20/12/2012
18/12/2012
Consumismo infantil:
na contramão da sustentabilidade
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| Cartilha para baixar Consumismo infantil: na contramão da sustentabilidade - Baixe aqui Baixe 118 cartilhas de educação ambiental e meio ambiente AQUI |
15/12/2012
Feira de Sementes e Mudas
da Chapada dos Veadeiros
Nos dias 15
e 16 de dezembro acontece em Alto Paraíso de Goiás a II Feira de Sementes e
Mudas da Chapada dos Veadeiros, promovida pelo Centro UnB Cerrado em parceria
com a Cooperativa Frutos do Paraíso. O evento tem como objetivo central a
criação de uma rede de conservação, difusão e troca de sementes crioulas na
região e será palco de importantes debates e do intercâmbio de experiências
entre agricultores locais, representantes do poder público, de organizações não governamentais, indígenas,
bem como professores da Universidade de Brasília (UnB) e comunidade em geral.
Uma série de
atividades compõe a programação da feira, que dá continuidade à discussão iniciada em 2011. Desta
vez, com enfoque exclusivo no resgate e utilização das sementes, por meio de
palestras, rodas de prosa e formação de grupos de trabalho que possibilitem o
aprofundamento e ampliação do conhecimento sobre o uso da agrobiodiversidade de
forma a contribuir para o desenvolvimento da agroecologia, da autonomia dos
agricultores e para a segurança e soberania alimentar na região.
A exposição,
troca e comercialização de sementes e mudas estão previstas para a tarde de sábado,
na Feira do Produtor Rural de Alto Paraíso, onde também será realizado o
lançamento de cartilhas sobre três comunidades rurais do município
(Assentamento Sílvio Rodrigues, Comunidade do Sertão e Povoado do Moinho). O
material, fruto de projetos implementados pelo Centro UnB Cerrado em 2011 e 2012,
traz o retrato histórico e socioeconômico de cada localidade, selando a conclusão
das atividades do ano letivo.
Encerrar o ano com a promoção da feira é uma oportunidade para
o Centro UnB Cerrado dar retorno à população de Alto Paraíso sobre ações executadas
em quase dois anos e consolidar a aliança com a Cooperativa, fortalecendo a
cadeia produtiva agroecológica da região. A troca de sementes é um momento
privilegiado para a constituição de redes de reciprocidade e para a transmissão
de conhecimentos. Além disso é parte fundamental no processo de conquista da
autonomia produtiva por parte dos agricultores e fator decisivo na garantia da
segurança alimentar na Chapada dos Veadeiros.
Fonte: feiradesementesemudas.blogspot
A cooperativa
sem o poder público
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"No dia 13 de dezembro de 2012 representantes do Coletivo Óbvios Mexidos,
Associação Pau Brasil, Estação Luz de Permacultura, Memorial da Classe
Operária - UGT e Movimento Panelaço fizeram uma visita à Cooperativa
Mãos Dadas, que realiza há 4 anos um trabalho de coleta seletiva de recicláveis no bairro Branca Sales.
A cooperativa fundada em março de 2005 tinha como objetivo a inserção social dos catadores na triagem dos recicláveis. Porém já há algum tempo os cooperados denunciam uma situação de precariedade e abandono pelo poder público."
"Aqui deu uma chuva e levou tudo. Essa prensa aqui está quebrada", diz representante da cooperativa. E complementa: "O reciclável vem em situação péssima. Vem sujo, com bicho morto". "Será que não dói na consciência das autoridades ver o sacrifício que estamos fazendo aqui?"
********
E na Rede Brasileira de Educação Ambiental - Rebea foi postado o comentário: "Este documentário revela duros aspectos do descaso público com a
Cooperativa Mãos Dadas que, desde 2009, realiza a triagem da coleta
seletiva de Ribeirão Preto. Importante que todos assistam e tomem
consciência dessa situação lamentável, mais um sintoma da desigualdade
social e da falta de interesse com políticas que protejam o meio
ambiente. Sem ter uma saída, continuamos reféns de um sistema econômico
baseado no consumismo e no desperdício dos bens naturais." (Vinícius
Barros)
Veja o vídeo:
10/12/2012
Estudo
indica que
pesca recreativa
afeta evolução de peixe
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Ricardo Bonalume Neto
Folha de São Paulo
A pesca recreativa em pesqueiros está afetando a evolução de uma espécie
de peixe segundo estudo feito nos EUA. Os peixes com melhor potencial reprodutivo
também são os mais vulneráveis a serem fisgados com um anzol.
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| Perca americana (Micropterus salmoides) |
A perca americana (Micropterus salmoides) é uma espécie na qual o macho
protege os ovos e os filhotes. Ele faz um "ninho" onde a fêmea coloca
os ovos para serem fertilizados. O macho fica tomando conta dos ovos,
abanando-os, e depois protege os alevinos por várias semanas. É um dos peixes
mais comuns em pesqueiros americanos.
A equipe de David A. H. Sutter, da Universidade de Illinois, Urbana,
Illinois, testou machos que foram artificialmente produzidos para ter maior ou
menor vulnerabilidade a serem pescados com anzol.
Os peixes mais agressivos tendem a ser pescados mais porque defendem o
ninho com mais intensidade e têm a tendência de atacarem mais as iscas.
Os pesquisadores testaram a hipótese de que, em idênticas condições
ecológicas, os peixes mais vulneráveis à pesca teriam maiores índices de
sucesso reprodutivo. Fizeram os testes em lagos artificiais com 48 peixes das
duas variedades, 45 dos quais receberam ovos das fêmeas em seus ninhos.
Os machos mais vulneráveis passaram uma parcela de tempo maior
defendendo os ninhos, enquanto os menos vulneráveis passaram mais temo longe do
ninho. Os mais vulneráveis também eram significativamente mais agressivos,
atacando potenciais predadores na forma de iscas sem anzol o dobro de vezes.
Eles testaram geneticamente 1.189 filhotes e notaram que 740 (62%) eram
criado dos machos mais vulneráveis à pesca e 449 (38%) dos menos vulneráveis.
