"Educação ambiental
é falha no Brasil"
Professores sofrem dificuldades para ensinar educação ambiental em SP
Estudantes se interessam pela temática, mas professores não sabem como abordar Foto: Instituto Ecofaxina
Raíza Tourinho - Portal EcoD - www.ecod.org.br
Com a crença de que a educação ambiental é essencial para estimular a humanidade a agir em defesa do meio
ambiente, a bióloga Cláudia Ferreira dedicou dois anos (2009 e 2010)
para descobrir como a questão era abordada nas escolas pública
paulistas.
Para obter o título de doutora na Faculdade de
Educação da USP (Universidade São Paulo), a pesquisadora frequentou
salas de aula do ensino fundamental de três escolas estaduais da capital
paulista, acompanhando desde reuniões de planejamento pedagógico até as
aulas ofertadas aos estudantes. Além disso ela analisou o material
oferecido, entrevistou pais, professores e gestores.
“Todos
os professores dizem que é muito importante trabalhar o tema meio
ambiente. Só que na prática, eles não conseguem fazer isso"
Claudia Ferreira, bióloga
.
E
o cenário que viu não foi nada animador: apesar do interesse de
estudantes e o reconhecimento da importância do tema por parte dos
professores, a questão é mal abordada nas salas de aula. Para tal
constatação, motivos não faltam. Apesar de bem elaborado, o material
desenvolvido para a temática é entregue sem nenhuma orientação; não há
infraestrutura escolar; sem valorização e acompanhamento, os professores
desmotivam-se a agir.
Confira nesta entrevista, concedida ao EcoD por
telefone, o cenário que Claudia se deparou, os resultados do estudos, e
o que falta para pegar de vez a política da educação ambiental no
Brasil.
Claudia Ferreira:
Meu interesse era saber como o meio ambiente estava sendo trabalhado
nas escolas públicas de São Paulo. Aqui, a gente tem os materiais, com
diretrizes para os professores, que é enviado pelo Mec (Ministério da
Educação). Então, queria saber como é enviado esse material, como isso
chega aos professores, como eles trabalham no dia a dia o tema. Fiz uma
pesquisa bem ampla sobre o assunto. Fui investigar na Secretaria de
Educação como eram feitos esses materiais, analisei o conteúdo e depois
fui para a secretaria de ensino para saber como esse material chega lá e
é enviado para as escolas.
E qual foi a conclusão que a senhora chegou?
Os
materiais que analisei têm um conteúdo sobre o meio ambiente que acho
importante. Eles mandam esses materiais para as escolas, mas os
professores têm uma série de dificuldades para trabalhar esse tema em
sala de aula. Porque eles já não têm condições de infraestrutura para
poder trabalhar, eles tem baixos salários, desvalorização, não tem curso
de capacitação disponível. Fora que são sobrecarregados: como ganham
pouco, eles trabalham nos três turnos.
Existe uma Política
Nacional do Meio Ambiente, de 81, onde dizia que a educação ambiental
deveria ser oferecida em todos os níveis de ensino. Ou seja, isso é dito
desde 1981. Como é que até hoje não conseguimos colocar isso em
prática? Já deu tempo suficiente e até agora não conseguimos tirar as
coisas do papel efetivamente. Nossa Constituição Federal, de 1988,
também estabelece a educação ambiental em todos os níveis de ensino,
assim como conscientização pública e preservação do meio ambiente. Essas
coisas deveriam estar presentes no dia a dia da escola.
Projeto feito por estudantes de umas das escolas pesquisadas, a mais ativa. Foto: Arquivo Pessoal
E como é, na prática?
Fui
nas escolas, entrevistei os professores, analisei os materiais e
assisti as aulas. O que eu percebi é que todos os professores dizem que é
muito importante trabalhar o tema meio ambiente. Só que na prática,
eles não conseguem fazer isso. Os materiais chegam praticamente um mês
após as aulas começarem. Outra coisa é que quando chegam, não há uma
orientação nem preparação. Eles se sentem perdidos, não sabem o que
fazer com aquilo.
As escolas também não costumam usar o meio
ambiente próximo para abordar essa questão. Um exemplo é uma das escolas
que tinha um jardim lindo ao redor dela, mas o tempo todo em que fiquei
no local, quase seis meses, eles não foram lá nenhuma vez. Então, é
complicado porque eles tem uma coisa na mão que não é útil porque eles
não sabem trabalhar com isso.
Por qual motivo? Acomodação, falta de preparo?
Eles
falam assim: “ahh, não tenho tempo para isso, tenho muita coisa para
cumprir aqui” ou então “imagina sair com 47 pré-adolescentes de 12 anos,
eles vão fazer uma bagunça!’. Dessa forma, eles partem para aquilo que
é mais pragmático. Quem fica mais responsável para abordar este tema
são os professores de Ciências e Geografia. O que a gente percebe nas
políticas é que a Educação Ambiental deveria ser um tema gerador de
muitas outras coisas. Essa questão deveria ser vista de maneira
interdisciplinar.
