Sul. Pode-se observar que a maioria dos rios brasileiros e da América do Sul nascem no Cerrado. As maiores bacias hidrográficas e as mais importantes estão no Cerrado. Hoje, precisamos rever o conceito que temos de Cerrado. Estamos entrando em um conceito extremamente economicista de simplesmente explorar, explorar, explorar. E esquecemos que a degradação total do Cerrado pode causar um desequilíbrio total dos outros biomas porque ele é o bioma mais antigo do Brasil. Wagner Oliveira - Em relação à água nas bacias hidrográficas já estamos tendo conflitos em Goiás. Como exemplo temos o município de Cristalina em que a água não é utilizada somente no abastecimento urbano, mas principalmente em grande quantidade de pivôs para irrigação. Os conflitos surgem porque há exigência de mais água e limitação de quantidade nos rios da região. Valter Machado da Fonseca - A Sandra Braga que escreveu os dois últimos livros comigo é analista de projetos no CNPq, é de Uberaba, pesquisa essa questão do Cerrado e tem uma leitura mais profunda. Ela fala que atualmente a geopolítica do petróleo é que está colocada em pauta. Futuramente vai ser a política da água. Não é o que a mídia fala: que a água está acabando. Ela não está acabando porque é mantida com o ciclo hidrológico. Não acaba nunca. A mesma quantidade que havia no passado temos até hoje. O que está acabando é a água potável. Fruto da ação humana sobre o ambiente. Estamos poluindo a água que temos à disposição. Tem aluno que fala se não podemos beber água da calota polar porque é água doce, pura. Mas você vai causar um desequilíbrio na calota polar? Estuda-se, por exemplo, a dessalinização da água do mar para uso futuro. Mas é uma tecnologia extremamente cara e aí fala-se que é para consumo humano. Mas que consumo humano? Você dessalinizar a água do mar para a agricultura, para a indústria vai causar desequilíbrio na composisão salina do mar. Se causar desequilíbrio na pressão salina do mar todos seres vivos do mar podem morrer. E a vida começou onde? No mar. Então começamos a acabar com ela onde ela começou. Essa alternativa já pode ser descartada. No Brasil, temos 12 por cento da água potável do mundo, água de superfícies e aquíferos. Tirando os poucos lagos que o Brasil tem - a maior parte dos lagos está nos Estados Unidos e Canadá - somos privilegiados por ter 12 por cento da água do mundo. Se observarmos a água que o homem pode utilizar hoje, a água de superfície chega a 1 milhão e 300 mil metros cúbicos de água, os lençóis são em torno de 260 milhões de metros cúbicos e lagos. Calotas, oceanos, água da atmosfera, água do solo o homem não tem como usar.


“Trabalhei em grandes mineradoras que hoje não trabalho por nenhum dinheiro. Vi coisas aberrantes, mas na época eu não tinha essa percepção ambiental”

Wagner Oliveira - Gerou grande expectativa quando se descobriu o aquífero Alter do Chão, na Amazônia. Mas o senhor diz que esse aquífero é dependente da floresta, da bacia hidrográfica. Se ocorrer um rebaixamento do lençol freático vai afetar o aquífero. O aquífero da Amazônia não tranquiliza nosso país em relação ao futuro?

Valter Machado da Fonseca -
Não tranquiliza. Há um americano que diz que pode ser dependente da bacia hidrográfica, da condição do regime de chuvas da Amazônia e da floresta. Depois o professor Aziz Ab’Sáber confirmou isso. Ele mostra claramente que ele é dependente. Já foram feitas pesquisas, sondagens e onde foi desmatado interrompe. Não podemos utilizar o Aquífero da Amazônia como se utiliza o Aquífero Guarani. E é importante falar que o Aquífero Guarani já está sendo poluído. Toda a água de Ribeirão Preto é do Aquífero Guarani. Não há rio que passa perto. Cem por cento do abastecimento de água de Ribeirão Preto vem do Aquífero Guarani. Lá só de poços abertos abandonados há 300. Um estudo do Departamento de Engenharia Agrícola da Unicamp mostra grandes manchas de poluição fruto dos poços abandonados, infiltração de agrotóxicos, pesticidas, herbicidas dos canaviais, além do vinhoto. E um aquífero não fica parado. É como se fosse um rio em movimento. Se você poli aqui a poluição vai deslocar. Estamos colocando em risco uma das maiores reservas estratégicas de água do futuro que é o Aquífero Guarani.

Wagner Oliveira - Os problemas são muitos. E as soluções são poucas. Qual deve finalmente ser o melhor discurso para o educador ambiental diante dessa problemática ambiental toda?

Valter Machado da Fonseca -
Vou voltar onde comecei. Educação Ambiental é um instrumento de grande potencial para politização. Através da ferramenta que se chama problemas ambientais você estuda questões de geopolítica que hoje estão atuando sobre nosso sistema planetário e a partir daí vai ter conscientização para minimizar essa questão. Minimizar e não acabar. Mas visualizando uma solução para uma sociedade depois do capital.


“Estamos cavando nossa própria sepultura, acabando com nossa própria espécie. A Terra vai continuar independentemente do homem”

Wagner Oliveira - O modelo de sociedade socialista seria o ideal? Causaria menos impacto ambiental? Seria mais sustentável?

Valter Machado da Fonseca -
Não tenho uma resposta acabada para esta pergunta. Se formos nos embasar na experiência com o tal “socialismo real” ou “socialismo possível”, fruto da ditadura stalinista da URSS, eu diria que não. A experiência soviética foi a total deturpação da proposta de Marx. Não podemos considerar que aquilo foi socialismo. Socialismo, na minha opinião, pressupõe partir da ideia de liberdade e a experiência soviética primou pela total ausência de liberdade. Diante disso podemos afirmar que o capitalismo não nos serve. Acho que devemos reexaminar a proposta inicial de Marx, é lógico que contextualizada para os tempos atuais. Acho que o socialismo em outros moldes diferentes dos da URSS é possível, outra sociedade é possível, a liberdade e a felicidade humana são viáveis sem o consumismo e numa relação mais harmônica com o planeta.


Leia também

Terra: 7 bilhões de habitantes e um mundo em ruínas






Aziz Ab’Sáber: um dos maiores Geógrafos de todos os tempos
 
 
 


.
.
.

Nenhum comentário:

Postar um comentário