"Nosso estudo mostrou conclusivamente que a pesca pode atingir
aqueles indivíduos que possuem o maior potencial de aptidão reprodutiva,
portanto estabelecendo o potencial de seleção de traços de comportamento que
ajudam um peixe a escapar da captura, mas no processo diminuir suas habilidades
de cuidado parental", escreveram os autores do estudo na revista
científica "PNAS".
Eles dizem que o estudo tem com consequências práticas eventuais na
qualidade de um pesqueiro, com o cenário evolutivo selecionando peixes com
menor capacidade de reprodução e mais esquivos.
Fonte: Publicado na Folha de São Paulo
Link: http://migre.me/ciV4s
01/12/2012
ESPECIAL
Luz para os Karajá
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“Educação ambiental que exclui as crianças
não tem futuro” (Luiz Alfredo) |
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“Temos aqui não só uma experiência sociológica de conviver com pessoas em
grupos, mas uma experiência antropológica que é conviver com grupos humanos que
têm valores, que têm princípios, que têm direitos diferentes”, diz Luiz Alfredo
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Rafael Balestra: Rafael
Balestra: “É inviável, pelos estudos que já fizemos, criar tracajá e tartaruga
em cativeiro porque o custo é maior do que o retorno”
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“Preservar a diversidade cultural é tão importante quanto preservar a
biodiversidade. Vejo aí um papel de educação ambiental para orientá-los no sentido
de que as ações deles sejam respeitadas mas que os conflitos sejam resolvidos
através das instituições”, diz Luiz Alfredo
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Wagner Oliveira - Qual curso vocês estão realizando aqui?
Luiz Alfredo – Fomos procurados
em 2009 pela Funai junto com a Associação dos Índios Karajá para ajudá-los. Uma
preocupação que eles estavam percebendo era a diminuição da quantidade de
tartarugas. Essa preocupação deles levou-os a pedir ajuda a um órgão especializado
no manejo de tartarugas. Como já temos uma experiência por meio do Rafael
[Balestra] de atividade bem sucedida com a conservação de tartarugas e,
principalmente, do tracajá no Xingu, com comunidade indígena, dispomo-nos a
ajudá-los e fizemos uma proposta de conhecer a área, ver a potencialidade do
local para realmente se fazer o manejo e o interesse de envolver a comunidade
karajá com essa nova atividade. Foi um pouco difícil porque a Funai se retirou
devido a problemas institucionais e ficamos só com esse sonho de realizar o
trabalho com os karajá e desde 2009 não houve avanço. Até que em 2011 surgiu
uma verba especial para um trabalho na Resex
Lago do Cedro e aproveitamos para cumprir esse compromisso com os karajá de dar
um curso de educação ambiental e manejo conservacionista de quelônios que é na
verdade o cuidado na natureza, mostrar para eles que é inviável, pelos estudos
que já fizemos, criar tracajá e tartaruga em cativeiro porque o custo é maior
do que o retorno. Financeiramente não é o animal que dá esse retorno. A
natureza cuida muito melhor, ele engorda muito mais rápido e é muito mais
saudável, mais protegido do que em cativeiro. Um grupo de jovens karajá se
interessou, viemos e fizemos uma pré-matrícula e 50 pessoas se inscreveram no curso,
entre crianças e adultos. Fizemos uma separação e um grupo ficou com educação
ambiental infantil de uma pedagoga enquanto trabalhamos com maiores de 15 anos.
Ela faz a parte de educação ambiental, de sensibilização com as crianças porque
acreditamos que educação ambiental que exclui as crianças não tem futuro. Desde
segunda feira estamos com este trabalho de primeiro sensibilizar para a questão
ambiental e mostrar que todos podem contribuir no seu nível de participação,
seja mulher, seja criança, seja homem. E, a partir de hoje, vai começar a
segunda parte do curso que é a parte de manejo especificamente, explicando para
eles como se faz cada etapa do manejo para que no final possamos criar o que
queremos que é o Núcleo Duro Ambiental com pessoas que vão se comprometer de
alguma forma a estar envolvidos com a preservação dos quelônios na natureza.
Seja diretamente como agente de praia, seja
indiretamente como o professor que vai divulgar e defender a ideia diante da
sociedade de que Aruanã é uma área de proteção de quelônios. Portanto os
acampamentos vão ter de se adequar a essa nova realidade, as praias
selecionadas para a desova e o cuidado terão de ser desocupadas porque a
prioridade vai ser a recuperação das populações que estão se extinguindo
e a extinção do tracajá e da tartaruga acaba colocando em risco toda a vida
karajá. Fora disso está também dentro de um programa maior que é o do
ordenamento do turismo, que seja um turismo que não prejudique, que não
inviabilize os recursos naturais.
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Wagner Oliveira - A
ideia principal é de preservação da tartaruga e do tracajá. Diante da
preservação como fica a cultura karajá de consumir o quelônio? Como poderão
continuar a cultura deles?
Luiz Alfredo – Sem a
preservação eles não vão ter nem a tartaruga nem a cultura. A ideia da
preservação é de salvar uma espécie e uma nação baseada no consumo desse
animal. Mas que tipo de consumo? É o consumo sustentável. O consumo de quem não
só tira. O consumo de quem tirou um animal com cuidado. É trazer conhecimento.
Aproveitar que eles é que pediram e que há uma demanda, uma curiosidade, uma
necessidade de saber que muitas vezes eles consomem e caçam o animal seguindo a
tradição karajá que muitas vezes não é 100% conservacionista. É trazer
conhecimentos para que eles possam melhor fazer o uso desse recurso e se
comprometerem com o seu cuidado também. Você vai ter a proteção dos ninhos, a
proteção dos filhotes, aumentar a sobrevivência dos filhotes. Saber poupar
alguma fase da vida dos animais. O estudo e juntos vamos construir algo
simétrico para que se descubra como seria a estratégia. Por exemplo: não caçar
os ovos, não consumir os ovos por um tempo ou não consumir os filhotes. Ou por
exemplo o que já está sendo feito: ensinamos as
crianças a terem hábitos alimentares que não inclua o ovo da tartaruga. É um
processo que se faz junto com a comunidade, não é para os Karajá, é com os
Karajá e com a intenção de que eles absorvam esse conhecimento que é de uso
conservacionista para que isso faça parte da cultura Karajá e quando formos
embora esse conhecimento fique na tribo para ser repassado para as crianças e
para as próximas gerações. Entendemos que é um recurso deles, eles têm
de usar, está no direito deles o uso mas tem de ser regulamentado de forma que
não se torne um comércio puro e simples, uma sobre-exploração
da natureza e coloque em risco a sobrevivência da espécie.