Basicamente, o que
eu vejo nos professores é a falta de condições de trabalho, os
professores acabam deixando de lado essa abordagem. Tanto a Educação
Ambiental quanto qualquer outro projeto depende de condições básicas
necessárias para que tenha sucesso. Então, os professores deveriam ter
materiais disponíveis e mais tempo dentro da grade para fazer isso.
Mas
os professores não têm nenhum tipo de formação para aplicar esse
material em sala? Simplesmente é distribuído para os professores sem
nenhuma orientação?
Quando eu estive na Secretaria de
Educação eles disseram que quando criam os materiais reúnem os
professores de todas as escolas; fazem videoconferências; e mandam
orientações para a secretaria de ensino fazer capacitação com os
professores. Discurso, né?! Fui na diretoria de ensino para saber como
isso era aplicado e aí a história já mudou um pouco: eles disseram que,
de vez em quando, faz algum curso. Mas quando eu cheguei na escola, os
professores e coordenadores afirmaram que não têm orientação nenhuma,
que chegam os pacotes e mandam eles trabalharem o material. Cada
professor vai lidar com esse material da forma que conseguir.
E
a questão é que esses professores também não tiveram acesso à Educação
Ambiental durante sua formação. Qual era a percepção deles sobre o meio
ambiente, além de dizerem que era importante?
Eu percebi
que eles têm uma visão um pouco antropocêntrica, ou seja, colocando o
homem como dono da natureza. Uma hora ele (o homem) é o vilão, outra
hora ele é o coitadinho. Não há uma visão mais crítica que aborde os
efeitos históricos, sociais. Eles não conseguem se inserir neste meio
ambiente, perceber que fazem parte dele. E o que consta nos documentos é
que a gente tem que colocar na escola uma educação ambiental crítica,
que discuta o homem inclusive.
"O que faria uma
grande diferença é melhorar essa comunicação entre quem elabora as
políticas públicas, os materiais, e as escolas"
.
E a percepção dos alunos? Qual é?
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E a percepção dos alunos? Qual é?
Essa
é uma questão que eu gostaria de ter incluído no meu trabalho, mas não
consegui chegar até este foco. O que eu tenho dos alunos é os que os
professores me falaram e uma ou outra conversa informal. Eu percebi que
eles gostam de falar sobre o meio ambiente e se interessam pelo assunto.
Mas os professores têm que procurar atividades do dia a dia que faz
sentido para eles. Em uma escola, eles saíam com os alunos e viam os
problemas de lixo, água contaminada, de moradores de rua. Isso tudo
virava temas geradores. Era muito interessante. E isso tornava as
famílias mais engajadas e a comunidade mais unida.
Estudantes criaram brinquedos com materiais recicláveis/Foto: Arquivo Pessoal
Infelizmente,
pelo que eu sei, iniciativas como essa ainda são isoladas. Como
abranger um maior número de escolas? Como mudar este panorama?
Parte
muito da vontade, nem tanto de dinheiro. Depende muito da iniciativa
das escolas. O que faria uma grande diferença é melhorar essa
comunicação entre as escolas e quem elabora as políticas públicas e os
materiais. Porque parece que é jogado em uma caixinha lá de cima. Os
professores não foram consultados para a elaboração desses materiais,
além de não ter orientação sobre o seu uso.
Outra coisa é que a
equipe administrativa junto aos professores e alunos, poderia fazer a
sondagem dos problemas do bairro. As necessidades e interesses da
comunidade escolar poderiam servir de base para elaborar o projeto
político-pedagógico. Se essas coisas tiverem no documento inicial, os
professores vão conseguir trabalhar no dia a dia, enfrentar os
desafios, e partir para a ação.
E qual é o impacto do ensino de educação ambiental nas escolas?
Apesar
dos professores acharem importante (ensinar a educação ambiental), eles
relataram dificuldades, uma vez que a realidade dos alunos dessas
escolas é muito difícil. As famílias têm problemas com a realidade
sócio-econômica, desemprego, alcoolismo, violência, falta de condições
básicas e vida. Tudo isso levam elas a priorizarem as necessidades
imediatas ao invés do meio ambiente. No entanto, quando se faz
educação ambiental de verdade essas reflexões ultrapassam os muros da
escola e formam cidadãos mais críticos e conscientes do seu papel na
sociedade. Se existisse uma abordagem que mostre que não é cuidar só da
água, do lixo, mas das relações entre os indivíduos, a vida destas
pessoas poderia melhorar. Para muitas dessas crianças, a escola é o
único contato com uma cultura. O que a gente faz na escola contamina a
comunidade e afeta todos.
Fonte: Raíza Tourinho - Portal EcoD - www.ecod.org.br
Veja vídeo com entrevista Univesp TV
Veja vídeo com entrevista Univesp TV

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