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Wagner Oliveira – O
que seria menos prejudicial: o índio pescar as tartarugas grandes que já botam
mais de 100 ovos ou as tartarugas pequenas? Que alternativa teríamos?
Leonardo Cândido – Os estudos para
consumo, para pesca da tartaruga não estão tão avançados como os de pescados,
de peixes. A legislação atual de peixes determina um tamanho mínimo, mas já há
estudos bem adiantados tentando mudar essa lógica de que não seria o tamanho
mínimo mas o tamanho intermediário. Teríamos o tamanho mínimo e o máximo porque
na verdade quando se estipula um tamanho mínimo você está tirando as maiores,
as matrizes e pode gerar um nanismo na população. Se fizermos uma analogia para
as populações das tartarugas podemos pensar nisso, um tamanho intermediário.
Nem as grandes nem as pequenas porque as pequenas teriam ainda a contribuir com
sua carga genética na população. Enquanto as maiores já seriam as matrizes e
estariam também contribuindo com sua genética de um tamanho maior. Estudos
foram com populações bem distintas geneticamente, biologicamente e
ecologicamente também e então temos de avançar mais. Mas já seria uma proposta.
Wagner Oliveira –
Poderíamos falar em uma quantidade mínima de centímetros?
Leonardo Cândido – Não temos ainda
esse tipo de estudo, ainda mais aqui na região.
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“Seria injusto pedir para o índio pescar com flecha e com recursos indígenas ao
lado do branco que está vindo para cá com seus equipamentos, com sua tralha e
desrespeitando”, diz Luiz Alfredo
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Wagner
Oliveira – Rafael, qual sua opinião sobre tamanho mínimo em centímetros para
quelônios serem pescados por índios?
Rafael Balestra – Em relação a definir
um uso sustentável da natureza, ainda não há uma legislação que normatize,
oriente o uso do recurso quelônios em ambiente natural. Não há ainda prática do manejo
sustentável, seja em unidade de conservação no âmbito estadual ou federal ou em
áreas fora de unidades de conservação. Como o colega [Leonardo Cândido] falou
anteriormente nós somos um dos principais fomentadores de que tipo de
trabalhos, pesquisas vão gerar dados que poderão subsidiar esse tipo de
legislação e esse tipo de prática. O que hoje é legalizado e está no âmbito do
Ibama são os sistemas de criação em cativeiro de alguns exemplares de
quelônios. A exemplo do que ocorre na Região Centro Oeste, no Araguaia, com as
tartarugas da Amazônia e os tracajás. Em sistemas de criação cujos os filhotes
recém-nascidos são repassados por agentes públicos federais, servidores do
Ibama para os criadouros devidamente credenciados quando eles atingem no caso
do tracajá 1,5 quilo; da tartaruga 2,5 quilos de peso bruto, peso vivo, é
permitido o abate e a comercialização local, regional. A interestadual ainda
está vetada porque ainda não foi possível, não desenvolvemos uma cadeia
produtiva e pesquisas, o certificado de inspeção federal chamado CIFE. Por isso
que o comércio ainda é local, regional em cidades da nossa região Centro-Oeste.
Temos um criador legalizado aqui e vários na Região Norte que comercializam
localmente. Com relação a perspectivas de uso são
necessários estudos de médio e longo prazo feitos com nível técnico avançado
porque para definirmos o que podemos usar da natureza precisamos saber o estado
da população. Para caracterizarmos quanto da natureza podemos retirar ou
pescar, no caso da tartaruga ou do tracajá, temos primeiro de ter conhecimento
de como está a população do Vale do Araguaia. O que temos de matrizes de tartarugas e tracajás, a
exemplo dessas espécies que são mais usadas, reproduzindo aqui? Quantas
estão na fase juvenil? Quantos machos reprodutores existem aqui? Temos de ter
estudo para pelo menos estimar, trabalhar com estimativa dada a dificuldade de
monitorar animais que são aquáticos, que têm grande área de vida ou rota
migratória. Sem estudos de monitoramento e características populacionais fica
difícil definirmos o quanto podemos utilizar. Em relação ao o que podemos utilizar
como o colega [Leonardo Cândido] bem falou os estudos indicam ou direcionam
faixas intermediárias. São indivíduos jovens, que sejam de interesse do
comércio, mas que não contemplem um número significativo das matrizes
reprodutoras porque são essas que perpetuam e mantêm a população. O que vamos
iniciar e trabalhar com a comunidade de Aruanã é definirmos quais são as
estratégias de abordagem, de estudos, quantos interessados teremos aqui porque
precisamos de parceiros locais para fazer esses estudos que são de médio a
longo prazo. Precisamos trabalhar o monitoramento de praias como Luiz Alfredo
colocou. No caso de Aruanã são áreas de uso balneários, com acampamentos e isso
de certa forma interfere no processo de reprodução dos quelônios aquáticos aqui
existentes. Vamos conhecer a realidade local para definir as principais
estratégias de ação. |
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Wagner Oliveira -
Onde funciona esse criatório de quelônios em Goiás e por que não funcionaria
para os índios?
Rafael
Balestra -
O que acontece em relação ao sistema de criação é que demanda altos
investimentos estruturais. Tanto na construção dos tanques quanto no trato.
Além disso os quelônios têm crescimento lento. Em um trato considerado adequado
uma tartaruga da Amazônia que, segundo a legislação vigente pode ser
comercializada com 2,5 quilos, leva no mínimo três anos para atingir esse peso.
A legislação previu por classe de peso e não por tamanho. São três anos de uma
alimentação consorciada com frutas, verduras e principalmente ração de 15 a 20%
de proteína animal que gera custos para o empreendimento. Os exemplos mais
favoráveis que temos na região Norte são daqueles criadores que têm
possibilidade de trabalhar o sistema semi-extensivo. Eles trabalham com tanques
ou cercados em pequenos córregos da Região Norte que se chamam igarapés,
pequenos corpos d’água, com água abundante, disponibilidade de frutos da mata
ciliar, recursos da própria propriedade rural que possam ser disponibilizados
para o empreendimento, plantio de mandioca, de milho, melancia. Fora a produção
de açaí, bacaba e sementes. Além disso, pescado, que são áreas de intensa
produção de peixes onde são usadas as aparas, as vísceras que reduzem um pouco
o custo e que também é semi-extensivo. Está lá no corpo d’água, é monitorado
constantemente mas não precisa de uma certa frequência de manutenção de tanques
como seria fora desse tipo de ambiente. Mesmo assim, pelos estudos que temos de
cadeia produtiva o lucro que se tem supera em pouco. Tem um percentual muito
pequeno em lucro em relação aos gastos. Os criadouros que têm mantido esse tipo
de atividade o fazem porque agregam valor à sua propriedade rural, têm aqueles
recursos como adorno de paisagem, um atrativo a mais para visitantes, turistas
e pessoas da comunidade que interessem em comprar o animal legalizado e que
pode ser comercializado. Além das dificuldades da criação há também outra
grande dificuldade identificada por nós que é a do mercado ilegal. Uma
tartaruga, hoje, para retirar os custos nas condições mais favoráveis em
virtude do tipo de ambiente e tipo de cultura da Região Norte que utiliza a
estrutura do próprio ambiente para manter os tanques - além da competição com o
mercado ilegal - onde uma tartaruga com 2,5 kg você tira todos os custos, o
quilo bruto da carne tinha de ser vendido no mínimo a R$ 25,00. E quem
comercializa ilegalmente, principalmente os quelônios na Região Norte, vende um
indivíduo adulto com mais de cinco quilos pelo valor de R$ 25,00 a R$ 30,00.
Tem também um preconceito local, regional de que a carne do indivíduo na
natureza é mais saborosa porque tem gosto dos frutos que ela se alimenta, da
mata ciliar, enquanto aquela do sistema de criação tem gosto de ração.
Preconceito semelhante aos que os frangos de granja passaram por muito tempo.
Então a cadeia produtiva de quelônios não está bem caracterizada, não está bem
construída, não existe um mercado bem estabelecido, especialmente no Centro
Oeste. Temos o exemplo de um criador no município de Mozarlândia, senhor José
Roberto, que tem tido sucesso relativo com a venda de quelônios em Goiânia,
porque dentro do mesmo estado se pode comercializar. Ele vende a carne já
processada. Dentro do próprio Estado ele tem permissão para comercializar.
"O dono do bar tem uma margem de lucro razoável e repassa o quilo da tartaruga a R$ 55,00, processada, preparada, o prato pronto. O preço do quilo bruto não pode ficar aquém dos R$ 25,00"
Wagner Oliveira -
Onde a pessoa pode comprar carne de tartaruga legalmente em Goiânia?
Rafael Balestra – Pode comprar
diretamente do proprietário por encomenda. Mas ele vende na propriedade dele em
Mozarlândia e tem um ponto de distribuição em Goiânia. Em Goiânia um local que
vende preparado é no Celso Bar no Setor Oeste, próximo da Assis Chateaubriand.
Wagner Oliveira - O
criador tem todas as licenças, sua produção é legalizada e o bar também
comercializa a carne de quelônios de acordo com o que exige a lei?
Rafael Balestra - Absolutamente. Sem
dúvida. O dono do bar tem uma margem de lucro razoável e repassa o quilo da
tartaruga a R$ 55,00, processada, preparada, o prato pronto. O preço do quilo
bruto não pode ficar aquém dos R$ 25,00 porque aquela é a condição mais
favorável de criação. É difícil criar, é difícil estabelecer o mercado, onde
esses animais ocorrem há competição desleal com o mercado informal, mercado
negro.
Wagner Oliveira -
Há mais locais onde se pode comer a carne de tartaruga com consciência
tranquila e sem infringir as leis?
Leonardo Cândido – Há vários bares
em Goiânia que vendem. Pessoal no Centro-Oeste tem essa cultura de comer carnes
de caça, carnes exóticas.
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Wagner Oliveira -
Legislação proíbe em Goiás pesca de pirarucu, pirara e filhote e estabelece
tamanho mínimo para pesca de algumas espécies. O senhor propõe então tamanho
mínimo para que os índios capturem quelônios? Precisamos adequar a legislação?
Luiz Alfredo - Falar só que é
proibido e que o índio não deve comer é uma utopia hoje.
Há que se verificar a
legislação específica para o índio. Enquanto para o branco o consumo e a caça é
proibida e ele pode ser enquadrado na legislação ambiental como um criminoso
ambiental, o uso e o consumo pelo índio dos animais capturados em suas terras é
permitido dentro dessas condições para o uso de subsistência, de sobrevivência.
O que está acontecendo é uma irregularidade com o
consumo usando a prerrogativa de que o índio pode caçar para o consumo. Ele
acaba servindo à sociedade como um meio para ela ter acesso a essas tartarugas.
Como nosso objetivo é educacional, é conversar com eles, é rever posturas, é
encontrar caminhos, alternativas, a educação ambiental não vai inviabilizar o
cumprimento de uma legislação, não vai inviabilizar a vida de uma comunidade. É
exatamente tentar encontrar os caminhos que permitem o uso e a sobrevivência
deles com alternativas de renda. A demonstração disso é que junto com o curso
trazemos a oficina de organização produtiva. É como eu posso desenvolver
atividades empreendedoras, comércio ou qualquer outra atividade geradora de
renda que não cause impacto ambiental ou que cause o mínimo impacto ambiental.
O novo caminho da educação ambiental é exatamente esse: abrir as alternativas
para não ter o papel de fiscalização e de proibição. Mas sim uma nova forma de
lidar com a natureza que permita a sobrevivência das comunidades e também a
recuperação das populações naturais.
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“Mas o que acontece no nosso Estado é que não temos pesquisa suficiente para
determinar isso. Estamos demandando e muito em pesquisa. A pesca comercial é proibida
no Estado em virtude de não termos estudos. Nunca foram feitos estudos”, diz Leonardo Cândido
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Wagner Oliveira -
No caso do Rio Araguaia o ribeirinho deveria fazer o quê? Poderia montar uma
cooperativa, buscar recursos por meio de projetos do governo para comprar
equipamentos?
O que poderia ser feito para que se tivesse tartaruga para consumo do
ribeirinho e comercialização de forma legalizada?
Rafael Balestra - A exemplo da
piscicultura, acho a organização comunitária com interesse comum. Com a
comunidade organizada fica mais fácil conseguir recursos governamentais.
Segundo a legislação vigente, hoje, para comercialização de quelônios tem de
ter caracterizada uma associação com CNPJ. Ainda não há linha de crédito de
investimento, linhas bancárias para esse tipo de fomento, a participação do
órgão responsável, que no caso é o Ibama, que trabalhamos com a conservação
propriamente e com o manejo sustentável. O Ibama é que está responsável, hoje,
pela atividade de criação comercial. Do ponto de vista técnico haveria
necessidade sim da condução, da orientação porque é um órgão que tem
experiência de mais de 30 anos no fomento a esse tipo de atividade por meio de
um dos braços do projeto Quelônios da Amazônia que tinha forte componente na
produção comercial. Tem de ter um pouco de tudo isso: organização comunitária
com esse objetivo, demandas locais e por sua vez investimentos em nível
nacional ou até mesmo local por parte de linhas de
crédito para fomentar esse tipo de criação - elas não existem e isso posso
dizer com toda a certeza. Os investimentos hoje na propriedade rural ou na
atividade que envolve a natureza são muito restritas. Não há nada específico
para a criação de quelônios ou atividades correlatas. Existe algum nível de
investimento para piscicultura. Bastante exigente para a comunidade indígena
porque muitas vezes não tem um nível de organização. Acho que o caminho seria
fomentarmos esse tipo de atividade. Agora do ponto de vista de manutenção do
hábito alimentar, da manutenção da seguridade alimentar e hábitos culturais
milenares que envolvam esses animais, os quelônios, o manejo conservacionista
se adéqua porque ele é um manejo em prol da recuperação populacional ou da
manutenção populacional. A princípio não sabemos qual população está aqui em
Aruanã ou nessa região do Araguaia. Sabemos de outras e podemos até
projetar, estimar. Mas estudos específicos com tartarugas de água de Aruanã
para saber qual é a tendência populacional, se é decréscimo, se é de
estabilidade ou até mesmo de crescimento não temos. Temos relatos comunitários
que indicam que elas estão declinando, porque o organismo que em outro momento
fazia parte frequente da fonte de proteína desses índios está desaparecendo.
Muitos assumem uma certa responsabilidade, uma certa culpa de estarem fazendo
uma exploração não só para subsistência, não só para
consumo. Foi declarado por inúmeros comunitários aqui a não comercialização. E
a venda muitas vezes não como objeto de comércio prioritário, mas
secundário em relação a pesca. Então com base nesses indicativos, no primeiro
momento os estudos de caracterização do estado das populações são
conservacionistas. Não podemos extrair os espécimes da natureza e colocar em
sistemas de criação extensiva ou semi-extensiva, tanques ou cercados em lagos
marginais no Araguaia ou às margens do próprio Araguaia se não sabemos o que
podemos extrair da natureza. De repetente poderíamos no primeiro momento
extrair alguns filhotes daquelas áreas protegidas que em outros momentos
estariam inviabilizadas por uso de acampamentos ou por predação de ovos tanto
por parte de predadores naturais como dos próprios usuários porque aqui é muito
frequente o consumo dos ovos também. Então cultivar, criar esses filhotes em
tanques seria uma estratégia sustentável, morosa, levariam quatro anos nas
melhores das condições para termos o recurso a ponto de comercialização. Ao
mesmo tempo sensibilizando a sociedade que compra e consome na cidade de Aruanã
para consumir o recurso que de certa forma é criado de maneira o mais próximo
possível do natural mas não é como o natural. Mas é interessante ficar claro
que propostas, expectativas de criação comercial existem para qualquer recurso
da fauna. No entanto, a metodologia, as variáveis envolvidas e os tipos de
manejos sustentáveis tem de ser muito bem estudados por meio de caracterização
de estado de população e daí então tudo começa por meio das estratégias ou
manejos conservacionistas para podermos incentivar, indicar ou até atuarmos
nesse manejo para a conservação
Wagner Oliveira - Temos a época do defeso durante a piracema que em Goiás e
para pesca embarcada vai de 1º de novembro deste ano a 28 de fevereiro do ano
que vem. O pescador é proibido de pescar mas muitos conseguem receber
uma ajuda do governo federal no valor de um salário mínimo. Só que sobem
cardumes de matrinxãs, piaus e outros fora do período de defeso e pescadores
acabam pescando com rede, tarrafa, pesca predatória. A legislação deveria ser
alterada? O que deveríamos fazer para adequar à lei, proteger o peixe que sobe
pelo rio?
Leonardo Cândido – a migração que
está ocorrendo agora é a migração trófica. É a
migração de alimentação, não é a migração reprodutiva.
Essa migração ocorre ao longo do ano todo. Ela não para. O que a legislação
protege é a migração reprodutiva dos cardumes que estão subindo para se
reproduzirem nas cabeceiras. Então não tem como a legislação proteger o cardume
o ano todo que seria impedir a pesca em 100%. Mas mesmo a migração reprodutiva
já tem se notado que está sendo deslocado o seu período com até a questão da
mudança climática, mudança das chuvas que é o que regula essa movimentação dos
peixes. Já se pensou em fazer uma alteração disso também. Ao invés de ser nesse
período, adiantar ele um pouco mais, de repente começar um pouco mais para
frente e terminar um pouco depois. Mas o que acontece no nosso Estado é que não
temos pesquisa suficiente para determinar isso. Estamos demandando e muito em
pesquisa. A pesca comercial
é proibida no Estado em virtude de não termos estudos. Nunca foram feitos
estudos. Nós demandamos disso para qualquer alteração que se venha a fazer
correndo o risco de se fazer alteração que seja mais prejudicial ainda.
Wagner Oliveira -
Um assunto polêmico: alguns índios na margem do Mato Grosso, em frente a Aruanã,
pescam com rede em cima do cardume trófico. Qual a opinião de vocês?
Leonardo Cândido – Na verdade eles
estão completamente protegidos. Eles estão dentro do território deles fazendo
uma pesca tradicional e então não temos nem como contestar isso. O grande
impacto disso é que eles ocupam aldeia urbana. Praticamente em frente da cidade
e todas atividades que eles exercem está na vista, na vitrine para a cidade
observar. Muitas vezes o que se sente é na verdade uma questão de injustiça por
parte dos próprios pescadores ou turistas que veem os
indígenas exercendo uma atividade que a eles [pescadores] não é
permitida.
Wagner Oliveira -
Qual o impacto dessa pesca exercida com rede em cima dos cardumes pelos índios?
Leonardo Cândido - Tem um impacto
muito diferenciado do que se faz com vara, com linha de mão. Mas daí a ser um
impacto que vai diminuir as populações e acabar com as populações acho que não
chega a esse ponto. O que temos notado são relatos de pessoas em Aruanã que
lidam com esse recurso é que um cardume como esses nunca existiu nos últimos
tempos. Só quem já viu isso são os antigos, há muito tempo atrás. Subida de
cardumes do tamanho que está subindo... A atividade indígena existe desde
sempre. Então podemos imaginar que não seja esse o impacto que estava sendo
causado. Está tendo algum efeito que está favorecendo as populações de peixes
no Rio Araguaia pelo menos nesse trecho que não sabemos qual é ainda. Pode ser
talvez a proteção da piracema. Segundo relatos a piracema deste ano (2011) foi
muito bem estabelecida. O próprio depoimento do Batalhão Ambiental de que não
havia ninguém pescando. Eles saiam fiscalizando e não encontravam ninguém no
rio. Pode ser esse tipo de estratégia que tenha dado certo.
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Wagner Oliveira -
Como você vê a pesca com redes por índios?
Rafael Balestra – Na minha opinião acho que o uso da rede e outros apetrechos de
pesca é uma adaptação por parte dos índios de instrumentos do não índio. Eu sei
que a legislação federal resguarda aos índios o direito de usufruto das terras
da União disponibilizadas aos índios para que eles façam delas o uso que melhor
lhes convier. Cabe aos órgãos ambientais, a própria Funai e órgãos que atendem
ao índio e aos órgãos de educação trabalhar com a educação ambiental e
orientação quanto a melhor forma de eles fazerem o uso desses recursos. Em
outros momentos eles tinham a disponibilidade de terras muito maiores,
era uma abundância muito grande de recursos naturais e como não geravam
excedente, porque não tinham interesse na comercialização - juntavam essas duas
forças: grandes extensões de terras com muitos recursos disponíveis - eram
favorecidos quanto a usar as riquezas naturais como fosse mais conveniente. O
que acontece é que a sociedade circundante a eles e a própria sociedade deles
mudou. Hoje, eles têm populações maiores, terras menores, terras já saturadas
em relação ao uso, esgotadas em certos recursos. Percebo é que quando eles
adaptam o instrumento de pesca proibido, especialmente aqui no nosso Estado
como são as redes, sejam as malhadeiras ou as de arrasto, acho que estão
incorporando os instrumentos de pesca predatório, extremamente eficazes na
captura mas que não atende ao princípio básico do que a legislação resguarda a
eles que seria o direito a subsistência, sobreviver dos recursos naturais.
Percebo que estão utilizando um instrumento para coletar espécimes em excedente
para promoverem a venda para os não índios. Infelizmente essa cadeia comercial
se consolidou bem e ela não é devidamente fiscalizada. Existem aqueles que
consomem e são muitos. Se existe a procura existe o interesse deles em
comercializar, em vender os peixes. Acredito que o uso de tais instrumentos e a
pesca de peixes de qualquer espécie e em qualquer medida que aqui por lei é restrita, poderia
na pior das hipóteses ser feita no interior das terras indígenas. Entendo que a
divisa da terra indígena deles é um rio federal de uso coletivo na extensão de
um Araguaia. Não vejo com bons olhos a comunidade indígena à vista do poder
público local, municipal, estadual e federal fazerem uso desse recurso. Porque
é área de influência e uso cultural e alimentar, mas além disso é área da
União, área que pertence a todos nós e área limite a suas terras. Acho que
deveria, enquanto se desenvolve um processo de sensibilização, educação e
normatização, haver sim uma certa restrição, uma fiscalização mais frequente e
mais ostensiva para mitigar um pouco do impacto.
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Wagner Oliveira -
Há campanhas contra droga, tráfico de armas. Apresentam as drogas como
financiadoras do tráfico de armas, do crime. Assim quem compra o peixe que não
está legalizado também está financiando essa pesca predatória. Poderiam até ser
feitas campanhas mostrando a responsabilidade de quem compra o peixe pescado
com redes, de forma predatória.
Rafael Balestra – Exatamente!
Quando eu falei que há a procura é para trabalhar nessas duas linhas. Temos de
trabalhar no sentido macro social, a sociedade
circundante envolvente a eles porque eles estão restritos, a sua área de
atuação é muito restrita à terra indígena e a área de influência ou área
circundante a ela. Mas é recorrente segundo entrevista feita com eles e
na nossa experiência com o contato feito com eles a vinda de pessoas de outros
municípios com o objetivo exclusivo de compra de peixes de espécies diversas e
inclusive algumas proibidas por lei a sua coleta e de tamanhos diversos como
podemos perceber. Posso declarar isso porque tive essas informações com o
contato direto com eles. Além disso o turismo que se intensifica muito durante
certos períodos do ano faz o consumo ser intenso em época de migração dos
peixes, período de alimentação. Isso intensifica ainda mais o impacto causado.
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Wagner Oliveira –
Já fizeram trabalho de educação ambiental em parceria órgãos como Semarh,
ICMbio e Ibama em temporadas passadas. Fomos a acampamentos e quando chegamos o
acampamento estava irregular. Como o senhor vê a pesca indígena com redes?
Luiz Alfredo – Gera uma área de
conflito realmente porque a compreensão do turista do que é terra indígena e
terra não indígena não é muito clara. Então o índio tem direitos que
historicamente não foram respeitados e eles têm de se organizar para que esses
direitos sejam respeitados. É muito difícil você ir a casa do outro, uma terra
indígena, e querer por suas regras. O princípio básico é minha casa, minhas
regras. O índio tem de colaborar na colocação das regras, que no caso estão
estabelecidas pelas normas de convivência, mas temos de entender que é a casa
deles e que os turistas são os visitantes. O que o índio está fazendo dentro da
casa deles, dentro do que a lei regula o uso dos recursos é que deve ser o
objeto da educação ambiental. Temos aqui não só uma experiência sociológica de
conviver com pessoas em grupos, mas uma experiência antropológica que é
conviver com grupos humanos que têm valores, que têm princípios, que têm
direitos diferentes. São duas culturas. O índio karajá se quer precisaria por
lei falar o português. Poderia continuar usando a língua dele, conservando sua
cultura. E preservar a diversidade cultural é tão importante quanto preservar a
biodiversidade. Vejo aí um papel de educação ambiental para orientá-los no
sentido de que as ações deles sejam respeitadas mas que os conflitos sejam
resolvidos através das instituições. A Funai, que está menos fortalecida neste
momento, os outros órgãos federais olharem para o índio com um olhar diferente
daquele que veio aqui e tem os seus recursos, o seu salário, sua fonte. E o
índio não, eles estão muito vulneráveis porque dependem da natureza para
adquirir o seu recurso e essa natureza está cada vez menor geograficamente ou
mais pobre em recursos. Na conversa com eles sobre pescaria falamos é que se não
fizermos isso não vão pegar peixe suficiente nem para consumo. Porque os ditos
pescadores estão pescando com rede. Fica uma crítica ao índio que pesca com
rede na sua própria terra e envolta dele o pescador pescando com rede às vezes
na terra indígena ou fora. Mas é um conflito porque a competição pelo recurso,
pescado, é muito grande. Seria injusto pedir para o índio pescar com flecha e
com recursos indígenas ao lado do branco que está vindo para cá com seus
equipamentos, com sua tralha e desrespeitando. A fiscalização deveria ser de
uma forma que regulasse mesmo e que o índio tivesse orientação para que ele
pudesse fazer uso de sua terra da melhor forma possível sem infringir a lei e
sem provocar no branco essa revolta de olhar e ver o índio fazer uma coisa que
ele não pode fazer. Mas também não pode esquecer que tem muita coisa que o
branco pode fazer e que é vedado ao índio, que a cultura dele não permite
fazer.
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| Não podemos extrair os espécimes da natureza e colocar em sistemas de criação extensiva ou semi-extensiva, tanques ou cercados em lagos marginais no Araguaia ou às margens do próprio Araguaia se não sabemos o que podemos extrair da natureza”, diz Rafael Balestra |
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Wagner Oliveira -
Quando o índio pesca os peixes na rede escolhe os peixes mais fáceis de serem
comercializados. O botoado, o jaraqui, a cachorra larga, papaterra, bicuda são
descartados. Qual o prejuízo para o Rio Araguaia com essa seleção? Qual a
consequência para o rio, para o meio ambiente, para as populações ribeirinhas?
Rafael Balestra – Uma vez que é
retirado recursos que não se adequam a finalidade comercial, mas são
inviabilizados, são mortos, são descartados, retira-se elementos que fazem
parte da cadeia alimentar, da teia alimentar que mantêm o equilíbrio do
ecossistema aquático. Além disso é uma infração ambiental grave, agressiva e
que promove o desserviço ambiental uma vez que há a percepção e isso torna-se
público, descarte de recursos que têm também sua importância alimentar. São
descartados porque não são de grande facilidade de venda. Mas obviamente podem
ser utilizados na alimentação pela qualidade de sua carne, pelas vantagens que
a carne de pescado tem. Mas uma vez que são descartados além de ser agressivo
socialmente e ambientalmente falando, isso pode ser consolidado na cultura
ambiental dos jovens e adolescentes que estão ainda em formação como sendo uma
prática comum e corrente que faz parte do hábito cultural deles e que ele tem
de continuar, permanecer e fazer e mostrar para seu filho que isso é feito. Que peixes ruins, que homem branco não gosta
não servem para nada. Na pior das hipóteses esses peixes servem para manter o
equilíbrio das populações porque aquele peixe que ele está vendendo que é
considerado nobre, de fácil venda, se alimenta de um daqueles peixes que ele está
descartando, jogando fora. Se ele quiser continuar tendo esses peixes aí ele
tem de manter aqueles outros peixes menores, muitos dos quais herbívoros, que
fazem parte da cadeia alimentar e que mantêm as populações dos peixes
comercializados.
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Wagner Oliveira –
Alguém mais quer comentar?
Luiz Alfredo – O que tenho
observado é que na hora de coletar a rede eles fazem uma separação realmente
daqueles que têm uma utilidade. E pelo que eu vi, devolvendo ao rio aqueles que
eles não querem como cascudo e algum tipo de peixe que eles filtraram como
sendo não comercial ou que não estava no momento de ser consumido. Então a
minha experiência pessoal foi de vê-los devolvendo ao rio aqueles não
comercializados e não o descarte puro e simples no seco. Então pode coexistir
esses dois comportamentos. Há pessoas que têm um pouquinho mais de
sensibilidade, que faz essa seleção, às vezes ainda até no barco, e tem uns
menos avisados ou que não atentaram ainda para a importância desses outros
peixes que não são importantes para o comércio humano mas são importantes para
o equilíbrio do ambiente e a produção de mais pescado.
“O
novo caminho da educação ambiental é abrir as alternativas para não ter o papel
de fiscalização e de proibição. Mas sim uma nova forma de lidar com a natureza
que permita a sobrevivência das comunidades e também a recuperação das
populações naturais”
Wagner Oliveira –
Estivemos na Aldeia Buridina fazendo um trabalho de educação ambiental,
inclusive com as crianças, e vocês estão fazendo esse trabalho também, e
percebemos a diferença na recepção das crianças em relação a alguns adultos que
não querem nem discutir mais assuntos polêmicos. As crianças estavam
receptivas, brincando, fazendo a separação dos recicláveis e atentas a
informações novas. Vocês percebem também a maior receptividade das crianças
karajá em relação a educação ambiental agora com esse curso que realizam na
aldeia Buridina?
Luiz Alfredo – Essa percepção se
confirma. As crianças, inclusive em termos de participação, abrem-se para as
brincadeiras. O adulto é mais fechado. O adolescente está meio desiludido, meio
decepcionado. Temos grupos muito variados dentro da aldeia em relação à
proposta de educação ambiental. As crianças são praticamente receptivas,
inteiramente voltadas para entender, para participar das atividades de educação
ambiental. Os adultos: acabamos tendo um próprio aporte das professoras que
davam curso no noturno, elas preferiram trazer os alunos para participarem do
curso. Temos mais de seis professoras que estão fazendo o curso, dando essa
contribuição e levando um pouco da educação ambiental. Entre os índios
(adultos) estamos tentando fazer um grupo que inicialmente parecia muito
pequeno e que agora começou a ter uma certa esperança de que vamos conseguir
fazer o número mínimo de pessoas que possa realmente se envolver e dar
continuidade a esse trabalho porque esse curso é vital para decidir se o
trabalho vai continuar ou não. Se o nível de interesse e de disponibilidade
deles é tal que permita se levar a diante um projeto que vai envolver voluntariado, conhecimento, compromisso. O curso além de
levar o conhecimento tenta ser uma forma de captar os indígenas com real
potencial de serem manejadores de quelônios conservacionistas. Mas os adultos
são realmente mais difíceis de serem conquistados. A vantagem nossa é que não
está havendo um esvaziamento do curso. Pelo contrário, a cada dia o número de
pessoas que chegam, aproximam-se, agregam-se é maior.
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Cacique Raul da Aldeia Buridina em Aruanã observa peça em madeira. Índios pediram curso depois que constataram que tartarugas estão diminuindo no Rio Araguaia
Wagner Oliveira – Qual a função do boto no rio? Ele ajuda ou só come
peixe?
Leonardo Cândido – Boto não tem função
nenhuma. Não existe isso dentro da ecologia. A ação dele permite várias coisas.
Ele faz parte de uma cadeia alimentar, faz parte de uma cadeia trófica que
compõe junto com os outros. Mas sabemos que essa atividade dele tem muitas
funções benéficas diante de um todo. Por exemplo ele elimina os peixes mais
doentes, mais fracos, distribui o cardume ao
longo dos lagos. Ele tem uma série de funções que geram benefícios para toda a
comunidade biótica que tem dentro do rio. Até com a diminuição da população de
peixes gera uma competição muito grande entre o boto e os pescadores. Sempre
tem a fala dos pescadores contra o boto, que o boto atrapalha a pesca. Mas na
verdade eles estão competindo. O boto está competindo com o pescador pelo mesmo
recurso que está escasso. Aí gera o mito de que o boto come 200 quilos de peixe
por dia. Isso também cabe esclarecimento da população de que o boto tem um
papel dentro da cadeia e não tem necessariamente de servir ao ser humano, ter
uma função, assim como as abelhas fazem o mel. Ele não tem função alguma. Ele
simplesmente está ali para cumprir a base da cadeia...
Wagner Oliveira – Há biólogo que diz
que 'o boto é o pastor que pastoreia os peixes na piracema quando os peixes
sobem pelo rio para desovar lá em cima...'
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Wagner Oliveira -
Qual a importância da tartaruga dentro do rio?
Rafael Balestra – Enquanto um
elemento que faz parte da diversidade aquática, ela é muito importante. Vamos
focar nesses exemplos, a tartaruga da Amazônia e o tracajá. São organismos
onívoros, que se alimentam desde pequeno de moluscos, peixes, frutos da mata
ciliar. Então têm uma diversidade alimentar muito grande. Fazem sua reprodução
de maneira gregária, especialmente a tartaruga. Se agregam em grandes
quantidades de fêmeas, selecionam os locais de reprodução e fazem grande
desovas, a tartaruga da Amazônia coloca de 80 a 120 ovos. Daí uma estratégia
evolutiva da espécie, colocar grande quantidade de ovos em um mesmo lugar.
Porque esses ovos alimentam vários outros animais durante a estação
reprodutiva. Os ovos alimentam teiús, iguanas, raposas, formigas, urubus e
vários outros que são alimentados com essa grande quantidade de ovos. Mas
sempre ficam ovos remanescentes que originam filhotes que por sua vez alimentam
outra grande quantidade de organismos que estão no ambiente aquático a exemplo
de piranhas, pirararas, outros peixes predadores. Alimentam também na saída do
ninho outras aves como gaviões, carcarás, jacarés. Mesmo assim alguns
remanescentes desses perpetuam e mantêm a população. De 1% a 2% de um ninho ou
de uma quantidade de ovos colocados em um local chegam a idade adulta, idade
reprodutiva. Mas em uma condição natural isso mantém a população. Tanto que as
populações de quelônios ainda mantêm estoques relativamente estáveis, elas
estão bem em termos populacionais no Brasil. Das espécies Amazônicas só as que
ocorrem no Brasil é que não estão implicadas em uma lista nacional de ameaças.
Das espécies que ocorrem no Brasil e ocorrem por exemplo na Colômbia, na
Venezuela, Peru, lá elas estão em listas nacionais ou internacionais. A
tartaruga é muito importante para a manutenção do equilíbrio do ecossistema
aquático e não aquático. Além disso, ela está presente na dieta alimentar de
quase todas as comunidades tradicionais ribeirinhas, indígenas da região
Centro-Oeste e Norte do Brasil. É tão frequente e tão comumente utilizada que
faz parte dos rituais religiosos e da cultura. Os povos do Xingu, por exemplo,
que é uma área que tenho uma certa experiência, [acreditam] que foi o tracajá
que originou o Rio Xingu. Através da escavação das terras conseguiu canalizar a
água do Rio Xingu para os povos daquela região e eles creem nisso piamente, faz
parte da cultura religiosa deles. Só para contextualizar o exemplo da
importância cultural desses organismos também. |
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Luiz Alfredo:
“Órgãos federais tem de olhar para o índio com um olhar diferente daquele que
veio aqui e tem os seus recursos, o seu salário, sua fonte. E o índio não, eles
estão muito vulneráveis porque dependem da natureza para adquirir o seu recurso
e essa natureza está cada vez menor geograficamente ou mais pobre em recursos”
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| Cacique Raul assiste ao curso na Aldeia Buridina, em Aruanã |
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| A entrevista foi na mesa do restaurante às margens do Rio Araguaia logo após o almoço. |
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